Fabricante de motos aguarda luz verde de Espanha para se fazer à estrada. "Teste de fogo" é na terça-feira. Primeira série já está à venda, com reserva por 600 euros e 70 unidades encomendadas.
Com uma descida ao inferno da insolvência em 2000, a Famel vai regressar às estradas dentro de meses, com uma nova dinâmica, renascida pelas mãos de um jovem que há uma década anteviu a oportunidade de juntar a tecnologia de propulsão elétrica que conhecia dos autocarros da Salvador Caetano à marca nascida em meados do século passado num Portugal marcadamente rural.
Já são 70 os que pagaram 600 euros de sinal para assegurar a versão de “embaixador” do novo modelo E-XF, cujo preço de venda ao público será de 6.500 euros.
Obreiro deste regresso, Joel Sousa aguarda com expectativa pelo teste de homologação que será realizado em Espanha na próxima terça-feira, em que se fará a verificação eletromagnética da primeira Famel do século XXI, um dos derradeiros passos antes da luz verde para começar a produção e venda.
Para já, as vendas são feitas através do site e os primeiros a comprar deverão ter direito a entrega personalizada, diretamente pelo fabricante. Para o decurso normal do ciclo de vida da Famel, a estratégia será “ou ter loja própria e oficina em duas grandes cidades, Porto e Lisboa, eventualmente, ou fazer parceria com lojas especializadas de mobilidade elétrica que consigam dar assistência”, antevê Joel Sousa.
Ainda assim, deixa uma nota para a vida das motos: “Estamos apostados em não ter muita assistência, não é o nosso core ganhar dinheiro em peças”. Pegando no exemplo do mercado automóvel, mais maduro, nota a presença de “marcas clássicas que vêm de modelos de negócio antigos a continuar a pedir revisão de 30 em 30 mil km, como se houvesse óleo para trocar e coisas do género. É ridículo chamar à revisão um carro elétrico. A prova disso é, no outro extremo, a Tesla, não há revisões. Nós queremos ter um modelo de negócio tipo Tesla. Baixa-nos bastante a necessidade de após-venda e de estruturas gigantes de apoio”.

Um nome forjado na Fábrica de Produtos Metálicos
A indústria motorizada no país tem um histórico de nomes compostos por conjugação de iniciais da designação comercial dos seus fabricantes, em que, por exemplo, os automóveis ALBA aludiam à terra de origem – Albergaria-a-Velha –, os jipes UMM remetiam para a União Metalo-Mecânica – que os montava em Queluz – e os Portaro eram o todo-o-terreno romeno Aro montado em Portugal. Nas motos, o nome FAMEL nasceu da Fábrica de Produtos Metálicos, que as construía, em Mourisca do Vouga, Águeda.
Nas últimas duas décadas do século XX, a região da Bairrada, com Águeda, Sangalhos e Anadia à cabeça, perdeu o comboio e deixou-se ultrapassar pelas motos cilindrada japonesas e algumas italianas, e, além de não se adaptar às scooters, ainda viu o país rasgado por estradas que apelavam à velocidade e longas distâncias, terreno ideal para o uso do automóvel.
As duas rodas não deixaram de fazer parte do ADN da região e foi com a indústria das bicicletas, empoderada pela experiência adquirida nas motorizadas, que se fez o ressurgimento industrial neste antigo cluster motociclístico do país. O capital intelectual da região atraiu Joel Sousa, um ex-trabalhador da área de autocarros elétricos na Salvador Caetano. Sobre o logo da marca de Mourisca do Vouga, Joel Sousa idealizou a E-XF, herdeira da XF-17, a Famel mais famosa de sempre, conhecida tanto pela sua capacidade de ganhar velocidade quanto pelas experiências de aceleração com final letal para o motociclista.
“Quando dei início à recuperação da marca existia um projeto para a Famel, fiquei com ele, mas mediante o conhecimento adquirido nos autocarros elétricos, achei que não tinha futuro [a versão a gasolina], tanto do ponto de vista de sustentabilidade ambiental, como de negócio – mais até de negócio”, assume Joel Sousa, enquanto mostra as três unidades da E-XF que tem no pequeno armazém em Guimarães onde se fez a engenharia da nova Famel.
“Em Portugal até poderíamos vender bastantes a gasolina durante os primeiros dois anos, mas depois não seria sustentável. Em 2014, 2015, tomámos a decisão de eletrificar Eu já estava nos autocarros elétricos e sabia que era por ali o caminho, por uma questão de eficiência. Não tanto pela questão ambiental, mas de eficiência. Estamos a gastar recursos quando o sol e o vento são grátis. É só fazer as contas”, diz o jovem engenheiro mecânico.
Quando dei início à recuperação da marca existia um projeto para a Famel, fiquei com ele, mas mediante o conhecimento adquirido nos autocarros elétricos, achei que não tinha futuro [a versão a gasolina], tanto do ponto de vista de sustentabilidade ambiental como de negócio
A nova FAMEL E-XF já conquista corações, apesar de não poder ser, ainda, conduzida por outros que não os funcionários da empresa. Com encomendas firmadas e os 600 euros de sinal existem 70, avança Joel Sousa, mas “estão muitas outras em pipeline, porque [os interessados] querem experimentar”.
A garantia da Famel para as E-XF é de três anos para a moto em geral e 2.000 ciclos de carga para a bateria – o que, no limite da eficiência da bateria e de carregamentos com a bateria quase “vazia”, supera os 200 mil quilómetros. Em termos de tempo para ir de zero a 100% demora quatro a cinco horas ligada a uma tomada doméstica.
Apesar do “apetite” que vão demonstrando, muitos aguardam ainda pelo dia em que a Famel possa rumar à estrada sem constrangimento. Antes de mais, é necessário terminar o caminho das pedras da homologação, condição para o fabricante poder começar a pedir matrículas e entregar as motos ao cliente.
O caminho já soma mais de uma década desde que Joel Sousa pegou na marca. “Como um amigo me disse, um part-time que se desenvolve para ser negócio é um MBA ‘hands on’. Fui construindo ao longo do tempo, nas horas vagas e nas férias da Salvador Caetano”.

A homologação do modelo definitivo, já depois das alterações necessárias para responder às aspirações dos investidores, está entregue a uma empresa da Catalunha, em Espanha. Será ela, explica Joel Sousa, “a certificar que somos construtores, que o veículo corresponde a um regulamento e que estamos certificados para fazer vários iguais àquele”.
Em Portugal não existe uma entidade habilitada para este processo, pelo que a direção da Famel – quatro sócios iniciais, que mantêm 60% da empresa, e o fundo Magnify Capital Partners – , entregou à catalã Idiada o processo que, espera-se, poderá culminar em breve na atribuição do selo CE, da certificação europeia.
Estamos a tirar partido do cluster português das bicicletas para as motos. É uma vantagem bastante competitiva
Há particularidades na homologação que vão impondo revisões do projeto, como assegurar que cada um dos apoios para os pés do condutor e do passageiro suporte um peso de 170 kg sobre si, uma capacidade de carga inusitada… mas regras europeias são regras.
A E-XF tem vindo a passar por provas como a de travagem, certificação eletromagnética, medições de ruído e iluminação, ponto em que se medem projeção da luz e os ângulos. Iniciados em maio, os testes são feitos por etapas, e só quando uma é superada se passa à próxima. “Há esta bateria de testes e o último passo é toda a documentação necessária”, explica o engenheiro mecânico formado no Politécnico de Leiria.
A nível nacional, não é só o projeto a evoluir, mas também as próprias autoridades. Quando a marca pretendeu iniciar fazer-se à estrada para efetuar testes à nova moto, o Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres (IMT) concluiu não haver matrículas adequadas para uma moto experimental poder circular, pelo que foi necessário criá-las.
No próximo ano, temos que ver com o Governo o apoio a este tipo de mobilidade. Acho que é a melhor solução para as grandes cidades. O Fundo Ambiental abriu para motos e esgotou às duas da tarde. Acho que é um sinal claro. As bicicletas elétricas ainda tinham ‘muito que andar’ àquela hora. É um sinal claro ao Governo
“Contamos ter [a homologação] no final de fevereiro. E já está muito atrasado. Depois começamos a encomendar material”. A este propósito, Joel Sousa descreve o que vemos nesta moto cujo preço da versão de lançamento está posicionado nos 6 mil euros. “Caro”, para o mercado nacional, assume, esperançado de que o cheque estatal de 1.500 euros possa ajudar a dar gás às vendas da E-XF.
“No próximo ano, temos que ver com o Governo o apoio a este tipo de mobilidade. Acho que é a melhor solução para as grandes cidades. O Fundo Ambiental abriu para motos e esgotou às duas da tarde. Acho que é um sinal claro. As bicicletas elétricas ainda tinham ‘muito que andar’ àquela hora. É um sinal claro ao Governo”, considera o dinamizador da marca em que o Banco de Fomento e o fundo investidor vão aplicar 2,5 milhões de euros, dos quais estão 1,5 milhões gastos.
Made in Portugal (na sua maioria)
A nova Famel privilegia os componentes nacionais naquilo em que a indústria portuguesa tem para oferecer, assegura o engenheiro mecânico por detrás desta revitalização.
O motor provém da SEG Automotive, originalmente uma divisão da Bosch responsável pelo primeiro motor de arranque para automóveis e os primeiros faróis, há um século, e mais recentemente o sistema stop/start para motores a gasolina e Diesel. Em 2018, houve um spin-off em e a aquisição pela chinesa ZMJ – Zhengzhou Coal Mining Machinery Group. O fabrico do motor está entregue à fábrica húngara. Joel Sousa destaca o “desenvolvimento alemão” neste que é o coração da sua moto.

A bateria, um elemento com 16 kg que o condutor poderá retirar para carregar em casa – “tem que ir ao ginásio, está um bocadinho pesada”, admite Joel Sousa – é montada em Oiã, Aveiro, na EDM Tech, empresa que, para lá de produção de baterias, esteve ligada ao desenvolvimento do sistema de bicicletas públicas de Lisboa, o Gira, e participa no negócio de bikesharing de diversos municípios, entre outros negócios. As células da baterias provêm da Ásia.
O elemento de gestão eletrónica da Famel, a centralina (placa eletrónica), teve desenvolvimento dentro de portas, no edifício sede em Guimarães. Com os mais recentes desenvolvimentos, esta placa torna possível a conectividade da E-XF através de um cartão SIM, o qual assegurar a ligação à cloud e armazenamento e tratamento dos dados que aparecerão ao condutor na app da Famel. Nesta, poderá recuperar o percurso feito e a velocidade e, entre outras informações mais, localizar a moto em caso de furto.
Estamos a usar os recursos nacionais. Os fornecedores foram aparecendo. Não fabricamos nada, não temos interesse, é tudo outsourcing
Já o “corpo” da E-XF, o quadro, resulta de uma parceria de desenvolvimento entre a Famel e uma empresa de engenharia de Aveiro, cabendo a produção a uma outra de Águeda, ali perto. “Vamos fazer a assemblagem lá. Estamos a tirar partido do cluster português das bicicletas para as motos. É uma vantagem bastante competitiva”, assegura Joel Sousa, assumindo ter havido um debate intenso com os investidores para fazer ver a lógica de colocar uma empresa de bicicletas a produzir o quadro de uma moto.
“Estamos a usar os recursos nacionais. Os fornecedores foram aparecendo. Não fabricamos nada, não temos interesse, é tudo outsourcing”, explica o empresário, que estima 60 a 70% a proporção do desenvolvimento efetuado pela sua equipa, composta por dois técnicos no design, três na divisão de engenharia, mecânica e automóvel, e mais dois na eletrónica.
À espera das “modas” do mercado
Sem um histórico recente de presença no mercado, a E-XF irá procurar o seu próprio espaço. À chegada, a nova Famel, uma moto “naked” (sem carenagens), compacta, com 120 kg de peso e 5,5 kW de potência, estará ao nível de um modelo como a Super Soco TC Max, por exemplo, a qual é ligeiramente mais leve (101 kg) e menos potente (5 kW) que a portuguesa, com autonomia igualmente próxima: 120 km para a Famel, 110 km para a chinesa. Para efeito de comparação, esta concorrente está à venda em Portugal por cerca de 5.500 euros, abaixo dos 6.000 euros de ponto de partida para a E-XF. Em ambos os casos não é necessário ser titular de carta da categoria A, específica para motos, entrando esta elétrica na lógica das motos a gasolina até 125 centímetros cúbicos de cilindrada, sendo suficiente a carta B, de automóveis ligeiros.
O valor de venda da moto de berço vimaranense será superior nas unidades destinadas aos mercados de exportação, num patamar entre os 7.000 e os 7.500 euros. “Temos que afinar as margens de distribuição”, ressalva o empresário, justificando a indefinição no preço a poucos meses do início da comercialização. Este ocorrerá ainda neste semestre, confia o presidente executivo da marca, com vendas inicialmente em Portugal, Espanha e França. Para 2027 ou no ano seguinte, está prevista a entrada na Alemanha.
Do ponto de vista comercial, o momento atual é de expectativa pelo balanço final das vendas de motos no ano transato, explica Joel Sousa.
“Houve uma diminuição na procura no mercado de elétricos. Estamos atentos aos números do final de 2025. A falência da KTM inundou o mercado de motos a combustão. Mas as projeções são boas”, diz, deixando uma nota de esperança: “Se a transição no mercado elétrico automóvel for transposta para as motos, estamos muito bem colocados”.
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Famel chega ao mercado já neste semestre. “Queremos ter um modelo de negócio tipo Tesla”
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