Empresas no limbo, desemprego e até crise na banca. O que se teme em Leiria

Conferência organizada pela Câmara de Leiria traçou cenário de dificuldades na zona, três meses após a passagem da depressão Kristin. Fibra ótica pode só estar disponível no outono.

A região de Leiria já solicitou mais de 600 milhões de euros ao Banco de Fomento, dos quais 270 milhões de euros se concentram no concelho leiriense, aquele onde há o maior pedido de lay-off e “empresas que estão indecisas entre estar paradas ou fechar”. O presidente da autarquia, Gonçalo Lopes, acrescenta que “isto vai ter consequências muito grandes no desemprego na região”.

Entre os indicadores que preocupa o presidente da Câmara de Leiria está o facto de muitas empresas ainda nem sequer solicitou o pedido de apoio, precisamente pela indecisão dos empresários, “se devem ou não arregaçar as mangas para continuar. É nesta altura que é preciso dar um choque para que haja um despertar outra vez para voltar aos negócios, a erguer a empresa, a arranjar clientes, manter os postos de trabalho”.

As instituições que estejam muito dependentes desta região, podem ficar profundamente afetadas quando começam a reativar o seu crédito e a financiar empresas que têm grandes pontos de interrogação, porque não sabem se vão vingar [porque perderam] clientes, estruturas, capacidade produtiva”

João Duque

Presidente do ISEG

Na abertura de uma conferência organizada pela autarquia nesta segunda-feira, Gonçalo Lopes destacou a forma como os empresários, “muitos deles muito agressivos” nos negócios, se uniram. “Temos concorrentes a ajudarem-se uns aos outros”, destacou.

A entreajuda passou pela partilha de instalações e máquinas e até pela produção de algumas nas suas fábricas para assegurar que concorrentes com infraestruturas e equipamentos atingidos pela tempestade conseguem cumprir as encomendas.

Álvaro Santos Pereira (aqui num evento do Banco de Portugal em dezembro) indicou haver já mais de 600 milhões de euros de moratórias da banca às empresas e particulares das regiões afetadasHugo Amaral/ECO

É já certo que a economia não ficou a salvo, afiança o governador do Banco de Portugal. A nível de moratórias de créditos, dados preliminares apontam para 2.580 contratos de empresas, no valor de 398,5 milhões de euros, a que acrescem 2.084 correspondente a 206,3 milhões de euros. Só em moratórias nesta região, “das mais dinâmicas do país”, são já mais de 600 milhões de euros, nota Álvaro Santos Pereira.

O banqueiro antecipou um elemento-chave do boletim económico da próxima quarta-feira, um “decréscimo da atividade económica no primeiro trimestre do ano”.

Muito ativo logo desde o dia 28 de janeiro, quando fez a primeira conferência de imprensa a alertar para a calamidade, ainda a dimensão dos impactos da depressão Kristin não eram claros para lá de Leiria, Gonçalo Lopes promoveu, nesta segunda-feira, uma conferência onde se traçaram cenários preocupantes

Também na banca poderá haver um “problema de solvência”

Na economia nacional, para lá de empresas, há preocupação também com uma parte da banca, nota, por seu lado, o economista e presidente do ISEG, João Duque. É necessário garantir “que não há falta de liquidez, de meios para se pôr a economia a avançar, não pondo em causa aquilo que são as condições daqueles que supostamente fazem o financiamento e o apoio financeiro, nomeadamente as instituições financeiras”, alerta.

Estando a calamidade circunscrita a parte do território, “as instituições que estejam muito dependentes desta região, podem ficar profundamente afetadas quando começam a reativar o seu crédito e a financiar empresas que têm grandes pontos de interrogação, porque não sabem se vão vingar” porque perderam “clientes, estruturas, capacidade produtiva”, nota.

Conferência "Um ano de Guerra - Soberania Alimentar" - 05ABR23
Instituições bancárias muito dependentes desta região do país poderão passar por um “problema de solvência”, alerta João Duque, economista e presidente do ISEGHugo Amaral/ECO

Entre as preocupações levantadas pelo economista está parte da rede da Caixa de Crédito Agrícola nas regiões afetadas. “São instituições muito localizadas. Felizmente, a maior parte delas em Portugal estão constituídas no grupo Crédito Agrícola, e isso, de alguma maneira, permite que superem o problema individual, mas quando se trata de uma calamidade local, a instituição financeira que está assente nesse local tem um problema adicional. Um problema de solvência”.

Desde logo, nos créditos concedidos a empresas que “ficaram sem capacidade para fazer face a esses créditos, mais os outros que vão recorrer e também não sabem se vão ter mercado para continuar a vender os seus bens, e por essa via, solver os compromissos em que possam comprometer-se”, diz João Duque.

Um problema “que deve ser suportado pelo Estado central, não distorcendo as regras de concorrência e não pondo em causa o desenvolvimento do mercado aberto da União Europeia”, mas atendendo à urgência e à situação atípica, salienta o presidente do ISEG.

Diversificar as fontes de energia é fundamental, não só por causa das alterações climáticas, mas também por uma questão de soberania e sermos menos vulneráveis a este tipo de fenómenos geopolíticos que se têm vindo a repetir nos últimos anos.

Álvaro Santos Pereira

Governador do Banco de Portugal

A trazer maiores nuvens à economia está também o contexto internacional. Com a crise energética a intensificar-se, Álvaro Santos Pereira considera que há lições tiradas de 2022, aquando do início da invasão russa à Ucrânia, que hoje estão a ser úteis na Europa.

Estamos um bocadinho mais resilientes em relação ao gás. Houve mais investimento, há mais LNG e houve um bocadinho mais de diversificação energética”, considera, embora defenda que “ainda há muito a fazer. Diversificar as fontes de energia é fundamental, não só por causa das alterações climáticas, mas também por uma questão de soberania e sermos menos vulneráveis a este tipo de fenómenos geopolíticos que se têm vindo a repetir nos últimos anos”.

Vista aérea das árvores derrubadas pela tempestade Kristin na floresta do Pinhal de Leiria. “Do que tenho visto de eucaliptos e árvores, se não forem retirados antes do Verão, passam a ser como acendalhas”, alerta o diretor do IPMA. EPA/PEDRO CASTANHEIRA E CUNHAEPA/PEDRO CASTANHEIRA E CUNHA

Victor Prior, há 35 anos ligado ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e à instituição que o antecedeu, diz nunca ter visto neste período uma sequência de tempestades como a vivida nos últimos meses.

O diretor do departamento de Meteorologia e Geofísica destaca que a velocidade mais elevada do vento verificada com equipamento certificada foi de 177,8 km/h, na base aérea de Monte Real, embora haja registos não oficiais de 208 km/h.

Pelos cálculos do IPMA, a partir dos estragos constatados no terreno após a passagem de Kristin – horas antes da “invasão”, os cientistas traçavam a entrada no país por Figueira da Foz, e só à meia-noite de dia 28 se conseguiu determinar o ponto exato –, a rajada mais forte é colocada num intervalo entre 172 e 259,2 km/h, com um valor central de 216 km/h. De qualquer modo, salienta “ventos de 120 km/h já atiram uma pessoa contra a parede”.

“Ventos de 120 km/h já atiram uma pessoa contra a parede”, nota o diretor do IPMA. A 28 de janeiro, as rajadas poderão ter superado os 200 km/h PAULO CUNHA/LUSAPAULO CUNHA/LUSA

A dúvida de longo prazo: as empresas vão resistir?

As tempestades tiveram “impactos nas cadeias de valor, no abastecimento, no consumo, danos materiais em infraestruturas”, destacou o governador do banco central, aludindo a uma “possibilidade de perda de capacidade produtiva que tem impacto no crescimento económico da região, ou do país. A longo prazo, a questão é se conseguimos recuperar”.

Para garantir apoios mais firmes a empresas e populações, o Banco de Portugal está a trabalhar com supervisores dos seguros para desenvolver um produto de seguros coletivos.

“Entre os três supervisores do sistema financeiro existe uma vontade enorme de trabalharmos em conjunto. Por exemplo, a nível de seguros para catástrofes, podermos avançar com algo mais abrangente, incluindo para os cidadãos. É algo que está a ser debatido”, assegura Álvaro Santos Pereira, respondendo a uma questão levantada pelo líder da estrutura de missão para a região centro.

Entre os três supervisores do sistema financeiro existe uma vontade enorme de trabalharmos em conjunto. Por exemplo, a nível de seguros para catástrofes, podermos avançar com algo mais abrangente, incluindo para os cidadãos. É algo que está a ser debatido.

Álvaro Santos Pereira

Governador do Banco de Portugal

Paulo Fernandes tinha acabado de aludir à necessidade de pensar em seguros para acudir a situações de calamidade em que as apólices sejam projetadas para abrangeram os elementos de uma região, e não caso a caso para empresas e particulares.

Algo que poderá permitir alargar o leque de segurados, evitando a situação verificada após a depressão Kristin, com cerca de um terço das empresas e metade das habitações sem seguros de risco contratados.

Paulo Fernandes, líder da Estrutura de Missão para a Reconstrução da Região Centro, diz ao ECO/Local Online que a expetativa de recuperação da totalidade da fibra ótica aponta para um prazo na ordem dos cinco meses.PAULO CUNHA/LUSA

Paulo Fernandes aponta a existência, até à data, de 166 mil apólices acionadas, com cerca de 240 a 250 milhões de euros pagos, num impacto total sobre os seguros que o responsável da estrutura de missão criada pelo Governo assume aproximar-se dos mil milhões de euros.

Além dos impactos mensuráveis por números, há também os que ainda não estão calculados: quanto custará às empresas cuja maquinaria depende da existência de telecomunicações por fibra ótica, o facto de, segundo a informação de que a estrutura de missão dispõe, só se recuperar a totalidade desta infraestrutura crítica na região dentro de quatro a cinco meses?

Já não vão ser feitos seguros na nossa região sem salvaguardar as condições de infraestruturas das fábricas ou até das próprias casas.

Gonçalo Lopes

Presidente da Câmara Municipal de Leiria

Engenharia dos edifícios vai estar debaixo do olhar das seguradoras

Gonçalo Lopes, autarca de Leiria, antevê que “o risco passa a ser cada vez mais evidente e claro e vai ter consequências naturais na definição do preço dos seguros, mas também do tipo de construção que devemos preparar em termos do que serão as fábricas ou edifícios que resultam do pós-tempestade. Já não vão ser feitos seguros na nossa região sem salvaguardar as condições de infraestruturas das fábricas ou até das próprias casas”.

E, alerta Ricardo Duarte, professor no Politécnico de Leiria, “o imóvel onde está a funcionar o negócio é um dos ativos mais importantes da nossa empresa. Não são apenas as máquinas”. Por isso, defende, há que envolver a engenharia, designadamente para evitar adornos como telheiros, palas e platibandas indevidamente aplicados.

“Tudo o que teve acompanhamento de engenharia [resistiu]. O que é clandestino, um telheiro, uma pala, que não tem qualquer acompanhamento técnico, destruiu-se e foi destruir o que estava bem feito”, nota Ricardo Duarte.

Tudo o que teve acompanhamento de engenharia [resistiu]. O que é clandestino, um telheiro, uma pala, que não tem qualquer acompanhamento técnico, destruiu-se e foi destruir o que estava bem feito.

Ricardo Duarte

Professor do Politécnico de Leiria

Na reconstrução, alerta o professor do Politécnico de Leiria, tem de se evitar erros do passado. “Não se pode ter uma fachada com vidros de 5 milímetros”, exemplifica.

Na mesma linha, e abordando o caso específico de fenómenos climáticos, Álvaro Santos Pereira preconiza “atuar não só na parte da mitigação, mas também principalmente na adaptação”.

Danos causados pela tempestade KristinHugo Amaral/ECO

“Sabemos que os eventos macroeconómicos extremos estão a aumentar – incêndios, furacões, tempestades, rios atmosféricos. Podemos não acreditar que tem a ver com alterações climáticas, mas sabemos que está a acontecer”, aponta o banqueiro, não deixando dúvidas sobre a sua posição: “eu acredito que é das alterações climáticas”.

Numa participação onde Santos Pereira não se coibiu de abordar temas externos às competências específicas do banco central, avançando para análises de quem tem a experiência de governação, o ex-ministro da Economia no Governo de Passos Coelho alerta que “as infraestruturas que falharam desta vez, não podem falhar para a próxima”. Em Ereira, em Montemor-o-Velho, há décadas com histórico de inundações, foram adquiridas seis bombas para extração de água da localidade para o Rio Mondego.

“Cinco das bombas não estavam a funcionar e uma delas demorou vários dias a ser posta em funcionamento”, contou. “Isto é um falhanço nosso. Tem a ver com falta de prevenção, falta de planeamento e de manutenção de infraestruturas críticas. Temos de ter a certeza absoluta de que para a próxima não falha. Não pode falhar”, reforça Santos Pereira.

Em Ereira, Montemor-o-Velho, foram adquiridas no passado seis bombas para escoar a água do Mondego que invada a localidade. Cinco não funcionaram, contou Álvaro Santos Pereira PAULO CUNHA/LUSAPAULO CUNHA/LUSA

“Tem de haver processos em que todos anos, ou periodicamente, vamos verificar se as infraestruturas críticas estão ou não a funcionar”. Essa prevenção “tem de ser parte da nossa mentalidade” e “instituições como autarquias e o Estado, temos de fazer isto de forma sistemática”, diz o banqueiro.

Falando num anfiteatro do centro da cidade de Leiria, onde se chega após se atravessar a zona de maior impacto da depressão de 28 de janeiro, ainda com vestígios das infraestruturas destruídas, e com destruição absoluta hectares de floresta a perder de vista, Santos Pereira reforça: “Temos que nos adaptar, e para nos adaptar temos que investir, que nos preparar para que as nossas infraestruturas não estejam tão vulneráveis a este tipo de fenómenos”.

Contas da Agência Europeia do Ambiente citadas pelo responsável do IPMA apontam para uma explosão nos custos dos danos ambientais neste século. Se entre 1980 e 1999 se cifravam numa média de 70 milhões de euros por ano, daí até 2023 dispararam para 636 milhões anuais.

A adaptação do país poderá ter, até, de passar pelas espécies do arvoredo que nos rodeia. Na floresta, o pinhal de Leiria, famosa “edificação” do rei Dom Dinis no século XIII para assegurar matéria-prima para construção naval na expansão marítima, poderá ter os dias contados, por força da própria natureza.

Com ventos como os verificados a 28 de janeiro, assistiu-se a pinheiros partirem como palitos – “com ventos superiores a 140, 150 km/h, os pinheiros não resistem”, assegura o diretor do IPM” – e eucaliptos secarem por força da maresia que invadiu terra.

Victor Prior deixa o aviso: “Do que tenho visto de eucaliptos e árvores, se não forem retirados antes do verão, passam a ser como acendalhas”.

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