"É assustador ao ponto a que isto chega", diz diretor-geral da Umbelino Monteiro. Fábrica de telhas com 14 milhões de euros de faturação soma prejuízos à calamidade devido à falta de eletricidade.
Treze dias passaram desde que a depressão Kristin devastou o distrito de Leiria. Perante a força da tempestade, de nada valeu à Umbelino Monteiro os 67 anos de experiência a telhar edifícios, uns anónimos e outros históricos, da Igreja dos Clérigos, ao Mosteiro dos Jerónimos. Parte da estrutura dos pavilhões desapareceu pelos ares, deixando equipamentos debaixo de chuva. “Efetivamente, todos foram avisados, mas a verdade é que não fomos devidamente capacitados para tomar uma decisão [relativa] às pessoas que estavam na fábrica. Na nossa e em outras. Felizmente que correu tudo bem”, destaca o diretor-geral da Umbelino Monteiro SA.
Passados 13 dias, a empresa continua sem acesso a energia. E também sem esclarecimentos da E-Redes, assegura Pedro Valente. “É assustador ao ponto a que isto chega”. Aos prejuízos patrimoniais, ainda por contabilizar, mas que Pedro Valente sabe dizer já serem de vários milhões de euros, somam-se os lucros cessantes pela produção parada. Para que esta regresse, é necessária eletricidade.
Sem resposta da E-Redes, e não podendo continuar presa ao silêncio desta empresa privada, a Umbelino Monteiro viu-se obrigada a encomendar um cabo para ligação dos dois geradores Diesel entre si, de modo a, unidos, suportarem um dos fornos e permitir que a fábrica não continue parada. Esse cabo custou 30 mil euros e, azar dos azares, chegou incompleto, aguardando a empresa que a transportadora chegue com os componentes em falta.
Manter os dois geradores a gerar energia custa mais de 3.000 euros diários em gasóleo. Se não iniciar a operação, a Umbelino Monteiro terá de encaixar uma outra fatura, a do gás natural, adquirido em regime fixo, “take or pay“: mesmo que não o gaste, terá de pagar.
“Temos a produção totalmente parada, muitas telhas que voaram e, numa zona da preparação de pastas, também temos um dano forte numa cobertura, que estamos a tentar recuperar”, dizia Pedro Valente ao ECO/Local Online no final da semana passada. A sua expectativa era de ainda esta semana pôr uma linha já a funcionar. “Haja eletricidade”, dizia.
Contudo, e como confirmou o diretor-geral ao início da noite desta segunda-feira, não só continua a faltar eletricidade, como a E-Redes não dá, sequer, uma previsão. Estamos a trabalhar com geradores e os nossos geradores aguentam parte da instalação, não aguentam a instalação toda”, dizia.
O responsável da empresa nota que a falta de eletricidade é, “claramente, uma limitação para voltar à normalidade”.

“Estrutura colapsou”
No momento mais caótico da passagem da depressão Kristin, cerca das quatro da madrugada, os funcionários faziam a pausa para refeição. “Estavam noutras zonas, onde os danos não tiveram impacto”, conta Pedro Valente à reportagem do ECO/Local Online. À distância, em Espanha, teve de usar o telefone para se inteirar do cenário vivido na fábrica.
“Não conseguia falar com ninguém e a determinada altura recebo uma chamada da técnica de segurança que me diz que temos a linha um com problemas sérios, que a estrutura colapsou”. Do outro lado ouve que “não há ninguém ferido, mas temos aqui cenários graves, danos graves”.
Quando, superadas as estradas obstruídas, os membros da fábrica começaram a chegar a Meirinhas, Pombal, logo se depararam com cidadãos que ali esperavam à procura de telhas.
“Nós não vendemos ao cliente final, vendemos a distribuidores, por isso, para atender o cliente final aqui tivemos que pegar em pessoas nossas, criar equipas de atendimento e prepararmo-nos para isso, tendo noção de que não temos essa experiência”, explica. Desde logo, reforça o diretor-geral da fábrica de telhas, “não tínhamos sistema informático”.
Gabriela Silva chegou cedo à fábrica naquela manhã de 28 de janeiro. Perante os pedidos da população, a responsável dos Recursos Humanos da Umbelino Monteiro decidiu não deixar sem resposta quem chegava e trazia a necessidade premente de repor os telhados das suas casas.
Nós não vendemos ao cliente final, vendemos a distribuidores, por isso, para atender o cliente final aqui tivemos que pegar em pessoas nossas, criar equipas de atendimento e prepararmo-nos para isso, tendo noção de que não temos essa experiência
“Às 7h30 já havia pessoas a pedir para lhes vendermos telhas”, recorda Gabriela Silva ao ECO/Local Online. Pedro Valente, que às 10h30 estava a aterrar no aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, recorda as “pessoas desesperadas” com que se deparou, em busca de telhas.
Dias depois, quando o ECO/Local Online chegou à empresa, os estragos na estrutura perduravam, bem como a venda ao público. Para anotar as vendas, recorria-se a uma folha de Excel, um salto quântico tecnológico face ao cenário dos dias após a tempestade, quando a Umbelino Monteiro praticamente recuou de volta ao ano da fundação.
Logo às primeiras horas de dia 28, ainda com a devastação presente na fábrica, na floresta circundante e nas estradas que ali dão acesso, a equipa reuniu-se para acudir aos cidadãos das redondezas em carestia de telhas para reparar telhados. Sem energia nem telecomunicações, o computador e o terminal multibanco eram adereços sem sentido. Iniciou-se então o registo manual, anotações em papel e caneta, e se quem pedia umas telhas não trazia dinheiro na mão, vendia-se fiado.
A determinado momento da visita, uma frase do ministro da Economia e Coesão Territorial dita num canal televisivo assumiu toda a sua dimensão irrealista: questionado sobre quanto tempo demorará a chegar os apoios aos cidadãos afetados, Manuel Castro Almeida atirou a solução imediata para o salário recebido em janeiro.
No caso dos funcionários da Umbelino Monteiro, valeu-lhes que o processamento salarial estava já realizado no software de gestão Primavera. Contudo, faltava a ordem de pagamento que, sem energia nem telecomunicações, se tornava impossível. A equipa de RH pegou então num computador e rumou a Coimbra, onde, nas instalações de um cliente, a responsável de RH pôde assegurar que todos recebiam o vencimento ainda antes de dia 31. Muitas outras empresas poderão não ter conseguido realizar a mesma ginástica geográfica.
Adquirida, em 2019, pela empresa francesa Edillians – pertencente à Lone Star, dona do Novobanco – ao grupo belga Etex, a Umbelino Monteiro tem a produção parada, 13 dias passados da depressão Kristin.
“Numa das linhas, há um dano estrutural muito forte do edifício, que afetou a linha”, conta Pedro Valente, enquanto percorremos a fábrica onde se fazem telhas de várias cores e modelos.
A dimensão da incerteza que afeta o tecido empresarial do distrito de Leiria resume-se no lado B de uma afirmação de Pedro Valente: “O negócio é para continuar… o negócio é para continuar. Isso é o que nós já dissemos às pessoas. É um murro no estômago forte, mas é para continuar, por isso temos de recuperar o quanto antes”.
De forma indireta, fica implícito que a depressão Kristin teve força suficiente para pôr em risco a continuidade de negócios. Aliás, numa das fábricas pelas quais o ECO/Local Online passou durante os dias de reportagem no distrito de Leiria, diz-nos o senso comum que apenas se aproveita o terreno.
O negócio é para continuar… o negócio é para continuar. Isso é o que nós já dissemos às pessoas. É um murro no estômago forte, mas é para continuar, por isso temos de recuperar o quanto antes.
Como noutros locais, ouvimos o mesmo destaque à entreajuda que a situação provou ser um dos atributos nacionais. Numa indústria de telhas cerâmicas que conta com apenas cinco empresas, o mais pequeno de todos em Portugal prontificou-se rapidamente para apoiar a reconstrução da Umbelino Monteiro. A este juntou-se, dias depois, um segundo.
Pedro Valente é lesto a responder à hipótese que colocamos, de haver empresas que, face aos prejuízos, já não tenham capacidade para se reerguerem: “Não tenho a menor dúvida”.
"Há muita destruição de particulares e de empresas. Em função do momento em que se apanham determinados negócios, não tenho a menor dúvida que há os que não vão arrancar. Estamos a falar de coisas em que é praticamente fazer de novo. Um pavilhão que colapse e que danifique máquinas é mandar abaixo e fazer novo. Isso demora tempo. Não estamos só a falar dos custos de edificação, estamos a falar de lucros cessantes. Se não estiver a produzir, não fatura.”
Ao mesmo tempo que sofreu danos, a Umbelino Monteiro tem nos seus fornos uma parte da solução, com um produto que se tornou bem de primeira necessidade: telhas. E fica já aqui um alerta a particulares e empresas: Pedro Valente deixa a certeza de que “se estiver a haver aumento de inflação de preços, não são os produtores que o estão a fazer”, alerta.
O mercado tem cinco empresas, das quais três de maior dimensão. O líder de mercado não mexeu no preço e as duas que o deveriam fazer, incluindo a Umbelino Monteiro, adiaram a subida do custo de cada telha, descreve. “Tínhamos previsto um aumento de preços para começar na segunda-feira, de taxa de inflação e custos do trabalho. Atrasámos isso um mês”.
Ao longo de uma hora a percorrer a fábrica da Umbelino Monteiro em Meirinhas, assimilamos algo que muitos cidadãos estarão a aprender pela própria experiência em cima dos seus telhados: a de que duas telhas com um aspeto exatamente igual podem ser incompatíveis, e que tanto em Espanha quanto em Portugal se faz telha Lusa, aparentemente iguais, mas que, tal como na bitola ferroviária ibérica para a europeia, não “casam” quando dispostas num telhado.
Ao longo da visita vemos as imensas falhas no teto metálico, linhas de produção tapadas com grandes plásticos para impedir danos provocados por chuvas, chão de fábrica encharcado e vigas de aço vergadas à força do vento. Num dos lados do pavilhão, o topo da parede vergou, mas não a parte inferior, o que se poderá dever à vastidão de paletes empilhadas, à espera de uso na remessa de telhas, e que terá servido de muralha de madeira para a fúria de Kristin.
No interior, algumas falhas de placas no telhado provam que foi correta a decisão de, após a passagem do furacão Leslie (2018), deixar zonas prontas para saltar caso nova tempestade invadisse a fábrica – no lugar de ficar retido, o vento tinha por onde se esvair.
“Este problema que nós temos, de estruturas danificadas e necessidade de material para a reparar, não aconteceu à Umbelino Monteiro, aconteceu a centenas de ‘Umbelinos Monteiros’ nesta zona. Os fornecedores são os mesmos, independentemente de esticarmos a manta pelo país. Vai ser complicado para toda a região recuperar ao mesmo tempo”, vaticina o diretor-geral.
No caso particular desta empresa, não é ainda certo que se consigam respeitar todas as encomendas, um potencial dano acrescido. Desde logo, porque não há eletricidade. O total de prejuízos não está sequer quantificado.
Além da reconstrução de pavilhões, há uma incógnita sobre a maquinaria. “A parte mecânica não me preocupa assim tanto, mas a parte elétrica levou muita água em cima. Como ainda nem conseguimos eletrificar, não conseguimos perceber onde é que está o estrago”.
Em termos de custos, as contas estão por fazer, mas há valores que se conhecem à partida. “Uma prensa custa meio milhão de euros, uma torre de carga custa 200 ou 300 mil euros, um pavilhão sem nada de especial custa meio milhão de euros. Facilmente, conseguimos arranjar aqui quatro ou cinco milhões de euros”.

Ainda assim, destaca o responsável da fábrica, “o coração da empresa”, que são os fornos, está intacto. Cada forno encerra em si uma complexidade própria: não se pode deixar que arrefeça bruscamente. Nesta fábrica, há fornos com 100 metros e secções de cinco e dez metros, o que faz diferir a velocidade de mudança de temperatura.
Para que o processo de arrefecimento seja progressivo, como se impõe, há geradores, cada qual com consumo diário acima de mil litros.
Com a situação de “apagão” inesperada, a empresa passou por uma situação de stress, por inexistência de gasóleo na região. “Face à indisponibilidade da rede, tomámos a decisão de parar os fornos”. Agora, só para voltar a pôr os fornos em atividade é necessária uma semana.
O trabalho imediato de controlo de danos passa por tapar parte de uma linha exposta sob um teto danificado, de modo a colocá-la a funcionar. Só depois se irá reconstruir o edifício. Para uma segunda linha, o plano é colocar em marcha em março. A terceira, “vamos ver”, diz o diretor-geral. Contudo, para pôr qualquer linha a trabalhar no imediato, persiste o problema: falta a eletricidade.
Em causa está uma faturação que, contas feitas em função dos 14 milhões de euros anuais, se aproxima dos 1,2 milhões mensais.

Quanto ao abastecimento de telha ao mercado, o gestor não vê dificuldades, face aos stocks que cada empresa tem, embora possam faltar alguns acessórios para os retoques finais dos telhados. Com mão-de-obra para reconstrução e energia como elementos prioritários, os apoios públicos imediatos que se impõem são, diz o gestor, isenção de contribuições para a Segurança Social e um lay-off que ajude as empresas.
“Temos de ser objetivos e claros: as empresas, se não conseguem produzir, não conseguem sustentar toda a gente, precisam de apoio. Já vi alguns movimentos na internet, percebo que todos nós temos que manter o nosso posto de trabalho, mas as empresas também não tiveram culpa disto, e para sobreviver precisam de ser flexíveis. Uma coisa é ‘agora abdico de parte para que a seguir possa ter tudo, ou agora sou intransigente e quero tudo’… então vamos todos ao charco e ninguém tem nada”, alerta Pedro Valente.
As empresas, destaca, “precisam de ser ajudadas”. Em parte, pelas entidades oficiais. Pedro Valente exemplifica: “As entidades fiscalizadoras”, designadamente a ACT, têm de “ter a capacidade de perceber que este é um contexto especial, e não caírem em cima das empresas como se fôssemos criminosos”.
“Não é fazer vista grossa, mas é perceber o que se passa”, realça. E resume: “Se percebermos, tudo se resolve. Se quisermos ser inflexíveis, as empresas não vão sobreviver”.
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Kristin parou Umbelino Monteiro. Com E-Redes ausente, não sabe quando volta a fabricar telhas
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