Das costureiras aos robôs: como duas fábricas portuguesas conquistam as grandes marcas de luxo

Fátima Castro,

Da tecnologia à confeção de peças para marcas de luxo, duas fábricas de Paços de Ferreira mostram como o têxtil português evoluiu para segmentos de maior valor acrescentado.

Duas fábricas, dois modelos de negócio e um objetivo comum: mostrar os bastidores de uma indústria que produz para algumas das maiores marcas de luxo do mundo. Integradas no roteiro do Portugal Fashion Experience, a Givachoice Garments e a Spring Garment Experts abriram as portas para revelar como a tecnologia, a especialização e o investimento estão a transformar o setor têxtil português.

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Poucos metros depois de entrarmos no complexo industrial de Seroa, em Paços de Ferreira, deparamo-nos com a fábrica da Givachoice Garments, um edifício de três pisos com cinco mil metros quadrados de onde saem 350 mil peças para as “melhores marcas de luxo da Europa e do mundo” – Dior, Carolina Herrera, Hugo Boss, Marc Cain, Isabel Marant, Sézane ou Courrèges.

No interior da fábrica una máquina robotizada fotografa um rolo de seda, posiciona automaticamente o tecido e inicia um corte ao milímetro. Daquele tecido estampado nascerá um top para a Carolina Herrera. É apenas uma entre milhares de peças de luxo que todos os anos saem desta fábrica portuguesa para algumas das mais prestigiadas marcas internacionais.

Com cinco linhas de produção, a Givachoice Garments exporta a totalidade da produção para mercados como Alemanha, França, Reino Unido e Austrália.

A empresa nasceu em 2012 pela mão de Conceição Barbosa, depois de uma longa carreira como diretora comercial na indústria têxtil. Ao projeto juntaram-se a filha, Ana Almeida, e o genro, Ricardo Almeida, formando uma empresa familiar que, em 14 anos, já expandiu as instalações por três vezes para acompanhar o crescimento da atividade.

Fundadores da Givachoice Garments: Ana Almeida, Ricardo Almeida e Conceição Barbosa Ricardo Castelo / ECO

Além da unidade de Seroa, a empresa mantém desde 2015 uma segunda fábrica em Gondomar, dedicada à produção de peças mais delicadas e de confeção mais manual. “É um produto menos industrializado, mais delicado e que exige outro tipo de especialização”, explica Ana Almeida durante a visita.

No piso da confeção, mais de 120 costureiras trabalham diariamente com tecidos leves e nobres destinados ao segmento de luxo. À primeira vista, o processo parece simples, mas rapidamente se percebe o elevado grau de precisão exigido. Moldes, tesouras de grandes dimensões e cálculos constantes fazem parte do dia-a-dia de quem transforma tecidos em peças que chegarão às montras das principais capitais da moda.

Apesar da confeção continuar a depender da experiência e do trabalho manual, a automação ganhou um peso crescente na fábrica. Nos últimos anos, a empresa investiu em duas máquinas de corte automático — adquiridas em 2018 e 2023 — que permitiram aumentar a produtividade em cerca de 80%.

Uma delas funciona de forma praticamente autónoma: fotografa o rolo de tecido, identifica os padrões, posiciona automaticamente o material e corta cada peça com elevada precisão. Durante a visita, preparava-se o corte de uma seda. Neste tipo de tecidos, cerca de 40% do material acaba inevitavelmente desperdiçado para garantir que os desenhos ficam perfeitamente alinhados em todas as peças.

Ao lado, outra máquina de corte automático consegue cortar até 20 peças em simultâneo, processando, em média, cerca de 1.500 peças por dia.

Para garantir que todo o equipamento funciona sem interrupções, a empresa dispõe ainda de uma oficina própria, onde três engenheiros mecânicos asseguram a manutenção e reparação das máquinas.

A fábrica integra todas as etapas do processo produtivo — corte, confeção, acabamento, controlo de qualidade, embalagem, armazenamento e expedição — embora cerca de 40% da produção seja subcontratada a outras empresas, sobretudo para peças produzidas com tecidos mais pesados, como fazendas ou sarjas.

Apesar do desperdício inevitável associado à produção de vestuário de luxo, a empresa garante que cerca de 96% dos resíduos têxteis são reaproveitados. Parte desses materiais segue para a indústria automóvel francesa, onde é utilizada em soluções de isolamento ou no revestimento do interior das portas dos veículos, explica Ricardo Almeida.

Com 260 trabalhadores, a Givachoice Garments registou uma faturação de 12,8 milhões de euros no ano passado, em linha com o exercício anterior. Ainda assim, a administração acredita que existe margem para crescer.

“Estamos abaixo da nossa capacidade produtiva. Quando atingirmos a velocidade de cruzeiro, acreditamos que podemos chegar aos 14 ou 15 milhões de euros de faturação”, afirma ao ECO Ricardo Almeida, diretor financeiro.

A diversificação geográfica é outro dos objetivos da empresa. Depois de consolidar a presença na Europa, a Givachoice começa agora a olhar para a América do Sul, onde já produz para três marcas.

Fundadores da Givachoice Garments, Ricardo e Ana AlmeidaRicardo Castelo / ECO


“Com o acordo do Mercosul, embora os efeitos não sejam imediatos, é um mercado para o qual devemos começar a olhar com mais atenção”
, defende Ricardo Almeida. Ana Almeida concorda: “É um mercado com muito potencial.”

A menos de dez minutos de carro da Givachoice, outra fábrica confirma a transformação que a indústria têxtil portuguesa tem vivido nos últimos anos. Em Penamaior, também no concelho de Paços de Ferreira, a Spring Garment Experts produz cerca de 246 mil peças por ano para marcas internacionais de gama alta, apostando num modelo que alia confeção especializada, instalações modernas e bem-estar dos trabalhadores.

O edifício destaca-se pela fachada em tijolo de burro e pelas amplas superfícies envidraçadas, que deixam entrar a luz natural em praticamente todas as áreas de produção. Inauguradas em setembro do ano passado, as novas instalações representaram um investimento de 1,8 milhões de euros e foram concebidas para responder ao crescimento da empresa.

“Quando começámos a desenvolver este projeto, o objetivo era criar excelentes condições para as pessoas trabalharem. Temos perfeita noção de que, para atrair e reter os melhores profissionais, não basta pagar bem. É preciso oferecer boas condições de trabalho”, afirma ao ECO Hélder Gonçalves, fundador da Spring Garment Experts.

Essa preocupação é visível ao longo da visita. As linhas de produção são amplas e organizadas, os postos de trabalho beneficiam de luz natural e climatização e os espaços comuns foram pensados para proporcionar maior conforto aos colaboradores.

“O bem-estar dos trabalhadores é muito importante. Também é uma forma de reter talento e de tornar as equipas mais produtivas”, acrescenta o empresário. Rita Alves, comercial da Spring há cinco anos, elogia as novas instalações e diz: “pessoas felizes, trabalhadores felizes”.

Ao contrário de muitas confeções, onde cada trabalhador executa apenas uma operação, na Spring as “costureiras altamente especializadas” acompanham a produção da peça praticamente do início ao fim. O modelo exige maior qualificação, mas permite um controlo mais rigoroso da qualidade, fundamental quando o destino são marcas internacionais do segmento premium.

Cerca de 98% da produção é exportada para mercados como Dinamarca, França, Itália e Estados Unidos. A empresa não revela os nomes dos clientes por motivos de confidencialidade, mas Hélder Gonçalves assegura que as peças produzidas em Paços de Ferreira vestem influenciadores digitais e celebridades que desfilam na passadeira vermelha do Festival de Cannes.

Hélder Gonçalves, fundador da Spring Garment Experts Ricardo Castelo / ECO

Além da produção própria, a Spring subcontrata cerca de 60% da confeção a três fábricas da região.

A Spring aposta também na criação de valor através de uma marca própria. A A Line representa atualmente apenas cerca de 2% da atividade da empresa, mas simboliza a ambição de evoluir da simples confeção para a criação de produto. A direção criativa está a cargo do designer Diogo Miranda, cujo percurso começou precisamente no concurso de Jovens Criadores do Portugal Fashion.

Fundada em 2001 por Hélder Gonçalves e Alexandra Carneiro, a Spring Garment Experts emprega atualmente 50 trabalhadores e fechou o último exercício com uma faturação de 6,5 milhões de euros, cerca de um milhão acima do registado no ano anterior. Um crescimento que o fundador atribui à aposta contínua na diferenciação, na qualidade e na capacidade de responder às exigências das marcas internacionais.

Este roteiro industrial faz parte da programação do Portugal Fashion Experience, que decorre de 1 a 4 de julho e tem como missão “ligar a moda e os criativos ao ecossistema de produção” e mostrar a realidade do setor.

“O objetivo da experiência é começar pelos bastidores e mostrar a ligação entre a criatividade e a indústria. Muitas vezes vemos apenas o produto final, mas é aqui que tudo começa”, explica Mónica Neto, diretora do Portugal Fashion.

Mónica Neto, diretora do Portugal FashionRicardo Castelo / ECO

A responsável considera que a indústria portuguesa conquistou um novo posicionamento internacional, deixando de competir apenas pelo preço. “A indústria portuguesa tem vindo a fazer um caminho de conversão de país produtor de fast fashion para um país produtor de valor acrescentado. Investiu em formação, tecnologia, maquinaria e sustentabilidade e hoje está muito preparada para competir internacionalmente.”

A indústria portuguesa tem vindo a fazer um caminho de conversão de país produtor de fast fashion para um país produtor de valor acrescentado. Investiu em formação, tecnologia, maquinaria e sustentabilidade e hoje está muito preparada para competir internacionalmente.

Mónica Neto

Diretora do Portugal Fashion

Mais do que o reconhecimento do “Made in Portugal“, Mónica Neto acredita que o setor começa também a afirmar o conceito de “Created in Portugal”.

“Temos criativos muito ligados ao saber-fazer da indústria e empresas que conseguem juntar tradição, inovação e capacidade tecnológica. Essa combinação está a tornar Portugal cada vez mais competitivo.”

Falta de mão de obra, burocracia e concorrência travam crescimento

Apesar do reconhecimento internacional conquistado pela indústria têxtil portuguesa e do crescente número de marcas de luxo que escolhem produzir em Portugal, os empresários alertam que o setor continua a enfrentar obstáculos que podem comprometer o crescimento.

Na Givachoice Garments, Ana Almeida aponta a burocracia como um dos principais entraves ao desenvolvimento das empresas e lamenta a falta de incentivos ao trabalho. “A burocracia é castradora e limitadora. Falta também estímulo para trabalhar em Portugal”, afirma.

Hélder Gonçalves identifica a escassez de mão-de-obra qualificada como o maior desafio da indústria. “Não há jovens a entrar na profissão e as nossas costureiras têm, em média, 40 anos. Ou apostamos seriamente na formação ou vamos ter de recorrer à imigração para garantir mão-de-obra. Em países como a Índia ou o Paquistão são maioritariamente os homens que trabalham na confeção e essa poderá ser uma realidade também na Europa”, considera.

O empresário acredita que o futuro da indústria dependerá da capacidade de atrair novos profissionais para um setor que hoje pouco tem a ver com a imagem tradicional das fábricas de confeção.

Além da falta de trabalhadores, a concorrência de países terceiros continua a preocupar as empresas portuguesas. Hélder Gonçalves considera que as medidas recentemente adotadas pela União Europeia para taxar encomendas de baixo valor provenientes de países terceiros representam “um passo na direção certa”, mas defende que Bruxelas deve ir mais longe.

“Não chega. A Europa tem de fazer mais para proteger a indústria europeia e garantir condições de concorrência equilibradas”, sustenta.

Para o fundador da Spring Garment Experts, o setor continua também a enfrentar um problema de perceção pública. “Muitas vezes só se fala da indústria têxtil quando há notícias de despedimentos ou encerramentos de fábricas. Mas essa é apenas uma parte da realidade”, lamenta.

Conquistámos as melhores marcas internacionais, os maiores grupos de luxo do mundo, tanto no vestuário como no calçado. Há muito talento, muito investimento e muito conhecimento instalado em Portugal.

Hélder Gonçalves

Fundador da Spring Garment Experts

“Isto é uma indústria de ponta. Nós conquistámos as melhores marcas internacionais, os maiores grupos de luxo do mundo, tanto no vestuário como no calçado. Há muito talento, muito investimento e muito conhecimento instalado em Portugal”, conclui o fundador da Spring.

 

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