Através do Centro de Operações Espaciais, em Monsanto, a Força Aérea está a recolher informação ajudando a Proteção Civil a tomar decisões sobre para onde enviar meios de apoio e socorro.
No meio das curvas e contracurvas das estradas que rasgam Monsanto, no meio do arvoredo que parece, até ao momento, ter passado incólume à passagem da depressão Kristin e ao dilúvio depressivo Leonardo — a ver vamos o resultado da passagem da Marta que bate à porta do país na madrugada de sexta-feira — encontramos a base do Comando Aéreo, o “cérebro do corpo da Força Aérea”. É aí, a cerca de seis quilómetros de Lisboa, que está localizado o Centro de Operações Espaciais, outro ‘cérebro’ nevrálgico no apoio às populações afetadas pelas duas intempéries a varrer o país. Como? Fornecendo à Proteção Civil informação recolhida através da rede de satélites que monitoriza, permitindo fazer uma análise do momento e, com isso, ajudar a tomada de decisões sobre que meios de apoio e socorro usar e para que zonas do país os enviar.
“O que estamos a fazer em apoio à Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, mas também às nossas forças no terreno, à Agência Portuguesa do Ambiente e, numa fase inicial também à eRedes, é sobretudo duas coisas: a primeira é imagens de satélite, não óticas, mas de radar, uma tecnologia que permite recolher informação mesmo com nuvens e em períodos noturnos”, explica o coronel Pedro Costa, chefe do Centro de Operações Espaciais da Força Aérea, ao ECO/eRadar. E o segundo, é “dar relatórios dos níveis de água em algumas zonas do nosso país, uma coordenação, sobretudo com a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, mas também com as nossas Forças Armadas no terreno”, adianta.
É numa sala com 55 metros quadrados que se localiza o ‘cérebro’ do Centro das Operações Espaciais, inaugurado em setembro de 2024. No espaço, por questões de segurança, não entram equipamentos eletrónicos, como telemóveis ou relógios inteligentes — fica tudo num cacifo bem longe da sala de controlo — e para lá chegarmos percorremos um quase labirinto de corredores — pelo menos é que parece para quem não está familiarizado com o layout do edifício — brancos, com calhas de iluminação no teto, intercaladas com tabuletas indicando qual o momento de alerta no Comando Aéreo. Ontem, era o nível de alerta A (de Alfa), o mais baixo.
Ao percorrer os corredores silenciosos, a sensação é de que estamos a descer, a descer rumo ao centro do mundo. E, efetivamente, é a cerca de 15 metros abaixo do nível do solo que entramos na sala do Centro de Operações Espaciais.
A sala branca, com três linhas de secretárias com cerca de seis zonas de trabalho com ecrãs de computador, até parece um open office normal não fosse o facto de os trabalhadores estarem de camuflado. Mas a atenção de quem entra na sala rapidamente se foca no mega ecrã que domina o espaço. É ai que são projetadas as informações recolhidas pela rede de satélites que o Centro tem ao seu dispor e que lhe permite fazer a cobertura, a partir do espaço, do território nacional. Uma cobertura que “vai para lá das fronteiras terrestres”, frisa o coronel Pedro Costa, apontando para os arquipélagos da Madeira e Açores, e para uma longa faixa de mar que rodeia os arquipélagos para lá da Zona Económica Exclusiva (ZEE).
O detalhe obtido permite monitorizar, por exemplo, navios em águas territoriais nacionais dos quais se suspeita possam realizar atividades menos lícitas. “Como aquele caso que surgiu nas notícias que foi apreendido”, exemplifica o chefe do Centro de Operações Espaciais da Força Aérea, numa referência à embarcação semissubmersível intercetada ao largo do arquipélago de Açores com nove toneladas de cocaína. Ou “navios que ‘avariam’ em cima de cabos submarinos”, acrescenta.
No mega ecrã, conseguimos acompanhar a órbita percorrida pelos satélites parte da rede atual ao dispor do Centro. Um ligeiro tracejado mostra a posição de satélites como o PoSAT-1 (o primeiro satélite português lançado para o espaço em 1993, marcando a entrada de Portugal no espaço), mas também do Deimos-1, agora Geosat 1, um dos três satélites da portuguesa Geosat parte da constelação, mas aqui e ali avistamos o percurso em órbita de alguns dos 50 satélites da ICEYE, empresa finlandesa com quem a Força Aérea tem uma “parceria estratégica”.

Foi a esta empresa que, em dezembro do ano passado, a Força Aérea adquiriu um satélite Radar de Abertura Sintética (SAR) de última geração e que, cumprindo-se os calendários de lançamento da SpaceX (lançadora de Elon Musk) deverá ir para o espaço a 29 de março. Um segundo satélite deverá ser lançado no início de maio.
Este é o primeiro satélite detido diretamente pela Força Aérea, representando um reforço nas capacidades nacionais de vigilância a partir do espaço, já que os satélites SAR permitem imagens de grande resolução, independentemente das condições meteorológicas ou da hora do dia. São 50 desses satélites SAR da ICEYE que a Força Aérea tem ao dispor na rede e que têm sido um recurso precioso no atual momento que atravessa ao país.
Avaliar impacto nas infraestruturas
“Temos recolhido algumas imagens óticas, em número muito reduzido face às condições meteorológicas. Temos, sobretudo, obtido imagens a partir da constelação de satélites de tecnologia radar, sintética abertura radar [SAR], da empresa finlandesa ICEYE, com quem a Força Aérea tem uma parceria estratégica, num quadro abrangente, em ações relacionadas com a Constelação do Atlântico e outros projetos no quadro da New Space Portugal, na agenda mobilizadora para o espaço do PRR”, explica o coronel Pedro Costa.
A monitorização do que se passa lá cima no espaço é feita 24h por dia, pelo menos, com duas pessoas em permanência. Garantir ações de vigilância e segurança do território a partir do espaço, mas também, por exemplo, detetar e acompanhar reentradas de objetos espaciais em fim de vida — como foi o caso recente de uma parte de um foguetão chinês com cerca de 15 metros — até se despenharem na Terra. Agora o foco, tem sido prestar apoio à Proteção Civil e às Forças Armadas no apoio à população no pós-Kristin e em plena depressão Leonardo, que está a provocar cheias em várias regiões.
A nossa avaliação não é só em termos de impacto em infraestruturas e em habitações, mas também naquilo que é áreas inundadas. Isso permite-nos ter uma imagem do estado presente, como também fazer um planeamento da potencial subida dos níveis de água. (…) Com isso conseguimos apoiar as tomadas de decisão, onde uma das decisões é a distribuição dos recursos para apoiar. Estamos a falar de recursos humanos, de veículos de apoio, de botes, de distribuir todo um conjunto de elementos para apoiar a população.
“A tecnologia de radar [dos SAR] permite-nos ter acesso a imagens de alta resolução, estamos a falar de um máximo de resolução de 25 centímetros, independentemente das condições de meteorologia e de luminosidade. Estas imagens são úteis, por um lado, para avaliar danos”, explica. Por exemplo, foi essa informação que apoiou a eRedes, o regulador elétrico, na avaliação da extensão dos danos nas linhas de média e de muito alta tensão após a passagem da depressão Kristin que deitou abaixo 61 postes de muito alta tensão, danificando quase 800 quilómetros de rede elétrica.
“As resoluções [das imagens] são ao ponto de vermos pormenores, como, por exemplo, o estado de muitas das habitações, de hangares, de infraestruturas que voaram. Além dos danos nas infraestruturas, o que temos efetivamente estado a dar, e que me parece a mim que é importante relevar, é a análise dos níveis da água e do estado de saturação dos solos”, realça o coronel Pedro Costa.
Antecipar zonas de cheia
Com semanas consecutivas de chuva, os solos estão saturados. Mas há zonas que levantam maiores níveis de preocupação. E isso é visível nas manchas a azul que rodeiam zonas como Alcácer do Sal, isto com base, numa tecnologia que, inicialmente, tinha como objetivo ajudar aos agricultores a controlar a rega dos campos.
Precisamente pelo facto dos solos estarem saturados, na sexta-feira aguarda-se com atenção a chegada da depressão Marta a Portugal Continental. “Estamos a acompanhar o que mais nos preocupa: o nível das águas”, comenta o coronel Pedro Costa. “Olhamos com preocupação para as zonas de Lisboa e Alcácer do Sal”, aponta.
Por volta das 20h de sexta-feira eram esperadas imagens e depois às três horas da manhã, conta. Dados que serão importantes para a avaliação do eventual impacto desta nova depressão, partilhados com a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, as forças militares no terreno, mas também à Agência Portuguesa do Ambiente.

A informação recolhida “permite-nos ter uma imagem do estado presente, como também fazer um planeamento da potencial subida dos níveis de água”, refere. “Com isso conseguimos apoiar as tomadas de decisão, onde uma das decisões é a distribuição dos recursos para apoiar. Estamos a falar de recursos humanos, de veículos de apoio, de botes, de distribuir todo um conjunto de elementos para apoiar a população”, refere.
Essa é a vantagem de “ferramentas que nos permitem ter uma visão da situação mais abrangente e não limitada”, diz. “No terreno, efetivamente, conseguimos uma precisão maior, mas a nossa visão está limitada. Quando estamos com uma imagem de satélite de vários quilómetros, conseguimos ter uma imagem mais abrangente da situação”, destaca. “Ontem [quarta-feira] foi-nos pedido atenção particular na zona do Mondego, Vouga. Mas há momentos pediram-nos Alcácer do Sal”, relata.
O sistema permite também, numa espécie de máquina no tempo, avançar em termos cronológicos e antecipar eventos meteorológicos que possam impactar o território, mas também monitorizar o ‘tempo espacial’, fundamental para avaliar eventuais explosões solares com impacto, por exemplo, nos satélites (nesse tipo de eventos a opção pode ser ‘desligar’ os satélites), comunicações ou sistemas elétricos em Terra.
Estes são os meios do ‘espaço’ que a Força Aérea tem colocado ao dispor neste momento de crise para o país, a que se juntam meios no terreno. Na sexta-feira um avião P-3C CUP+ esteve a monitorizar os rios Sado, Tejo, Lis, Mondego e Vouga, e dois helicópteros AW119 Koala realizaram três voos, sobrevoando os rios Douro e Vouga (da Foz do Douro até Torre de Moncorvo e entre Aveiro e Águeda) e os rios Sado e Guadiana.
Oito meios aéreos — três aviões e cinco helicópteros — estiveram envolvidos no transporte aéreo, na busca e salvamento ou no sobrevoo das áreas afetadas para recolha de informação. “No apoio direto à população, foram já distribuídas 549 refeições; disponibilizados 381 banhos quentes; efetuada a cedência de 82 equipamentos; e realizada a recolha e distribuição de 169 lonas, destinadas à proteção temporária de habitações e infraestruturas críticas danificadas”, elencava este ramo das Forças Armadas na sua mais recente atualização dos apoios prestados.
A Força Aérea assegurou ainda o transporte de 5,7 toneladas de material num C-130H desde Porto Santo, desde material de construção a bens de primeira necessidade e alimentares, tendo sido ainda transportadas 64,4 toneladas de material de construção por via terrestre reforçando o apoio à estabilização e recuperação das áreas mais afetadas.
Soberania espacial
O apoio agora prestado pelo Centro de Operações Espaciais às autoridades de proteção civil não é de agora. Desde o seu arranque, em 2024, que essa relação tem vindo a ser construída, tendo, por exemplo no ano passado, sido prestado apoio na altura dos incêndios.
O Centro de Operações Espaciais é um dos passos que estão a ser dados para o país conseguir a chamada soberania espacial. Uma ambição em parte financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) que, para a agenda mobilizadora “NewSpace Portugal”, inicialmente, alocou 137,36 milhões de euros, mas com a reprogramação, aumentou os incentivos em 279 milhões de euros.
A Força Aérea integra o consórcio, liderado pelo CEiiA – Centro de Engenharia e Desenvolvimento, que está a desenvolver a Constelação do Atlântico, desenvolvido em parceria com o CTI Aeroespacial, a N3O e a GEOSAT.
Este projeto foi destacada por Ursula Von der Leyen no seu discurso do Estado da União em setembro do ano passado, como o exemplo do novo momento da aposta na defesa europeia. “É o maior projeto no setor espacial da história portuguesa, com dois satélites já em órbita e mais em desenvolvimento.”
As capacidades que o país está a desenvolver no setor do espaço foram igualmente realçadas pelo comissário Europeu para a Defesa e Espaço, Andrius Kubilius, durante a sua visita. “Portugal tem demonstrado ótimos exemplos de como usaram o dinheiro da União Europeia, por exemplo, para desenvolver uma constelação de satélites, como a constelação Atlantis”, afirmou Andrius Kubilius, em entrevista ao ECO/eRadar
“Portugal está a fazer um excelente trabalho em várias frentes. Fiquei particularmente impressionado com o que estão a fazer no setor espacial. Tive a oportunidade de visitar o centro de comando espacial militar e, realmente, é notável. Portugal está a sair-se muito bem na produção de drones, bem como na área da aeronáutica. O que vi no centro de engenharia e desenvolvimento CEiiA são exemplos realmente muito bons”, afirmou ainda.
“A ambição não se fecha apenas e só em criar satélites e lançá-los para o espaço. A ambição é criar todo um ecossistema que permita alimentar uma cadeia de valor global neste setor do espaço”, diz o coronel Pedro Costa. “Portugal, dentro desta área, tem um conjunto de empresas que são na Europa referência. E isso acaba por, face ao duplo uso da tecnologia, proporcionar às estruturas de segurança e defesa também uma vantagem”, realça o chefe do Centro de Operações Espaciais da Força Aérea.
A Constelação do Atlântico é um destes projetos e tem requisitos da defesa. “Dentro deste quadro da Constelação do Atlântico temos uma fábrica de integração de satélites em Alverca, o Alverca Space Hub, que permitirá a integração de satélites dentro de condições de segurança, isto é, dentro de estruturas no quadro da segurança e da defesa, algo inovador na Europa, porque é algo que está apenas nas mãos de atores não estatais de empresas. Pretende-se algo que garanta a segurança, do fluxo de informação, de toda a cadeia do valor nesse sentido, face ao valor estratégico que o espaço proporciona”, explica o coronel Pedro Costa.
Localizada em Alverca, perto da OGMA, o Alverca Space Hub, com uma área de 600 metros quadrados, deverá criar cerca de 50 postos de trabalho e terá capacidade para integrar 16 satélites em simultâneo.
Mas há outros projetos em curso para fechar a cadeia de valor. E que podem ser estratégicos não só para Portugal. “A Europa está dependente do acesso ao espaço e Portugal, mais uma vez, poderá tirar partida daquilo que é a sua vantagem geográfica, concretamente do arquipélago dos Açores que reúne as condições para um acesso ao espaço seguro”, destaca.
Estou em crer que em 2027, final de 2028, será uma altura que teremos os primeiros lançamentos. Contudo, esse é o vetor que ainda não estamos nesta fase a desenvolver, eventualmente será um dos próximos projetos, e assim conseguiremos ter Portugal em toda a cadeia de valor. Temos a cadeia de valor espaço, com satélites, temos a cadeia de valor de integração de satélites, com o Alverca Space Hub, temos o porto espacial que permite as condições do acesso ao espaço, falta-nos efetivamente o vetor lançamento.
É o caso do projeto “Santa Maria Space Port”. “Um porto de lançamento que permitirá o acesso ao espaço que permitirá tirar a Europa desta dependência no acesso ao espaço”, aponta. “Não se pretende de maneira alguma substituir aquilo que é as infraestruturas existentes na Guiana Francesa, pretende-se sobretudo criar condições para que lançadores europeus que estão em construção possam aceder ao espaço com todas as condições de segurança”, explica. “Por um lado, alimentará todo um valor no ecossistema dos Açores, mas diria que será mais abrangente e colocará Portugal no seu todo no mapa do espaço”, refere.
Localizado perto do Aeroporto de Santa Maria, num espaço onde a Força Aérea tem infraestruturas, este é também um projeto financiado por fundos europeus, com cerca de 15 milhões. “Sendo um projeto do plano de recuperação e resiliência, as infraestruturas e todas as ações estão a ser desenvolvidas, o prazo é apertado, é um desafio, mas estamos cá para os desafios”, garante. Junho é a data apontada para a conclusão dos projetos PRR.

E para quando lançamento de foguetões a partir do “Santa Maria Space Port”? “Temos que ir por fases”, diz cauteloso o coronel Pedro Costa. “Como disse, são lançadores europeus que estão em desenvolvimento. Já existem alguns testes realizados, concretamente em Andøya, na Noruega, onde foram feitos alguns testes, embora com um conjunto de limitações face à proximidade com a Rússia. Aqui o contexto geopolítico atual, neste aspeto, poderá também trazer algum favor para Portugal”, admite. “Mas, falando em lançamentos, é necessário fazer todo um conjunto de testes primeiro”, refere.
“Estou em crer que em 2027, final de 2028, será uma altura que teremos os primeiros lançamentos. Contudo, esse é o vetor que ainda não estamos nesta fase a desenvolver, eventualmente será um dos próximos projetos, e assim conseguiremos ter Portugal em toda a cadeia de valor. Temos a cadeia de valor espaço, com satélites, temos a cadeia de valor de integração de satélites, com o Alverca Space Hub, temos o porto espacial que permite as condições do acesso ao espaço, falta-nos efetivamente o vetor lançamento”.
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Depressão Kristin. Força Aérea com os olhos postos no céu para ajudar em Terra
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