Muitas máquinas para poucas embalagens, arranca o reembolso de quem devolve latas e garrafas

Máquinas de recolha há muitas, embalagens é que ainda há poucas. O sistema de depósito e reembolso arranca devagar, por entre entusiasmo, dúvidas, algum desconhecimento e memórias do vasilhame.

Pouco passava das 9h da manhã, ainda o centro comercial Colombo estava num silêncio pouco usual, as lojas fechadas e quase ninguém à vista, já João Pereira Pires estava na caixa de supermercado, a pagar a garrafa de água do costume. Mas a rotina diária, esta sexta-feira, é marcada por uma estreia, e Pereira Pires sabe-o: já arrancou o sistema de depósito e reembolso destinado a recolher garrafas como aquela que acabava de comprar.

Todos os dias venho dar a voltinha e levo a garrafinha”, explica o cliente, reformado, agora com 82 anos. João Pereira Pires está ciente de que é a partir desta sexta-feira que começam a ser vendidas garrafas e latas, de plástico e alumínio, com rótulos que ditam a cobrança de 10 cêntimos adicionais – o chamado valor de depósito – sobre o preço do produto. Uma quantia que será devolvida caso estas embalagens sejam entregues em máquinas próprias para o efeito, mais tarde, no supermercado.

Informado, apressa-se a explicar: “Podia ter [valor de] depósito, mas não tem”, já que a primeira fase é um período de transição, e ainda “há muito stock” de embalagens com os rótulos antigos para escoar antes do valor de depósito ser aplicado em toda a linha.

Volta, o sistema de depósito e reembolso de garrafas e latas de plástico e alumínio, está disponível a partir de 10 de abril em mais de 2500 pontos de recolha.Hugo Amaral/ECO

Questionado sobre se irá manter esta rotina matinal quando entrar em vigor o sistema, João Pereira Pires não hesita: “Sim, claro, é a mesma coisa, porque depois há reembolso. Não tem problema”. Para já, não sabe como funciona nem avistou ainda a máquina deste estabelecimento que visita diariamente.

“Acho que é lá em baixo, no parque [de estacionamento]”, arrisca. O resto, espera perceber mais tarde, no dia em que comprar uma embalagem que seja coberta pelo sistema. Seja como for, é defensor desta iniciativa: “Acho lógico, acho muito bem. Andam aí garrafas por todo lado e isto é uma maneira boa de realmente não haver desperdício”.

"Acho lógico, acho muito bem. Andam aí garrafas por todo lado e isto é uma maneira boa de realmente não haver desperdício.”

João Pires Pereira

Cliente

Saído da mesma caixa de supermercado, mas desta vez de carrinho de compras cheio, Luís Coelho, controlador de tráfego aéreo de 55 anos, também sabia que o sistema de depósito e reembolso estava prestes a estrear-se, embora não tivesse a certeza de qual era o dia D, nem a localização da máquina de recolha neste estabelecimento.

A garrafa de refrigerante que trazia consigo ainda não tinha o símbolo Volta, que serve para identificar as embalagens que estão cobertas pelo sistema. “Se calhar, da próxima vez, já vou reparar em tudo de uma forma diferente”, indica, assegurando que pretende devolver as embalagens para obter o reembolso. “Isto é uma questão de educação das pessoas. Ainda não conseguimos reciclar o que devíamos e, portanto, isto é uma forma de obrigar as pessoas a reciclar”, remata.

Na mesma manhã, mas noutra loja Continente, a do Largo do Rato, Mónica Fonseca, engenheira de telecomunicações de 53 anos, mostrou um grande entusiasmo com o novo sistema, assumindo-se uma embaixadora: “Acho fantástico e acho que devíamos todos fazer. Divulguei tudo o que pude em todos os grupos, do Whatsapp e por aí fora”.

Já recicla em casa e leva o lixo todos os dias, pelo que considera “fácil” fazer uma separação extra de embalagens e deixá-las neste supermercado, “ao lado” do seu local de trabalho. Diz inclusivamente que, nos próximos tempos de transição, vai querer comprar as embalagens que já tenham o símbolo Volta em detrimento das outras, porque “essas são mesmo recicladas”.

“É como havia antigamente, nós comprávamos, tínhamos a tara, devolvíamos na loja e recebíamos tara”, explica, referindo-se ao sistema que já esteve em vigor no país, focado na recolha de vidro, conhecido como vasilhame.

"Acho fantástico e acho que devíamos todos fazer. Divulguei tudo o que pude em todos os grupos, do Whatsapp e por aí fora.”

Mónica Fonseca

Cliente

O “colega” de profissão, José Martins, também acredita que o sistema é uma boa iniciativa, mas deixa uma ressalva: “Depende é dos pontos de recolha, se estão disseminados ou não. Se forem poucos, isto torna-se ineficiente”. Contudo, desde que estejam presentes no supermercado onde habitualmente se dirige, conta fazer a devolução. Como já faz reciclagem “é fácil chegar lá e tirar as garrafas de plástico” para depois as entregar no supermercado, afirma.

Depósito… quê?

A meio da manhã, no Campus XXI, o edifício que reúne grande parte dos gabinetes do Governo, a própria ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, fez uma demonstração de como se usam as máquinas – e colocou, também, várias questões, respondidas no local pelo CEO da entidade gestora do sistema, a SDR Portugal.

– Não preciso de empurrar?
– Não, é só colocar.
– Não faz mal ter um bocadinho [de líquido]?
– Assim, pouco, não.
– [A garrafa, coloco] fechada, ou aberta?
– Fechada ou aberta [mas sempre com tampa].

Leonardo Mathias foi respondendo às dúvidas e apontou para as instruções, desenhadas no corpo da máquina, que ajudam a perceber os requisitos. As embalagens têm de ser entregues com o rótulo legível, sem estarem amolgadas, sem líquido (ou quase) no interior e com tampa.

Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia, na apresentação da marca Volta, a 4 de março. Em segundo plano, Leonardo Mathias, CEO da SDR PortugalHugo Amaral/ECO

Nos supermercados, as dúvidas ainda não se colocavam a este nível, já que a maioria ainda não tinha sequer tentado devolver uma garrafa. Madalena Afonso, 63 anos e ex-funcionária da Sonae, foi a única cliente que, ao aperceber-se de que uma equipa de comunicação se encontrava ao lado das máquinas do Continente do Largo do Rato, se aproximou para tirar uma dúvida sobre o funcionamento: “Posso retirar um voucher e usar depois noutra loja do grupo?”. A resposta foi sim. Já descontar um voucher num estabelecimento concorrente, não será possível.

Uma funcionária do Continente do Colombo indicou que, pelas 9h30 da manhã, nenhum cliente a tinha abordado no sentido de perceber onde estavam as máquinas de recolha, como se fazia a devolução ou qualquer outra dúvida relacionada. No Continente do Largo do Rato, pelo 12h, apenas uma pessoa tinha perguntado onde era a recolha.

Se, por um lado, é verdade que alguns dos clientes abordados pelo ECO/Capital Verde estavam não só a par de que o sistema estava a estrear-se como também desejavam contribuir, em oposição, vários foram os que ficaram surpreendidos com a pergunta. Adriano, de 21 anos e trabalhador num call center, nunca tinha ouvido falar do sistema.

Após uma breve introdução, afirmou que lhe fazia sentido passar a devolver as embalagens, mas que o sistema não o motivaria a reduzir o consumo. Já Joana, de 28 anos, estudante e trabalhadora, indica que ouviu falar do sistema “muito por alto”, e confessa que não se informou muito sobre o assunto. “Nem sequer sabia que ia pagar a mais pelas embalagens”, indica, quando confrontada com uma descrição do funcionamento.

"Eu comprei aqui uma garrafa, depois saio daqui e vou para a faculdade, e provavelmente não vou ter nem no caminho, nem na faculdade, um sítio onde pôr a garrafa. E não vou andar com a garrafa o dia inteiro.”

Joana, estudante e trabalhadora

Ecoando a preocupação do engenheiro José Martins, afirma concordar com esta iniciativa “se houver máquinas suficientes em sítios suficientes”.

Eu comprei aqui uma garrafa, depois saio daqui e vou para a faculdade, e provavelmente não vou ter nem no caminho, nem na faculdade, um sítio onde pôr a garrafa. E não vou andar com a garrafa o dia inteiro”, pontua.

Neste sentido, afirma que deverá reciclar na faculdade a embalagem que carrega mas, caso o código já estivesse ativo, não iria reaver o valor do depósito. Defende que deveria existir um ponto de recolha ao lado dos ecopontos.

Naide Abreu, trabalhadora doméstica de 40 anos, já tinha ouvido falar do sistema e que este existia “por causa do ambiente”, mas não tinha ideia de como este irá funcionar, nem que implicava a cobrança de 10 cêntimos reembolsáveis. Questionada sobre se este valor, cobrado sobre as embalagens de plástico e metal com menos de três litros, fará alguma diferença nas contas ao final do mês, anuiu.

Mas então, passará a devolver estas embalagens, ou será difícil? “Depende, se toma muito tempo”, e pode até haver algum esquecimento e acabar por as descartar no lixo, assume. Em casa, faz reciclagem. Agora que sabe do novo sistema, consente: “Vou tentar fazer, para ver se compensa”.

Para João Menezes Ferreira, 75 anos e reformado, também foi uma surpresa ouvir falar deste novo sistema. Durante toda a conversa, vai fazendo o paralelo com a devolução que era feita das garrafas de vidro, e questiona se não estará também de novo em vigor.

Mais inteirado sobre as mudanças, considera que, no acumulado do mês, os 10 cêntimos por embalagem representarão uma quantia “relevante”, pelo que deverá começar a separar embalagens e a devolvê-las. No bairro onde vive não tem ecopontos perto, pelo que não tinha o hábito de separar os resíduos e reciclá-los. Agora, diz ter o incentivo.

"Provavelmente deixaria as garrafas no quarto do hotel para o pessoal da limpeza aproveitar, se o quiserem.”

Linda, turista alemã

No Rato, passam também muitos turistas. Linda, visitante oriunda de Leipzig, na Alemanha, diz-se familiarizada com este sistema, que acaba de ser informada que está a estrear-se em Portugal. Como turista, usá-lo-ia? “Não, provavelmente deixaria as garrafas no quarto do hotel para o pessoal da limpeza aproveitar, se o quiserem”.

Um casal norte-americano, do Estado da Virginia, que está a conhecer diferentes cidades no país, indica que não é prática no seu Estado, mas sim noutros locais do seu país de origem, pelo que conhecem o sistema. Por cá, consideram usá-lo, desde que possam deixar embalagens compradas numa cidade em outra. Podem.

Com as máquinas de recolha, não é sempre “à primeira vista”

É natural que muitos dos clientes ainda não se tenham deparado com a máquina indicada para a recolha. No Colombo, não está no espaço da loja, e nem todos os funcionários a sabem indicar. Aqueles que estão a par, encaminham os clientes para o andar de baixo, o -1, do estacionamento. Desce-se, passam-se as máquinas onde se paga o estacionamento, as portas de vidro automáticas, e aí, sim: um bloco volumoso, que podia dar lugar a pelo menos um carro, impõe-se no meio do parque.

Por maior que seja, não é óbvia a identificação, já que é de cor beje, em vez do azul ou cinzento característico da Volta. Isto acontece porque, até agora, servia essencialmente para a recolha de rolhas de cortiça, lâmpadas ou pilhas. Era um Ecospot Continente, que já foi criado em 2024, e que acrescenta agora duas “bocas” azuis escuras para recolher as embalagens de plástico e alumínio, mas estas últimas ainda não estão caracterizadas.

Máquina de recolha e Ecospot da loja Continente Bom Dia do largo do Rato. Volta, o sistema de depósito e reembolso de garrafas e latas de plástico e alumínio, está disponível a partir de 10 de abril em mais de 2500 pontos de recolha.Hugo Amaral/ECO

A responsável de Sustentabilidade do Continente, Beatriz Baptista, afirma que todos os Ecospots deverão adotar a identidade Volta em breve, à semelhança do que já se verifica no Continente Bom Dia do Largo do Rato. Esta máquina está também no espaço de estacionamento, no andar de cima do estabelecimento. Contudo, existirão lojas onde não há espaço para o Ecospot, e por isso a máquina Volta é instalada sozinha.

Muitas máquinas, poucas embalagens

A equipa de comunicação do Continente, que esteve na área da máquina na manhã de sexta-feira a introduzi-la à imprensa, assinala que ainda não assistiu a devoluções, o que será natural: este foi o primeiro dia em que os supermercados colocaram nas prateleiras itens com o rótulo que permite aplicar o valor de depósito na caixa registadora e depois proceder à devolução nas máquinas.

Além de não ter havido muito tempo para adquirir, usar e devolver, há outro motivo para não se registar um grande número de devoluções – ou talvez mesmo nenhuma – da parte da manhã. No Continente Bom dia do Largo do Rato, por exemplo, apenas latas da Coca Cola com Zero Açúcar já tinham os rótulos e símbolo da Volta.

Contactadas, diferentes insígnias assumem que as embalagens com o selo Volta estão presentes nas respetivas superfícies numa quantidade muito limitada. Fonte oficial do Auchan, indica que, este sábado, apenas parte das cerca de 450 lojas nas quais tem máquinas instaladas já irão receber “algumas bebidas com embalagem Volta”. Só a partir de maio contam ter “maior quantidade” de artigos com embalagem Volta e, a 10 de agosto, a totalidade. O período de transição do sistema estende-se até 9 de agosto.

A Sonae Mc assinala que em “algumas lojas”, a partir desta sexta-feira, será possível encontrar um número de embalagens Volta “ainda muito pouco expressivo”. A partir do final da próxima semana começam a chegar mais referências.

Da parte da Jerónimo Martins, a dona do Pingo Doce, a mensagem é equivalente: não é expectável que existam quantidades significativas de embalagens já marcadas com o símbolo e o código de barras Volta. Serão introduzidas “de forma progressiva”.

Já máquinas há muitas. No dia de estreia, a Volta garantiu que existiam 2.500 disponíveis, e que chegarão a ser 3.000 nos próximos meses. A Sonae MC assinala que o número de estabelecimentos que não terá máquina “é muitíssimo reduzido” e só se justifica quando não existe espaço físico para garantir as condições operacionais e de armazenamento necessárias, sendo também considerada a existência de outros pontos de recolha na proximidade.

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