Médico de família e pequeno-almoço na sala de espera. Como é o primeiro centro de saúde privado

O Governo inaugurou esta terça-feira a primeira Unidade de Saúde Familiar modelo C em Torres Vedras. O ECO acompanhou a cerimónia e falou com alguns utentes que não tinham médico há quatro anos.

Antónia Franco, utente do centro de saúde de São Pedro da Cadeira, em Torres Vedras, chegou por volta das 10h desta terça-feira para a primeira consulta com o seu novo médico de família, que não tinha há quatro anos. Senta-se numa sala de espera ainda vazia e olha de relance para uma mesa com águas, cafés, fruta, snacks e sanduíches. Ao fundo da sala, José Bastos, CEO da KnokHealth, a empresa que a partir desta semana ficou a gerir esta Unidade de Saúde Familiar modelo C (USF-C), levanta-se, cumprimenta-a e prontifica-se a explicar: “Pode servir-se à vontade. Vai estar aqui todos os dias. Quer um café?”.

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A dona Antónia sorriu, mas o café e o bolo ficaram para depois, porque tomou o pequeno-almoço em casa. Enquanto espreitava para o carro mal estacionado, devido ao corte da estrada antes da chegada dos membros do Governo, contou ao ECO que “não tinha médico de família desde que o Dr. [Joaquim] Moura faleceu, em 2022” e disse que esperava que corresse “tudo bem” nesta nova dinâmica nos cuidados de saúde primários da freguesia.

O casal Artur Santos e Deolinda Franco, que também aguarda a chamada para a consulta, está precisamente na mesma situação: vai ter o médico de família que não tinha desde a morte do antigo diretor clínico do centro de saúde oestino. Ambos estão expectantes e, simultaneamente, surpreendidos. “Só tínhamos um médico de recurso à quarta-feira. Fomos ao Turcifal, encaminharam-nos para aqui e marcámos a consulta. Depois vimos algumas coisas no noticiário, mas não sabíamos de nada. E se soubéssemos que havia esta logística toda [visita do primeiro-ministro e da ministra da Saúde] nem tínhamos vindo. Até pensava que a comida e bebida só estavam aqui hoje para a inauguração. Não estamos habituados”, ri-se a matriarca, visivelmente nervosa com o aparato que se aproximava.

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, e uma utente da USF modelo C em São Pedro da Cadeira, que cumprimenta a ministra da Saúde, Ana Paula MartinsTiago Petinga / Lusa

Outra freguesa acerca-se e afirma: “Está a falar a sério? Ai, graças a Deus. São Pedro [da Cadeira] ficou mais rico. Andava sempre para cá e para lá em Lisboa. Haja alguma coisa que nos corra bem.” Nesse ínterim, o cofundador e CEO da Knok, José Bastos, continua a fazer as honras e mostra o cantinho infantil, onde estão os brinquedos para crianças, e o quadro na parede onde quer que a população escreva todos os elogios e críticas à primeira USF-C do país.

Cerca de uma hora depois, era o primeiro-ministro quem lhe deixava alertas sobre o que espera para este centro de saúde. “Isto foi um contrato. Nós vamos cumprir a nossa parte. Espero que cumpram a vossa”, disse Luís Montenegro, que se deslocou à região Oeste para o ‘corte da fita’ da primogénita das cerca de dez USF-C previstas para abrir em Portugal, cerca de metade das que constavam no plano inicial do Governo da AD.

Desvalorizando as críticas de que este modelo é uma privatização da saúde, Luís Montenegro fez questão de salientar que, fora do contexto político, nunca teve contactos com empresas de saúde nem conhece “em detalhe o negócio”. No entanto, o líder do Executivo admitiu, no discurso de inauguração, que o processo de criação das USF-C “foi um pouco mais demorado” do que queriam.

Vamos continuar a abrir outras [USF-C] assim que tivermos parceiros (empresas, municípios, associações intermunicipais, instituições sociais..). Não o vamos fazer em todo o lado. Vamos fazer onde se justifica. E se nos convencerem de que este modelo funciona pior do que o anterior acabamos com ele.

Luís Montenegro

Primeiro-ministro

As USF-C são forma distinta de organização dos cuidados de saúde primários, que permite a gestão por entidades do setor privado ou social, mediante contrato com o SNS, sujeito a objetivos assistenciais, indicadores de desempenho e mecanismos de monitorização. O objetivo é que estes modelos sejam instalados em territórios com dificuldades na cobertura de médicos de família, como é o caso da região do Oeste. Para esta zona estão previstas mais três – em Óbidos, Bombarral e Caldas da Rainha – que o primeiro-ministro garante estarem “encaminhadas”.

Fizemos um investimento muito grande para termos esta oferta, até ao nível da legislação, mas depois de arrancarmos é mais fácil continuar. É como um andar modelo.

Ana Paula Martins

Ministra da Saúde

Luís Montenegro explicou que, além da escassez de médicos, o Oeste “tem outra particularidade que é o acréscimo de população devido ao preço da habitação, à qualidade de vida e ao acolhimento de imigrantes”. “A oferta de médico de família também é para eles. Não queremos ter uma sociedade de primeira e de segunda”, referiu.

É o caso de Elias e Francielle Rodrigues, ambos de naturalidade brasileira, que trouxeram o filho recém-nascido ao pediatra de São Pedro da Cadeira. “Para uma unidade que ficou tanto tempo sem médico parece que agora veio com tudo. É tudo novidade e estamos a ter uma boa experiência. Adorei o doutor. Eu não tinha médico de família e agora tem aqui quatro, não é?”, disse Francielle, devolvendo a pergunta. Não se sabe ao certo. O ECO voltou a questionar a Knok sobre o número de profissionais de saúde nesta USF-C, nomeadamente a composição da equipa de especialistas em Medicina Geral e Familiar, mas a empresa não quis fazer comentários.

Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, Sérgio Galvão, com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e Carlos Sobral, administrador da ULS do OesteTiago Petinga / Lusa

Torres Vedras apela a avanço no novo hospital. Ministra da Saúde remete decisão para setembro

O presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras aproveitou a ocasião para enaltecer “o dia importante” para o Serviço Nacional de Saúde e para fazer um apelo à tomada de decisão sobre a localização do novo hospital do Oeste, para a qual a autarquia até pediu recentemente a intervenção do Presidente da República, António José Seguro.

O Governo inscreveu 265,1 milhões de euros para o novo hospital do Oeste no Orçamento do Estado para 2025, é um passo que merece ser reconhecido, mas é tempo de dar o passo seguinte e encerrar de vez a discussão. Não é tempo de encomendar novos estudos”, apelou Sérgio Galvão, fazendo referência ao terceiro estudo técnico independente encomendado pelas Caldas da Rainha no início do verão.

À margem do evento, em declarações aos jornalistas, a ministra da Saúde remeteu a escolha para a partir do próximo mês. “Não viemos adiar o lançamento do novo hospital do Oeste. Vai ser um projeto em PPP – Parceria Público-Privada, como no Algarve, e muito brevemente essa clarificação será feita. Será no início do acompanhamento com a equipa que temos na ACSS [Administração Central do Sistema de Saúde] e na UTAP [Unidade Técnica de Acompanhamento de Projeto]. Diria que a partir de setembro teremos este processo em movimento”, antecipou Ana Paula Martins, que se fez acompanhar por Carlos Sobral, vogal do conselho de administração da Unidade Local de Saúde do Oeste.

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