Do Quelhas para Frankfurt, mestres das contas mergulham no oásis financeiro europeu

Todos os anos, mais de 60 alunos de Finanças do ISEG voam até Frankfurt para conhecer autoridades de supervisão financeira, bancos, gestoras de ativos e ex-estudantes de quem almejam a carreira.

Passam poucos minutos das 8h00 da manhã e, junto a um buffet de pequeno-almoço no centro financeiro da Alemanha, o economista João Duque ensina um dos seus alunos de Finanças a dar o nó da gravata. Aperaltados e munidos de várias páginas com perguntas preparadas, estavam prestes a iniciar quatro dias de visita a empresas e instituições europeias, como o Banco Central Europeu (BCE), a bolsa alemã (Deutsche Börse), o Commerzbank, a agência Bloomberg ou a Autoridade Europeia dos Seguros e Pensões Complementares de Reforma (EIOPA).

O grupo que partiu do Quelhas até Frankfurt é composto por 68 alunos que frequentam o mestrado em Finanças no ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, vindos não só de Portugal, mas também Colômbia, Luxemburgo, Alemanha, Tunísia, Paquistão, Índia, Espanha, Brasil, Rússia, Roménia e Moçambique. Antes de rumarem para as palestras institucionais, têm oportunidade de encontrar-se com antigos estudantes do ISEG que hoje trabalham nos supervisores europeus ou nos bancos Morgan Stanley e Triodos Bank.

Nesta viagem, que faz parte do programa curricular, deixam-se eventuais amarras na sala de aula e fazem-se as questões sem pudor a quem realmente está no terreno e a trabalhar nos temas de análise financeira e regulação sobre os quais leem diariamente. As dúvidas colocadas aos alumni multiplicam-se entre o que fizeram para entrar nessas organizações até como é a vida na maior economia da Europa. Há até quem aproveite a ocasião para perguntar se só os bancos europeus são (mesmo) os únicos donos do BCE.

“Fazem perguntas de todo o género, das mais pessoais às mais técnicas. Como é que vim para cá, se é preciso saber falar alemão, qual o meu percurso desde o ISEG até aqui? Costumo dizer que é um caminho feito de oportunidades que surgem e vão sendo aproveitadas. Se calhar temos uma ideia fixa de ‘vamos fazer isto’ enquanto estudamos, mas na verdade não fazemos ideia do que aquilo significa. Eu sempre quis trabalhar numa instituição europeia, mas não sabia qual”, afirma Dina Diniz Henriques, analista sénior do BCE, em conversa com o ECO/EContas.

Os alunos de Mestrados de Finanças na sede da EIOPA, em Frankfurt

A missão em prol da União Europeia (UE) era a única certeza de Dina Diniz Henriques. Depois de iniciar a carreira na PwC e passar pelo Banco de Portugal, abriram-se as portas deste hub financeiro do Velho Continente. Agora, se voltasse a sentar-se nas cadeiras de uma universidade, completaria a formação com um curso mais ligado às humanidades, como Psicologia. Os dois mundos devem, cada vez mais, cooperar.

Uma ideia que também foi partilhada pelo professor catedrático e dean João Duque, na mensagem de boas-vindas à comitiva de mestrandos além-fronteiras. “Sempre me senti orgulhoso dos alunos que temos e das questões inteligentes que fazem. Começámos há mais de uma década e é bom voltar a Frankfurt com novos alunos. Estar aqui tem uma atmosfera diferente e criam-se amizades. A escola quer providenciar educação humana, além de educação técnica”, disse o presidente do ISEG, perante o olhar atento de quem antevia uma semana diferente, entre colegas e ‘ídolos’ de carreira.

Estar aqui tem uma atmosfera diferente e criam-se amizades. A escola quer providenciar educação humana, além de educação técnica.

João Duque

Presidente do ISEG

A excursão internacional do Masters in Finance do ISEG – um dos cinco mestrados portugueses entre os melhores do mundo – iniciou-se no ano letivo de 2012/2013 e, na opinião do académico e economista, conseguiu sempre manter a reputação de uma escola que figura no ranking do Financial Times e está prestes a completar 115 anos.

Maria Afonso, de 23 anos, gosta de temas financeiros desde os tempos de adolescência passados em Portalegre. Entre os programas de política local nos quais participa, o mestrado e os hobbies, vai dando explicações de Matemática com uma ambição futura: “O Ministério das Finanças. Mas temos de ter noção e ser terra a terra. Lisboa é um verdadeiro polo de negócios. E o interior? Quero explorar oportunidades dentro do país, porque não podemos todos abandonar a região”. Para a jovem alentejana, “4.000 euros no final do mês”, como recebe um amigo seu em Luxemburgo, “no final do dia, pouco interessam se não houver uma mudança maior”.

Certo é que os os olhos de alguns brilhavam quando oradores corporate ou alumni faziam referência à média dos salários. Nos corredores comentavam entre si que é “mesmo diferente de Portugal”. Ao ISEG, também interessa (muito) que conquistem remunerações elevadas, até porque é um dos critérios para figurar nas tabelas globais.

Peter Dovganik nasceu na Rússia, viveu e estudou nos Estados Unidos e, antes de completar os atuais 24 anos, mudou-se para Portugal com os pais e foi procurar um “currículo quantitativo rigoroso”, com uma “abordagem empírica” menos centrada nas “competências interpessoais” para continuar a sua formação e ser “mais competitivo no longo prazo”.

Quero ser gestor de fundos. Conheci pessoas na minha licenciatura que trabalham nesta área, falámos e percebi que era algo realmente interessante. Acho que a vantagem é poder controlar o resultado. Um gestor de fundos tem acesso à mesma informação pública que todos os outros, mas depois não se trata só de saber matemática ou otimização de carteiras e, sim, de ter a visão e compreensão que se tem sobre a economia e os mercados financeiros”, explica Peter Dovganik ao ECO/EContas.

Por entre as várias sessões, os estudantes foram pedindo ao fotógrafo de serviço para lhes tirar retratos para o currículo. Os dias seguintes à visita de campo avizinhavam-se dinâmicos na rede social Linkedin, para a qual foram preparando textos sobre esta experiência internacional – para um dos mais de 60 jovens, maioritariamente entre os 22 e os 24 anos, foi a primeira viagem de avião.

Não é o caso de Carolina Moniz, que além de um espírito de viajante, tem um particular gosto pela moda e está a utilizar os conhecimentos, quer financeiros quer de gestão e conexão com os colegas, para trabalhar na marca de roupa e acessórios que criou com a irmã gémea.

“São pessoas bastante interessadas, porque vieram aqui só para conhecer as instituições e a nossa realidade. O que lhes tenho aconselhado é escolherem o que gostam, uma verdadeira paixão, e nunca desistirem. Eu candidatei-me 38 vezes antes de ter a minha primeira entrevista no BCE. Candidatei-me a cada posição que encontrei, durante três anos e meio, e na primeira entrevista a que fui bastou para entrar”, relata o alumni João Sousa, analista do departamento de supervisão bancária do BCE.

O analista financeiro admite que nunca teve ambição de emigrar, porém ganhou interesse ao fazer o programa Erasmus+ e apercebeu-se de que o custo de vida na Alemanha é “muito semelhante” ao português com “salários mais elevados”, além de ser um europeísta convicto, tal como Dina Diniz Henriques. “O objetivo é fazer com que a crise de 2008, que impactou muito Portugal, não se repetia. É uma missão na qual me revejo”, diz João Sousa, depois do encontro com os aspirantes a profissionais das finanças.

Candidatei-me 38 vezes antes de ter a minha primeira entrevista no BCE. Candidatei-me a cada posição que encontrei, durante três anos e meio, e na primeira entrevista a que fui bastou para entrar.

João Sousa

Analista no BCE

 

Além destes contactos, o grupo multicultural ouviu as intervenções de executivos da Deloitte, do braço de gestão de ativos do Deutsche Bank ou até de Pedro Gustavo Teixeira, diretor-geral de Governance e Operações do Mecanismo Único de Supervisão do BCE. Depois dos painéis técnicos, os alunos seguiram para a pitoresca cidade de Heidelberg, onde passearam e trocaram impressões dos dias anteriores. Na reta final da jornada, dividiram-se consoante os seus principais interesses: arte (Museu Städel), História (Museu Judaico, no antigo palácio da família Rothschild) e banca (Museu do Dinheiro, no Bundesbank). O ECO/EContas acompanhou a ‘turma’ que foi ao Museu do Dinheiro, na sede do Bundesbank, onde está uma barra de ouro que pesa 12,5 quilogramas de 99,99% ouro puro.

Simão Lopes, um dos melhores alunos da turma, tem 22 anos e imagina-se a trabalhar em Frankfurt desde que frequentou a licenciatura, no mesmo instituto de ensino superior onde decidiu completar o grau académico seguinte devido a feedbacks positivos. “Identifiquei-me com o Commerzbank. Aprendemos aqui o que não aprendemos nas aulas, conseguimos falar com os [ex-]alunos que nos deram mais inputs, além de também fazermos um pouco de bonding”, conta o estudante, numa gíria já marcada pelo ensino superior em Inglês. Leia-se: captar conhecimento, testemunhos e criar ligações.

No avião de regresso, entre o cansaço e os episódios de série ou novela por repor, há quem opte por estudar através do computador ou quizzes (flashcards) no iPad, até porque depois de amanhã há um teste de Fundamentos de Economia Financeira que não voou do calendário.

A viagem começou com uma visita ao hangar da TAP. O voo de Lisboa até Frankfurt, onde foi o grupo do ISEG, contou (curiosamente) com um passageiro especial, o ‘dean’ da Nova SBE, Pedro Oliveira.

*A jornalista viajou até Frankfurt a convite do ISEG

 

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