Dos mínimos nos transportes e hospitais às escolas onde se continuou a estudar, retrato de uma greve ‘semi’ geral

O ECO foi ver como a greve aterrou com força nos transportes de Lisboa, mais suave no Porto e só sobrevoou o Oeste. Nas escolas, impactos desiguais e nos hospitais, salas quase vazias, para variar.

“Vamos apanhar este. Tínhamos bilhete para o das 10 e tal, mas o nosso filho, que vive cá, avisou-nos que há greve”, diz a neozelandesa que se encontra na plataforma da linha 7, à espera do comboio da CP de Lisboa para Faro marcado para as 8h23, mas com aviso de atraso. O serviço seguinte é às 14h02. “O Omio nem nos avisou do cancelamento”, lamenta o marido. “Será que nos devolvem o dinheiro?”, questiona, sem esperar resposta. A plataforma internacional de compra de bilhetes de transportes existe desde 2013 e reclama para si “o poder de fazer viagens que mudam as suas vidas”. Mas, pelo menos no caso deste casal neozelandês, a inexistência de aviso para a greve hipotecou a chegada ao Algarve durante a manhã.

Faltam dois minutos para as 8H e o comboio de Alverca para Sintra entra na linha 4 da Gare do Oriente. Oito minutos depois, o regional de Tomar para Santa Apolónia. Mais três minutos e chega outro interurbano. Até poderia parecer um dia normal, mas a gare desenhada por Santiago Calatrava não está feita para, em plena hora de ponta, receber apenas quatro comboios no espaço de meia hora.

Sarmi chega à plataforma em passo de corrida, mas falha o comboio para Sintra por segundos. Toca insistentemente no botão para abrir portas no exterior, mas o botão fez greve. O comboio parte. Próximo serviço? Não se sabe. “O quê? Há greve?!”, admira-se. “Oh my god!”, atira Sarmi, que nem tem a bilheteira aberta para pedir informações de novo horário que lhe permita chegar ao trabalho.

Dois pisos abaixo, as escadas (não) rolantes indiciam que no metropolitano o movimento é ainda menor. Zero. “Por motivo de greve, o metro está encerrado. Pedimos desculpa pelo incómodo”, indica o cartaz de “informação ao utente”. Alternativa proposta: o call center. “O serviço encontra-se encerrado. O centro de atendimento funciona de segunda a sexta-feira, dias úteis, das 8h30 às 19 horas”. Não vale a pena telefonar. “Obrigada por ter ligado”, termina a mensagem automática na manhã desta quarta-feira. Um dia útil e a uma hora entre… as 8h30 e as 19 horas. Bruno Costa queria ir para a Alfornelos, Amadora. Olha para a grade fechada e o aviso de paragem total. Ainda quer ir, mas não sabe como. Vai tentar de comboio.

É hora de regressar à rua e rumar à estação de recolha da Carris em Chelas. Um autocarro com informação de “recolha” entra no terminal e um de dois pisos da Carristur, a divisão de turismo, sai. O parque da companhia municipal de transportes está à pinha. Àquela hora, confidencia quem por ali se encontra diariamente, costuma estar vazio. Só costuma ganhar vida por volta das 10h00, quando há mudança de turno.

Em dez minutos, passam dois 755 com destino ao ISEL, Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, ali a 300 ou 400 metros. À porta da instituição, um piquete da CGTP convida os professores a juntarem-se à luta. Debalde. Há os que preferem ir trabalhar. Parte dos que furam a “barricada” são alunos em época de exames e com projetos para entregar, explica o professor e delegado sindical da Fenprof no ISEL, Tiago Dias. “É na ordem dos 10%, ou menos, os que eventualmente estão a trabalhar. E muitos são funcionários, não são docentes”, garante. “É provável que haja uma ou outra aula esporádica. O problema é que é a última semana do semestre, há avaliações, e alguns colegas estão mais reticentes em fazer greve”, justifica.

É provável que haja uma ou outra aula esporádica. O problema é que é a última semana do semestre, há avaliações, e alguns colegas estão mais reticentes em fazer greve.

Tiago Dias

Professor e delegado sindical da Fenprof no ISEL

A marcha segue, agora pela Segunda Circular, habitualmente caótica nesta altura do dia, pouco depois das 9 horas. Chega-se ao aeroporto sem demoras e ali o movimento na gare e na pista é menor que o habitual. “Greve geral”, alerta um retângulo amarelo a um quarto do ecrã gigante de informação sobre as partidas no Humberto Delgado. São Paulo, Orly e Charles de Gaulle em Paris, Roterdão, entre as 9h30 e as 9h50 estão todos cancelados. Londres, Copenhaga, Madrid, Dublin, de novo São Paulo (este já o das 14h50), Helsínquia e Boston coincidem no cancelamento. Chegar à Alemanha também não vai ser fácil: Estugarda, Frankfurt, Colónia e Hamburgo estão todos cancelados.

Se o aeroporto está ligado às máquinas, no maior hospital do país só há serviços mínimos. A ambulância de uma corporação de Lisboa chega ao Santa Maria com uma doente que, sentindo-se mal, acorreu ao centro de saúde de Benfica, que se encontra sem profissionais, explica o bombeiro. Na farmácia de ambulatório há uma centena de cadeiras em duas salas de espera, mas só meia dúzia está ocupada. “Estão as duas sempre cheias”, assegura uma técnica. Esta quarta-feira, só se fazem tratamentos a doentes oncológicos e nas consultas de fertilidade.

Sebastião Santana, coordenador da Frente Comum e membro da comissão executiva da CGTP, explica, sobre a motivação sindical, que “a razão primeira é lutar contra um pacote que vai atirar a legislação laboral para o século XIX, à vontade, em termos de direitos”. Arrisca que o impacto na saúde é forte: “temos os grandes hospitais do país todos a trabalhar apenas com serviços mínimos. Estão a ser assegurados cuidados de urgência, de emergência, cirurgias urgentes, tratamentos inadiáveis”, assegura.

Menos que os mínimos cumpre a Loja do Cidadão do Mercado 31 de Janeiro, no Saldanha, ainda na capital. Em apenas quatro minutos, cinco utentes aproximam-se das portas deslizantes, à espera que se abram assim que se aproximam. Nada acontece. Wellington é um dos que olha incrédulo. Viu na internet que a loja está aberta, mas alguém se esqueceu de avisar o ‘senhor Google’ que é dia de greve.

Quem vem, atravessa o rio Douro. TVDE esfrega as mãos

A Norte, pelo menos na estação de metro de Santo Ovídio, em Vila Nova de Gaia, o cenário desta quarta-feira pouco aparentava uma jornada de greve. À chegada, por volta das 8h30, uma composição já aguardava na plataforma, pronto para partir em direção ao Hospital de São João.

Apesar de a Linha Amarela estar a operar com uma frequência mais reduzida – de 15 em 15 minutos –, a circulação decorria sem grandes constrangimentos. Os passageiros eram informados através das mensagens sonoras: “Informamos que esta quarta-feira decorre uma greve geral. Mais informações disponíveis no site “. As carruagens seguiam cheias, transportando passageiros de todas as idades, dos mais jovens aos mais idosos. Sinal de que muitos continuaram a recorrer ao metro para as suas deslocações habituais.

Entre eles estava Alexandrina Moreira, contabilista de 68 anos, que segue para a estação de São Bento. Conta que não teve dificuldades em apanhar o metro e que, na véspera, até procurou confirmar se o serviço iria funcionar. “Quis ter a certeza de que conseguia chegar ao trabalho”, explica. Antes ainda apanhou um autocarro e notou uma diferença: “Estava muito mais vazio”.

Já nas estradas, tal como na região de Lisboa, o cenário era distinto. Ao contrário da hora de ponta habitual, o centro de Gaia está com pouco trânsito. Uma realidade que pode ser explicada, em parte, pela adesão de muitas empresas ao regime de teletrabalho. José Machado, motorista TVDE, acredita que a greve até poderá traduzir-se “em mais trabalho ao longo do dia”. Brasileiro a residir em Portugal há quase dois anos, conta que poucos minutos antes transportara uma jovem que não conseguiu apanhar um autocarro do Porto para Gaia devido aos constrangimentos na rede de transportes. “Hoje temos viagens a cair umas atrás das outras”, regozija-se, contando com mais serviços ao longo do dia.

Hoje temos viagens a cair umas atrás das outras. E ainda espero mais trabalho ao longo do dia de hoje.

José Machado

Motorista TVDE

Ao contrário do que acontecia no metropolitano, e à imagem do lisboeta Santa Maria, no IPO do Porto os efeitos da greve fazem-se sentir logo à entrada. A sala de espera estava mais vazia do que é habitual, mas ainda havia quem tentasse ser atendido. Susana Borges, 49 anos, veio de Ovar para aquela que seria a primeira consulta. Sabia da greve, decidiu arriscar, “mas não estava à espera que tivesse este impacto”. “Os médicos estão cá, o problema é que faltam os funcionários”, relata. Nem sequer foi atendida. Aliás, o serviço de admissão de utentes encontra-se encerrado. “Vim na fé”, resume, enquanto aguarda a remarcação.

Uma funcionária do IPO, que pediu para não ser identificada, fala de uma adesão expressiva e transversal a várias categorias profissionais, abrangendo desde médicos a assistentes operacionais e equipas de limpeza. Pelas 9h20 havia muitos serviços fechados. “Até podem estar os médicos, mas sem administrativos e auxiliares não se consegue fazer nada”, atira. A trabalhar no IPO há cerca de um ano, garante que houve um esforço prévio para minimizar os impactos. “Normalmente temos listas com cerca de 16 folhas de consultas marcadas. Ontem chegaram apenas seis”, exemplificou, apontando para uma redução significativa da atividade programada e para a sua prioridade de “tentar ajudar os doentes dentro do possível”.

Da saúde para a educação, a Escola Secundária António Sérgio, em Vila Nova de Gaia, abriu portas apesar dos constrangimentos da greve. Ainda assim, alguns alunos ficaram sem parte das aulas devido à ausência de professores e assistentes operacionais. Para os alunos, o impacto foi desigual. Maria Meireles, a frequentar o 12.º ano na área de Humanidades, conseguiu assistir às duas aulas de Português, mas também teve professores a faltar, como o de História. Ainda assim, até contava que “faltassem mais professores”.

À entrada da escola está Maria Gonçalves, professora de Filosofia, Sociologia e Psicologia, que optou por comparecer ao serviço por esta ser uma fase decisiva para muitos alunos. “Numa das turmas vão fazer exame e precisam desta aula. Noutra há reunião de avaliação na sexta-feira e preciso que apresentem os trabalhos para conseguir lançar as notas amanhã, sem falta”, expõe. Mas critica as alterações previstas no pacote laboral com medidas “inadmissíveis” que representam “um retrocesso na conquista de muitos direitos dos trabalhadores”.

A oeste (quase) nada de novo

Na zona Oeste, na Escola Básica de Mafra, que acolhe centenas de alunos e é uma das maiores do concelho, não abriu portas. Pelas 8h30, o ambiente fazia lembrar um dia de fim de semana ou de férias de verão, que se aproximam. O silêncio dominava o exterior da escola. Com o sol a bater de frente para o portão, um papel afixado informa que está “encerrada por motivo de greve”. Não há sinal de alunos nem de encarregados de educação na zona envolvente, indiciando que a comunidade escolar terá sido previamente informada sobre o fecho de portas.

Uma centena de metros acima, na Escola Secundária José Saramago, os alunos entram no recinto escolar, mas em poucos minutos há alguns a sair. Não todos. Algumas aulas foram mesmo lecionadas. Já o bar e os laboratórios devem permanecer encerrados ao longo do dia. À porta, uma dezena manifesta-se com bandeiras, cartazes e uma faixa: “Pacote laboral = retrocesso social”.

Graça Figueiredo, professora e dirigente sindical do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL), diz que o pacote laboral “tem cerca de 100 medidas e nenhuma delas é benéfica para os trabalhadores”. Para a docente de 65 anos, “além das limitações às liberdades sindicais que pretende impor e aos direitos dos sindicatos de entrarem nos locais de trabalho, quer também reintroduzir o banco de horas, desregular os horários de trabalho e permitir que um trabalhador permaneça em situação precária durante anos sem fim”, reclama. Já tinha aderido à greve anterior conta que o pacote seja derrotado por esta “grande greve geral”. A força dos trabalhadores vai deitar este pacote ao chão”, insiste.

Entre as duas instituições de ensino está um dos dois parques intermodais de Mafra, com estacionamento para centenas de viaturas e várias paragens de autocarro. A circulação aparenta normalidade. Em poucos minutos, perto de uma dezena de veículos chegam ao terminal, enquanto passageiros entram e saem antes de prosseguir viagem. Os autocarros operados pela Carris Metropolitana mantinham a circulação habitual. Ainda assim, o parque de estacionamento destinado às viaturas particulares está praticamente vazio.

Já no centro de Mafra, o clima é de tranquilidade. Também aqui há pouco trânsito e tudo parece funcionar normalmente. Até a Loja do Cidadão está aberta, embora com pouco movimento, ao contrário de outras no país. Ainda por terras de onde o rei D. João V mandou erguer um convento, o Instituto dos Registos e do Notariado (IRN) está aberto, apesar do aviso à porta para eventuais constrangimentos, que é lido pela longa fila de gente no átrio do edifício.

Entrando na Estrada Nacional 116, em direção à Ericeira, continua a reinar a tranquilidade. Nesta freguesia junto ao mar, o cenário nas escolas é muito semelhante ao de Mafra. A António Bento Franco, que acolhe alunos do 2.º e 3.º ciclos e do ensino secundário, está a funcionar a meio gás. Na escola básica houve uma forte adesão, que obrigou a encerrar o estabelecimento. No portão, que fica em frente às instalações da GNR, um papel avisa para esta greve geral e também para uma outra paralisação na sexta-feira, promovida pelo “pessoal não docente”.

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