Kristin, o elefante na “loja de vidros” na Marinha Grande. BA Glass acelera para não perder clientes

Dia a chegar ao fim, uma semana após a passagem de Kristin, entramos na BA Glass, fábrica da multinacional portuguesa do vidro. A chaminé expele fumo. Os fornos de 60 milhões, cada, salvaram-se.

Entra-se ao lado de um portão danificado no armazém com paletes alinhadas carregadas de recipientes de vidro. Centenas de metros lá ao fundo vê-se, esventrado, o lado oposto de um dos pavilhões da multinacional portuguesa da indústria do vidro. Na rua chove copiosamente. Dentro do armazém também, através das muitas falhas na cobertura, as quais adivinhamos dispersas algures pela Marinha Grande, projetadas por ventos que se diz terem superado os 200 km/h. Parte da estrutura desapareceu, frascos e garrafas prontos a enviar ao cliente ficaram debaixo de escombros, vê-se uma e outra e mais uma palete que só não se estatelaram no chão de cimento porque a do lado suportou a queda, vidro a colidir com vidro.

Num dos armazéns acumulavam-se todo o tipo de detritos recolhidos um pouco por todo o perímetro da fábrica. Ao fundo, parte da cobertura foi levada pela tempestade. Hugo Amaral/ECO

Estamos dentro da fábrica da BA Glass na Marinha Grande, onde Kristin foi o elefante na loja de vidros. Não obstante, nem todos os dias são de azar, e cerca de 72 horas após a devastação, a produção reiniciou-se nesta que é uma das três fábricas do setor na Marinha Grande, no massacrado distrito de Leiria, ao longo do qual, segundo cálculos por alto do Governo, se excedem os 4.000 milhões de euros de prejuízos.

“Desperados”, lemos numa garrafa da fábrica desta gigante nacional que vende mais de 1.500 milhões de euros de recipientes de vidro em 70 países e dá emprego a mais de 5.000 pessoas em 13 unidades fabris e outras de reciclagem. Um em cada quatro funcionários trabalha em Portugal. No dia da passagem de Kristin, a fábrica ficou virada do avesso.

No interior, cerca de 40 funcionários assistiram, desesperados e impotentes, aos ventos que, segundo o Governo, terão passado os 200 km/h (ali perto, na base aérea de Monte Real, o aparelho de medição cedeu depois de assinalar uma rajada de 178 km/h).

Os colegas que começaram a chegar do exterior foram impedidos de entrar pelo amontoado de destroços comprimidos por Kristin contra o longo portão de entrada no perímetro da fábrica da BA Glass.

A destruição de infraestrutura nem era a maior preocupação para a direção da unidade da Marinha Grande, mas sim a ausência de eletricidade em alta tensão. Sem energia, os fornos arrefecem, o vidro no seu interior solidifica e o forno, equipamento com um custo de 60 milhões de euros, fica inutilizado.

Para que tal não aconteça, um gerador que consome mais de 10 mil euros diários de gasóleo é chamado a trabalhar para manter os fornos quentes. Toda a restante cadeia de produção é parada.

Junto de um dos fornos, Fabian Barrero, diretor da fábrica e Iva Rodrigues, responsável pelas cinco fábricas ibéricas da BA Glass. "Muitas das empresas que estão a fazer recuperação não são desta região, vieram de outros pontos do país. Se isto tivesse sido nacional, tinha sido o descalabro", diz Iva Rodrigues. Hugo Amaral/ECO

“Apagão foi um pequeno ensaio”

O apagão foi um pequeno ensaio. Até aí, nunca tínhamos estado tanto tempo sem eletricidade”, recorda Iva Rodrigues, diretora das operações da BA Glass na Península Ibérica. A 28 de abril de 2025, “quando foi o apagão, estivemos 16 horas sem eletricidade, tinha sido o nosso recorde. Agora, foram três dias”, diz a gestora, na visita do ECO/Local Online à fábrica da Marinha Grande, uma semana após a passagem da mais pesada das “carruagens” do comboio de tempestades que vem afetando o país.

Não tivemos problemas em reabastecer os geradores porque foi uma situação local. Se fosse no país inteiro, seria outra história. Pudemos pedir logo [abastecimento de gasóleo] aos nossos fornecedores que não são locais”, explica a diretora das operações ibéricas. E, nota, também no campo das reparações da estrutura haveria dificuldades caso a área geográfica do impacto fosse superior: “Muitas das empresas que estão a fazer recuperação não são desta região, vieram de outros pontos do país. Se isto tivesse sido nacional, tinha sido o descalabro”.

Máquinas das linhas de produção protegidas com plásticos.Hugo Amaral/ECO

Às várias preocupações, um ponto adicional assolou de imediato a empresa, o efeito comercial de uma interrupção da produção. Com a queda do mercado do vidro internacional e uma concorrência feroz à procura de uma fatia num setor comprimido, a BA Glass mobilizou de imediato outras fábricas do grupo de Vila Nova de Gaia para cumprirem os contratos firmados, sobretudo com clientes franceses de produtos de alimentação em boiões de vidro e de refrigerantes e outras bebidas ligeiras.

O mercado do vidro de embalagem tem sofrido, desde a crise energética, a nível da Europa. Se não servirmos os clientes do mercado francês, há muitas empresas francesas disponíveis. A nossa preocupação, desde o primeiro momento, foi repor a produção

Iva Rodrigues

Responsável das fábricas ibéricas da BA Glass

Esta é uma fábrica exportadora, muitos dos clientes são do mercado francês. Na Península Ibérica temos cinco fábricas, temos clientes aqui da fábrica que estamos a conseguir servir com as outras”, explica Iva Rodrigues.

“O mercado do vidro de embalagem tem sofrido, desde a crise energética, a nível da Europa. Se não servirmos os clientes do mercado francês, há muitas empresas francesas disponíveis. A nossa preocupação, desde o primeiro momento, foi repor a produção, porque uma interrupção temporária pode significar interrupção total… a partir do momento em que o cliente, o francês, por exemplo, não consegue receber da BA da Marinha Grande, vai procurar uma empresa francesa, e se calhar não tem razão para depois não continuar com ela. É uma oportunidade fabulosa” para esse concorrente, salienta a coordenadora das operações do quinteto de fábricas ibéricas da BA Glass.

À falta de produção, soma-se o prejuízo da perda do stock de recipientes de vidro do qual ainda se fazia o balanço. Passada a remoção de objetos suspensos no topo e paredes dos armazéns, a empresa preparava-se, aquando da visita do ECO/Local Online para fazer inspeções palete a palete.

“A prioridade foi a segurança dos trabalhadores. Não se avançou [de imediato] com nada, porque tínhamos telhas e vigotas penduradas do telhado. Ninguém circulava. Uma vez garantida a segurança, começámos a recuperação do telhado para recuperar a produção”, conta Fabian Barrero, diretor da fábrica. Entre os meios reunidos estiveram eletricistas e serralheiros provenientes da fábrica espanhola da BA Vidros.

Danos nesta fábrica há de três níveis: produção bloqueada nos armazéns, paragem da produção e danos no stock. Mesmo após a retoma do fabrico, a cadência é inferior ao que sucedia até dia 28.

A prioridade foi a segurança dos trabalhadores. Não se avançou [de imediato] com nada, porque tínhamos telhas e vigotas penduradas do telhado. Ninguém circulava. Uma vez garantida a segurança, começámos a recuperação do telhado para recuperar a produção.

Fabian Barrero

Diretor da fábrica da BA Glass na Marinha Grande

Sobre prejuízos, a responsável pelas unidades ibéricas diz serem “milhões. Temos três armazéns, este, um no outro lado da rua e outro na área industrial. Todos sofreram danos. Só para compor o telhado de um armazém é um milhão de euros. Temos três armazéns, mais a fábrica, mais a perda de produção. Vai totalizar muitos milhões”.

Quanto à relevância de eventuais apoios estatais, a BA Glass teve capacidade para dar início às reparações sem ter esperar por dinheiros públicos. “Somos uma empresa maior, não estivemos à espera de apoio. Somos um grupo grande, com várias fábricas na Europa, no México, e conseguimos endividar-nos perante um banco para fazer obras. Desde o primeiro dia que não ficámos parados. A prioridade foi começar a reparar tudo o que fosse possível, quer viessem ou não apoios, porque não podíamos estar parados. Empresas pequenas podem não ter capacidade financeira”. De qualquer modo, Iva Rodrigues diz que “em termos de apoios, apoios que sejam dívida não é solução. Ou é apoio ou não é. As empresas pequenas precisam de apoio”.

Somos um grupo grande, com várias fábricas na Europa, no México, e conseguimos endividar-nos perante um banco para fazer obras. Desde o primeiro dia que não ficámos parados. A prioridade foi começar a reparar tudo o que fosse possível, quer viessem ou não apoios, porque não podíamos estar parados. Empresas pequenas podem não ter capacidade financeira.

Iva Rodrigues

Do lado da E-Redes, e ao contrário do que ainda sucede duas semanas após a tempestade noutros pontos do distrito de Leiria, a reposição do serviço de eletricidade em alta tensão demorou apenas 72 horas. A explicar o hiato estará, considera o diretor da fábrica, o facto de a linha de alta tensão ser subterrânea.

Tentámos contactá-los logo no primeiro dia para saber o que se passava, mas não havia grandes respostas. O primeiro contacto oficial que tivemos foi na quinta-feira de manhã e a essa hora ainda não conseguiam dar resposta”, diz Iva Rodrigues, sobre a ação da E-Redes.

Mesa, roupa lavada e secretária para os trabalhos da escola dos miúdos

Equipa que merece os maiores elogios é a que constitui a força de trabalho da BA Glass na Marinha Grande. De tal forma se destacou a sua dedicação à retoma das operações dentro da normalidade possível que a administração decidiu pagar um salário base extraordinário a todos os trabalhadores daquela unidade.

Além da recompensa pecuniária, abriram-se as portas dos balneários e cantina aos familiares próximos, para banhos e alimentação. Quem não tinha luz e água em casa pôde tratar da roupa na lavandaria improvisada. “Estamos a oferecer refeições, porque muitas das pessoas não têm forma de cozinhar em casa. Estamos a fazer o básico das necessidades, poderem comer, tomar banho e lavar a roupa”, diz Iva Rodrigues.

Hugo Amaral/ECO

Os trabalhadores “têm sido excecionais. A maior parte não tem água nem luz em casa, e desde o primeiro momento têm estado à disposição. Estamos a tentar providenciar o apoio que podemos, lavandaria, refeições, balneários. Como empresas temos responsabilidade social, mas estamos a sobrepor-nos ao papel do Estado, que devia estar a intervir mais rapidamente que nós”.

A responsável pelas fábricas ibéricas destaca: “Temos todo o gosto, é nossa obrigação, estamos muito agradecidos às pessoas e o que pudermos fazer por elas, faremos”.

Entre outros esforços envidados, conta Fabian Barrero, a BA Glass colocou-se a caminho para providenciar um bem indispensável: “no início não encontrámos água, fomos mais longe e contratámos um camião de água potável”.

Do dia para a noite, a BA Glass suspendeu duas proibições internas com um denominador comum: plástico. Não só os funcionários puderam ter acesso a água dispensada nas garrafas que vimos empilhadas num dos armazéns, como aos plásticos usados na proteção dos recipientes de vidro produzidos. “É totalmente proibido dar um uso que não seja o embalamento, mas é um material que dá jeito para uma janela partida, por exemplo”, salienta o diretor da fábrica.

“Quando me vou embora da fábrica, estão pessoas que vêm comer, com a mulher e os filhos. Temos cantina, aquecimento, luz, podem passar um tempo aqui. Já vi crianças a estudar”, diz, com visível satisfação, o espanhol de Badajoz que apenas conseguiu chegar à BA Glass seis horas após a devastadora invasão de Kristin.

Nesse período, destaca, já a entrada da fábrica tinha sido desobstruída e faziam-se limpezas dos escombros, tudo pela mão dos trabalhadores, sobre os quais o diretor da fábrica salienta “o compromisso”. “O capital humano para nós é importante e eles estão a responder de forma espetacular”.

Uma análise que os dois responsáveis da fábrica não estendem a quem dirige o país, ainda que sem uma crítica direta. “Das autoridades ninguém perguntou nada, ninguém apareceu aqui”, convergiam no dia da visita do ECO/Local Online, uma semana após o evento meteorológico de 28 de janeiro. À data, apenas da autarquia houvera interesse em saber quais as necessidades de uma fábrica que emprega mais de 250 pessoas.

No final da última semana, o contacto do Executivo chegou, por fim. O intuito, “perceber a situação e fazerem a avaliação da intervenção a fazer”, esclarece Iva Rodrigues. Sobre respostas às necessidades desta e das centenas de outras empresas atingidas, talvez num próximo telefonema.

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