No Monte das Flores de Santa Maria há antenas apontadas à Lua

Monitorização marítima e acompanhamento do lançamento de foguetões da ESA são algumas das missões que o Teleporto de Santa Maria tem realizado na ilha açoriana. Agora quer monitorizar missões à Lua.

Não fossem as várias antenas a pintalgar os cerca de 40 mil metros quadrados de área, o Teleporto de Santa Maria quase que se confundia com a paisagem verdejante da ilha açoriana. Situado no Monte das Flores, mesmo ao lado do Teleporto está uma quinta onde não faltam ovelhas e no percurso de menos de cinco quilómetros que o separam do aeroporto não faltaram avistamentos de vacas calmamente a pastar nos campos. O contraste entre tecnologia de ponta e o ambiente campestre — em dia de chuva, o coaxar de rãs ampliava-se no terreno — não podia ser maior. É a partir daqui que é feito o acompanhamento de missões da Agência Europeia Espacial (ESA), como o lançamento de foguetões Ariane a partir da Guiana Francesa, ou vigilância marítima através de satélites para a Agência Europeia de Vigilância Marítima. No futuro, a monitorização de missões cis-lunares poderá também passar por Santa Maria. A antena de 15 metros apontada aos céus já está de prevenção.

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“O Teleporto de Santa Maria nasce em 2006-2007, num primeiro projeto com a ESA, com o objetivo de fazer o rastreamento de lançamentos a partir de Kouru, Guiana Francesa, com esta pequena antena de 5,5 metros”, lembra Miguel Boavida, head of Space & Ground Segments da Thales Portugal, apontando para uma antena mesmo ao lado da estação da ESA, um contentor de apoio, onde no interior não faltam servidores e ecrãs para acompanhar as missões de lançamento dos foguetões Ariane carregados de satélites para o espaço.

No dia da visita, ainda nem tinha o dia amanhecido e já a equipa do Teleporto estava numa azáfama para garantir que todos os sistemas estavam operacionais para que o lançamento de mais de 32 satélites da Amazon Leo, de Jeff Bezos, fosse bem-sucedido.

Equipa da Thales e da ESA a acompanhar o lançamento do foguetão Ariane, com os satélites da Amazon Leo, de Jeff Bezos. DR: Thales

“Santa Maria é uma estação ‘go no go‘. Se tivermos uma avaria, até pode ser no equipamento suplente, não há lançamento na Guiana Francesa. A estação tem que estar verde. Se tivermos um problema, não há lançamento”, explica Vera Carvalho, gestora do Teleporto da Thales Portugal, ao ECO/eRadar, horas antes do lançamento previsto em Kourou.

“Com seis semanas de antecedência começam os testes. Começamos a testar todos os equipamentos suplentes e em ensaios gerais com as outras estações envolvidas no suporte ao lançamento. Uma simulação do que é suposto acontecer”, descreve a a gestora do Teleporto. “Antes do lançamento também temos uma fase dos MRT, os Mission Report Tests, onde se testa se acontecer algo, para onde é que temos que apontar antenas, se perdermos o sinal, o que temos que fazer”, explica a profissional.

Com mais de uma década de ligação ao Teleporto de Santa Maria, pelas mãos de Vera Carvalho já passaram muitas missões, mas há duas em particular que a marcaram. “Uma missão ainda com a Soyuz, em que a estação antes de nós começa a reportar que não tem sinal. Pensei, se eles não têm, nós também não vamos ter. E recebemos pouquíssimo sinal também. Os sistemas diziam ‘Acquisition of Sinal, Lost of Sinal’ constantemente. Ficámos sem perceber se era um problema nosso, o que se estava a passar. Depois do lançamento foi muito intenso recolher todos os logs, fazer o replay de toda a telemetria para perceber o que é que se passava e, efetivamente, o problema era no lançador”, recorda.

“Outra missão que me marcou — depois disso que parei de contar — foi no 13.º suporte ao lançamento da ESA que adiou três vezes. Durante três dias, tivemos que vir sempre, dez horas antes, fazer tudo. E quase dois minutos antes da descolagem, cancelava”, lembra. Já a de dezembro do ano passado, “quando fizemos o primeiro Ariane 6, foi espetacular. O desempenho do Ariane 6 não tem nada a ver com o Ariane 5. Estava a monitorizar os parâmetros do lançador e a pensar ‘isto é um Ferrari, isto é qualquer coisa, é completamente diferente'”, comenta.

DR: Thales

E não vão faltar mais lançamentos com Ariane 6 a serem monitorizados a partir de Santa Maria. A ilha açoriana é a primeira estação terrestre a ‘agarrar’ a telemetria dos foguetões depois do lançamento da estação na Guiana Francesa. Em junho, outubro e novembro acontecem os próximos lançamentos do Ariane 6 que irão envolver a equipa portuguesa.

Engenheira Informática de formação, a ligação ao Espaço surgiu quase por um alinhamento de estrelas. “Não foi eu que escolhi o Espaço, foi o Espaço que me escolheu a mim. Escolhi vir para Santa Maria depois de terminar a minha licenciatura em Engenharia Informática e, nessa altura, as únicas oportunidades de trabalho seriam no aeroporto. Não surgiu a oportunidade e, subitamente, alguém me diz que querem recrutar uma pessoa para o Monte das Flores. Vim à entrevista e cá estou há 14 anos”, conta Vera Carvalho. De resto, dos elementos da equipa no Teleporto a história é muito semelhante: são todos residentes da ilha.

“Quando eu vim para cá só existia a estação da ESA. Fazia a parte de recolha de dados de satélites para a observação da Terra e suporte às missões. E depois fiz todo o acompanhamento de tudo o resto que foi instalado depois. A Estação Galileu em 2014 e todas as outras infraestruturas que vê até hoje”, conta Vera Carvalho.

Muito entretanto foi mudando. O Teleporto começou com a ESA mas hoje já serve “15 clientes diferentes”, adianta Miguel Boavida. “Servimos o mundo todo. Os nossos maiores clientes são europeus, mas nós servimos o mundo todo”, diz, não adiantando os clientes privados para os quais o Teleporto presta serviço. Mas pelos vários metros quadrados de paisagem verdejante não faltam antenas para receber sinais de satélites — muito delas dentro de redomas para as proteger do clima açoriano onde o sal acaba por ter um efeito corrosivo nas estruturas — espalhadas pelo terreno de clientes que escolheram instalar-se em Santa Maria.

 

Os famosos ‘custos da insularidade’ a que o arquipélago está associado pela sua posição geográfica neste caso são uma vantagem. “Santa Maria tem a vantagem de, primeiro, ser a ilha mais a sul, tem uma exposição, basicamente tirando ali o Pico Alto, sem qualquer obstrução”, explica Miguel Boavida, apontando para um monte a sete/oito quilómetros a norte/nordeste do Teleporto.

Tirando esse ponto mais alto da ilha, com 587 metros de altitude, a visibilidade na ilha é quase sem obstáculos ao olhar. E às antenas. “Conseguimos fazer aqui o rastreamento de muita coisa sem obstrução. Está posicionada numa zona ideal para os lançamentos de Kouru”, realça o responsável da Thales.

Primeiro foi a estação da ESA a instalar-se, e a Thales, que assumiu a gestão do espaço, começou a trazer mais clientes para a ilha açoriana. Enquanto caminhamos pela área, Miguel Boavida aponta para várias antenas e edifícios. “Estas duas pequenas antenas são para para um cliente que fazia internet das coisas através de satélites, tinha aqui a sua receção e depois os dados eram colocados na internet diretamente”, diz.

“Esta antena aqui pequenina foi inicialmente usada para fazer também o rastreamento de lançamentos, mas para um operador na Nova Zelândia. Nestes lançamentos a ESA não está envolvida, é um contrato diretamente com a Thales”, precisa.

Old Space e o New Space

No Teleporto convive o chamado “Old Space” — as agências espaciais e entidades institucionais — com o “New Space”, quando empresas privadas começaram a olhar para o Espaço e os lançamentos de satélites, e todo o negócio em torno desta nova fronteira, começou a acelerar. E não faltam planos para ‘atacar’ as duas fontes de negócio.

Os antigos resquícios de uma vedação metálica separam essas duas realidades que convivem lado a lado no Teleporto. Separadas por um caminho em direção ao mar, há duas antenas de um cliente New Space, cujo nome preferem reservar, que fornece serviços de ‘gateway as a service” (aluga espaço de satélite). E mais adiante, quase no limite extremo do Teleporto, um radar que monitoriza os detritos espaciais. “Têm vários destes radares espalhados no mundo. O radar em Santa Maria é o terceiro da rede”, diz Miguel Boavida, mais uma vez mantendo confidencial o nome do cliente.

 

Quase a chegar ao radar, é visível mais uma antena e estação de apoio, no site desde setembro do ano passado. “Fazemos o housing e manutenção”, diz sem mais detalhes sobre esse equipamento.

Mas também na vertente ‘Old Space’ há projetos a serem desenhados. Na estação da ESA, há planos para substituir a atual antena. “Vai ser instalada uma antena nova, com tecnologia nova, aqui nesta zona, com as suas próprias infraestruturas de apoio e suporte, para continuar a dar apoio aos lançamentos, mas para dar apoio também ao futuro das missões espaciais”, refere Miguel Boavida, apontando para uma área perto da atual estação.

Um update que vai servir também para prestar apoio ao projeto Space Rider, o veículo orbital reutilizável, com voo inaugural em 2028 e reentrada ao largo da ilha açoriana, um projeto que envolve a Agência Espacial Portuguesa.

“Em relação ao Space Rider, já foi adjudicada a parte da antena, em que nós, como Teleporto, vamos estar a dar o apoio técnico local para a instalação. Em termos de infraestrutura, ainda não foi lançado um concurso. No entanto, como a infraestrutura vai integrar com o Teleporto operado pela Thales, o nosso objetivo é ficarmos responsáveis pela manutenção e operações da nova infraestrutura, que será utilizada para lançamentos da Ariane, como era a infraestrutura antiga, e terá sinergias com o Space Rider”, explica o head of Space & Ground Segments da Thales Portugal.

Operações para a Agência Europeia de Vigilância Marítima são outras das operações que são feitas no Teleporto. “Fazemos diariamente a recolha de imagens de satélite para a deteção de atividades ilegais. É um serviço prestado desde 2007. Os operadores também locais têm que ser testados e treinados porque nós temos apenas 20 minutos, do momento em que recolhemos a imagem, analisamos e entregamos ao nosso cliente — a Agência Europeia de Segurança Marítima — onde nós temos que dizer o nosso nível de confiança, se há ali um derrame, se é ou não um barco, depende daquilo que está a ser encomendado”, explica Vera Carvalho.

Vista do radar que monitoriza o espaço. DR: Thales.

A meio da manhã chegaram as mais recentes imagens da região do Mar do Norte através da antena de 15 metros (a SMA-2) instalada mesmo em frente à estação onde o operador Hugo Braga, através de um ecrã de computador, está a ampliar a imagem, quadrante a quadrante, para verificar se há sinais de poluição provocada por navios, por exemplo. O sistema sinaliza logo com pontos de luz mais intensos potenciais focos a verificar, mas é o olho humano que, através da sua análise, que confirma se há ou não motivos para alarme.

Desta vez nada a assinalar, apenas a presença na sala da mascote do Teleporto: “Macaquinha” aka “Ariana”. A gata de pelagem branca e preta escolheu o Teleporto para o nascimento da sua ninhada, vinda de um dos campos circundantes, e rapidamente foi adotada pela equipa, tendo direito, inclusive, a cartão de empresa. Foi a nossa ‘gata guarda’ durante a visita, acompanhando-nos ao longo do percurso pelo Teleporto.

Ao lado da estação, estão três antenas que recebem sinais da Constelação Galileo, o sistema global de navegação por satélite da União Europeia (UE) e da ESA, o ‘GPS europeu’, estação inaugurada em 2014. Rodeadas por uma cerca metálica, ai nem sequer é possível fotografar ou entrar. “O nível de requisito de segurança é tão mais elevado do que no resto da estação que nem eu tenho autorização para entrar a partir daquele espaço. É preciso um clearance do Gabinete Nacional de Segurança”, explica Miguel Boavida.

“Aquela ali atrás, que está protegida. Aquela baixinha”, precisa Miguel Boavida. “A antena está dentro e aquilo [a carapaça que a rodeia] é uma proteção para interferências malignas”, detalha.

Da Austrália aos Açores para a observação de missões cis-lunares

À saída, mesmo em frente está a SMA-2: a maior antena do Teleporto. Com quase quatro andares (32-33 metros de altura) e um disco de 15 metros de diâmetro, é difícil de ignorar.

“Em 2016 é identificado junto da ESA e da Fundação de Ciência e Tecnologia (FCT) uma oportunidade de capacitar o Teleporto de Santa Maria com um sistema que pode ser usado no Espaço médio e profundo”, começa por contar Miguel Boavida sobre a imponente antena com que nos deparamos mal entramos no Monte das Flores.

“Esta antena estava localizada na Austrália em Perth e fazia o rastreamento também dos lançadores [de foguetões], mas na Austrália. Em 2016, a ESA, em parceria com a Agência Espacial Australiana, abriram uma nova estação, que neste momento é uma estação focada em deep space, com antenas de 35 metros”, conta.

“A FCT adquiriu esta antena à ESA por um euro. E depois a FCT, em conjunto com a indústria, neste caso a Thales, fizeram o investimento necessário para depois trazer esta antena. Fizemos o desmantelamento na Austrália, colocámos em contentores Thales. Trouxemos para a Terceira nos Açores e aí, numa empresa local, fizemos toda a decapagem, o tratamento da estrutura, para a preparar com tintas e materiais próprios para ao ambiente da ilha, que tem muito sal”, descreve.

 

Já em Santa Maria a equipa dedicou-se à montagem das centenas de peças. “O construtor da antena veio cá em momentos críticos”, conta. “Levou sete ou oito meses para decapar e tratar todas estas peças. Ela parece uma antena [única] mas isto tem centenas de peças, é um autêntico puzzle”, diz. E como qualquer quebra-cabeças, a montagem não foi isenta de dores. Depois de montar já grande parte da antena, deram-se conta que estavam a usar os parafusos errados e tiveram de começar de novo.

A antena foi colocada no cima da estrutura base por uma grua “muito grande” que veio do Continente. “Foi engraçado que quando foi para mandarmos embora quase que afundávamos o barco. Teve que vir outro para vir buscar a grua”, recorda Miguel Boavida.

A alguns metros foram ainda construídas instalações, com coinvestimento de cerca de 1,5 milhões de euros Governo Regional dos Açores. “É um edifício de operações e escritórios para apoio logístico. Tem também um data center para apoio a equipamento na antena. 90% do equipamento está lá em baixo na antena”, aponta.

A antena ficou operacional em 2019. “Este projeto custou-me bastante tempo e lembro-me que quando terminei sentei-me aqui e chorei. Chorei de felicidade porque tinha acabado algo que foi um desafio grande”, lembra.

Foi ainda necessário fazer “o upgrade de todos os sistemas, ainda foram uns milhões, de receção e transmissão da antena, para a preparar para aquilo que é a nossa visão de uso. Está a fazer Earth Observation, a receber dados de satélites em órbita, é o que existe no imediato para trazer negócio, mas foi preparada para fazer missões à lua”, aponta o head of Space & Ground Segments da Thales.

Neste momento, estão em “processo de negociação, com uma rede privada de medium e deep space” para “colocar esta antena a fazer missões de transmissão e receção de dados com a Gateway da Lua”, a base orbital da NASA. Mas esse projeto entrou em modo de pausa pela NASA, com o foco a ser colocado na criação de uma base na superfície da Lua, questionamos.

“Há uma reestruturação do processo, das vontades, digamos, mas a Gateway ainda continua a ser uma vontade. Esses projetos estão sempre a evoluir. O keynote aqui é que seja base lunar, seja em órbita, o nosso objetivo é colocar Portugal e colocar esta antena para dar comunicações para a Lua. Se é em órbita ou se é na Lua, para nós é indiferente”, diz o responsável.

Há alguma data para a conclusão das negociações? “Espero conseguir este ano. Não tenho datas.”

Nos planos, está ainda obter uma qualificação da ESA que permita à antena prestar apoio a missões da Agência. “Vamos ter aqui um evento grande em junho com a ESA que também temos o objetivo de falar sobre essa qualificação para nos permitir dar também apoio à missões ESA”, diz.

Miguel Boavida junto da antena de 15 metros localizada no Teleporto da Thales em Santa Maria. Empresa quer colocar a antena numa rede privada para participar em missões cis-lunares. DR: Thales

Os planos da Thales na área de Espaço e para o Teleporto não se ficam por aqui. Na parte da Observação da Terra, o “objetivo é começar a cobrir uma área muito maior do que a área de Santa Maria e sair da alçada das instituições, passar para uma alçada do privado. Não só de New Space, mas de empresas que possam recorrer a fotografias do espaço, imagens óticas ou até de radar, para monitorizar as suas infraestruturas críticas em zonas remotas onde não é tão fácil de ir”, explica o responsável da área de espaço da empresa.

“Um exemplo é a monitorização offshore de plataformas. Neste momento é feito através de pessoas que vão lá de barco ver como tudo está, e isto pode ser substituído simplesmente por uma imagem de alta resolução tirada por um satélite e, se aparecer alguma coisa estranha na imagem, envia-se às pessoas”, refere.

*O ECO/eRadar viajou a Santa Maria nos Açores a convite da Thales Portugal

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