Nesta antiga fábrica de conservas desenha-se o futuro da moda portuguesa
Portugal Fashion Experience reuniu estudantes, jovens designers, escolas e nomes consagrados para mostrar como a criatividade, formação e indústria se unem na construção da próxima geração da moda.
Onde em tempos se produziam conservas, hoje desfilam coleções. O antigo complexo industrial Vasco da Gama, em Matosinhos, foi um dos palcos do Portugal Fashion Experience e transformou-se, durante um dia, num espaço onde estudantes, designers emergentes e nomes consagrados da moda se cruzaram para desenhar o futuro da moda portuguesa.
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Muito antes de as luzes incidirem sobre a passerelle, a azáfama já tomava conta dos bastidores. Modelos cruzavam-se apressados entre maquilhadores, cabeleireiros e aderecistas. Charriots carregados de roupa percorriam os corredores. Das peças sobressaíam conchas, redes de pesca, cabos metálicos, caricas de latas, fechos metálicos e enormes alfinetes.
O edifício mantinha a linguagem da fábrica; a moda acrescentava-lhe uma nova narrativa.
Na plateia, lotação esgotada – e um público maioritariamente jovem. Muitos estudantes de moda, profissionais do setor e curiosos enchiam o espaço muito antes do primeiro desfile. Até os próprios espectadores pareciam fazer parte do cenário, com coordenados arrojados que quase prolongavam a passerelle. Apesar do calor intenso que se fazia sentir no interior do edifício, ninguém parecia disposto a abandonar o lugar.
É esta ligação entre criatividade, indústria e novas gerações que o Portugal Fashion procura reforçar.
“Queremos que o Portugal Fashion Experience seja lido como aquilo que a moda portuguesa precisa hoje: não apenas uma montra de coleções, mas uma plataforma de futuro. Portugal tem talento, indústria, território, cultura e uma capacidade produtiva extraordinária. O nosso desafio é ligar tudo isto numa narrativa contemporânea, com ambição internacional, capaz de gerar visibilidade, negócio e pensamento”, afirma Mónica Neto, diretora do Portugal Fashion.
A aposta na moda enquanto setor estratégico começa também a refletir-se nas políticas públicas. À margem do evento, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, anunciou que a proposta de revisão do Mecenato Cultural passa a incluir a moda entre as áreas elegíveis para este regime, permitindo ao setor beneficiar de incentivos ao investimento privado.
“A moda tem uma dimensão económica, social, mas também uma dimensão cultural, de formação de talentos e de internacionalização do país. Queremos criar condições para que possa atrair mais investimento privado, nomeadamente através do mecenato cultural“, afirmou Margarida Balseiro Lopes.

A meio da tarde, um dos momentos mais aguardados da programação confirmou essa aposta. Aos 26 anos, André Pinto ouviu o seu nome anunciado como vencedor do Bloom, a plataforma dedicada aos talentos emergentes do Portugal Fashion.
Aluno de Design de Moda no Modatex, no Porto, André Pinto apresentou uma coleção inspirada em Metropolis, o clássico filme de Fritz Lang. Partindo da ideia de um futuro marcado pelas alterações climáticas, imaginou uma sociedade obrigada a refugiar-se no fundo do mar, onde a tecnologia assume o controlo da sobrevivência humana.
“A ideia é começar pelo metálico e, com o passar da coleção, ir perdendo essa desumanização e ficar mais fluido”, explica o vencedor do Bloom.

A evolução das peças acompanha essa transformação. Os primeiros coordenados apresentam uma forte presença de elementos metálicos e estruturas rígidas, evocando a máquina e o robô. À medida que a narrativa avança, os materiais tornam-se mais leves, simbolizando o regresso da humanidade à superfície e à natureza.
Para construir esse universo, André Pinto quis ir além dos tecidos metalizados. “Não queria que fosse apenas um tecido metálico”, explica.
Na coleção que apresentou, criou manualmente uma espécie de malha recorrendo a caricas de latas, fechos metálicos e alfinetes gigantes. Introduziu ainda conchas para reforçar a ligação ao universo subaquático.
“Nunca tinha trabalhado com estes materiais. É muito mais trabalhoso”, admite André Pinto.
Foi essa ousadia que valeu a André Pinto o primeiro prémio. A distinção inclui 2.500 euros para investir na próxima coleção, um estágio remunerado de seis meses na Salsa Jeans, um voucher de dois mil euros para formação na Católica Porto Business School, além de mentoria e assessoria de imprensa.
Para o jovem designer, o reconhecimento representa o concretizar de um sonho antigo. Natural de Pedras Salgadas, uma pequena vila do distrito de Vila Real, conta que desde criança sonhava trabalhar em moda, embora durante muito tempo tenha acreditado que esse objetivo seria difícil de alcançar. Mudou-se para o Porto para estudar e hoje já pensa no passo seguinte: “Gostava de criar uma marca própria.”
A menção honrosa foi atribuída a Rita Santos, finalista da licenciatura em Design de Moda da Escola Superior de Artes e Design (ESAD), que apresentou uma coleção onde cruzou pérolas, tricô e macramé. A distinção inclui uma experiência de três meses na Salsa e um voucher executivo de 500 euros da Católica Porto Business School.
No desfile da ESAD participaram cerca de 30 alunos, cada um com três coordenados, numa apresentação que deu a conhecer o trabalho desenvolvido ao longo do percurso académico.
Para Joana Teodoro, coordenadora da licenciatura em Design de Moda da ESAD, as distinções representam sobretudo uma oportunidade para acelerar carreiras. “Os prémios são apenas uma consequência de um trabalho”, afirma, sublinhando que o estágio constitui “um impulso importante para novas oportunidades”.
Mais importante do que conquistar um prémio, defende, é preparar os jovens criadores para a realidade do mercado. “Hoje em dia um dos maiores desafios é perceber que projeto faz sentido, que projeto é que eles querem construir. Essa mentoria é essencial para tornar os projetos relevantes, exequíveis e financeiramente viáveis”, resume a coordenadora da licenciatura em Design de Moda da ESAD.

Se o prémio atribuído esta quinta-feira a André Pinto representa o primeiro passo de uma carreira na moda, Enzo Peres mostra o que pode acontecer um ano depois de vencer o Bloom. O jovem designer regressou este ano ao Portugal Fashion para apresentar a sua primeira coleção em nome próprio, a E.P. Atel’ye , que ilustra a aposta do evento em acompanhar os jovens criadores para lá da passerelle.
“Este prémio mudou a forma de pensar”, admite Enzo Peres. O designer brasileiro, de 21 anos, reconhece que dificilmente teria conseguido produzir uma coleção sozinho. “Produzir é muito caro. Com a Salsa tenho dentro de portas toda a infraestrutura para fazer uma coleção”. Este ano participou no showroom do Portugal Fashion durante a semana da moda de Paris.
Ainda sem saber qual será o próximo passo quando terminar o estágio, este mês, não esconde as dificuldades de entrar na indústria. “Foi o primeiro ano a sofrer mesmo com a indústria. É complicado”, assegura o jovem designer.
Ao novo vencedor deixa um conselho que resume bem os desafios da profissão. “Tem de decidir se quer fazer roupa ou vender arte. Eu não faço arte, faço produto.”
A coleção, intitulada de Tin Soldier, cruzou referências militares com padrões florais, lantejoulas e materiais inesperados. No final do desfile repetiu-se uma imagem curiosa. Tal como no ano passado, Enzo surgiu descalço depois de emprestar as botas a uma das modelos. “Estou descalço novamente, mas tudo pelo bem do desfile”, brinca o jovem brasileiro.
Para Joana Teodoro, exemplos como o de Enzo demonstram a importância de aproximar escolas, empresas e indústria. Não é por acaso que Enzo recorreu em grande parte a fornecedores portugueses, do norte de Portugal, ou não fosse o têxtil português uma indústria que produz para algumas das maiores marcas de luxo do mundo.
Do Bloom às passerelles internacionais
O encerramento do segundo dia ficou entregue à dupla Marques’Almeida, um dos maiores exemplos de internacionalização da moda portuguesa.
Ao som de Born Slippy, dos Underworld, a antiga fábrica transformou-se numa espécie de rave inspirada nos anos 90. Vestidos de lantejoulas arrastavam-se pelo chão, misturavam-se com parkas militares, calças cargo, t-shirts rasgadas e exuberantes adornos de penas.
“É uma mistura entre uma coisa extremamente glamorosa e também com uma atitude muito grunge“, resume Marta Marques, em declarações ao ECO.
Toda a coleção foi produzida no Norte de Portugal, uma ligação que a marca mantém desde a sua criação.
A dupla de designers também chega aqui com um prémio no currículo que lhes mudou o rumo. Em 2015, conquistaram co Prémio LVMH para Jovens Designers. Marta Marques recorda esse momento como um ponto de viragem para a Marques’Almeida. “Passámos de uma empresa que enviava encomendas da garagem da minha avó para ter equipa de logística, armazém, equipa de vendas e desfiles próprios“, afirma.
Apesar do reconhecimento internacional, considera que Portugal enfrenta agora um novo desafio.
“Toda a gente sabe que Portugal tem fábricas ótimas, com extrema qualidade. Isso está estabelecido. Mas, se ficarmos presos a isso, corremos o risco de ficar estagnados. Portugal precisa de injetar criatividade. É essa criatividade que vai puxar a indústria a inovar-se”, afirma Marta Marques.
Toda a gente sabe que Portugal tem fábricas ótimas, com extrema qualidade. Isso está estabelecido. Mas, se ficarmos presos a isso, corremos o risco de ficar estagnados. Portugal precisa de injetar criatividade. É essa criatividade que vai puxar a indústria a inovar-se.
A mensagem resume também o espírito desta edição do Portugal Fashion. Depois de consolidar a reputação de produtor para algumas das maiores marcas internacionais, o setor procura afirmar cada vez mais os seus próprios criadores, transformando capacidade industrial em valor criativo.
A história da própria dupla ilustra esse percurso. Marta Marques e Paulo Almeida conheceram-se ainda no então Citex, atual Modatex, antes de prosseguirem estudos na Central Saint Martins, em Londres. Hoje, além de liderarem uma marca presente em 50 pontos de venda regressaram ao ensino e lecionam na ESAD, ajudando a formar uma nova geração de designers.
Quando as luzes se apagaram e os últimos modelos abandonaram a passerelle, o antigo complexo industrial Vasco da Gama voltou ao silêncio. Durante um dia, porém, voltou também a cumprir a sua vocação de lugar de produção. Já não de conservas, mas de ideias, talento e oportunidades. Entre estudantes, escolas, empresas e criadores consagrados, o Portugal Fashion mostrou que o futuro da moda portuguesa começa muito antes de chegar às montras: nasce nos bastidores, cresce na indústria e ganha forma na passerelle.
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