O caderno cheio de queixas que Seguro traz da Presidência Aberta

No último dia da Presidência Aberta, Seguro voltou a escutar as vozes indignadas da região Centro que esperam, com desânimo, a verba das seguradoras para cobrir os milhares de prejuízos.

“Por amor de Deus, senhor Presidente, que obriguem as seguradoras a fazerem-nos um seguro. Já recebemos a carta da companhia a comunicar que não renova a apólice e ninguém nos ajuda.” O apelo, num tom carregado de desespero, é de Aldina Faustino, dirigido a António José Seguro, enquanto aponta para o pouco que restou do restaurante dos filhos, a céu aberto. A depressão Kristin arrancou estruturas e vigas de madeira, e estilhaçou vidros, deixando um rastro de destruição que o Chefe de Estado pôde constatar em quase todos os restaurantes, durante o percurso que fez pela marginal da praia da Vieira de Leiria (Marinha Grande), após mais de dois meses desde a intempérie. Ao longo do dia, como nos anteriores, a equipa da Presidência vai tomando nota das situações e dos contactos. Não é difícil imaginar que o caderno tenha ficado bem preenchido.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Leiria e Marinha Grande, nas zonas afetadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO

A denúncia repete-se ao longo da frente marítima, quase como um eco entre empresários da restauração: prejuízos elevados, processos com seguradoras por resolver e com dinheiro por receber e, agora, a “impossibilidade de renovarem apólices por estarem numa zona considerada de risco”, como se queixa Aldina Faustino a António José Seguro no último dia de Presidência Aberta, num périplo que realizou pela região Centro para se inteirar no terreno da atual situação.

“Somos dos poucos aqui na praia da Vieira que ainda temos seguro, mas recebemos uma carta da seguradora a dizer que não renova a apólice. Não há uma única companhia do país que nos queira fazer um seguro”, queixa-se Aldina Faustino, questionando: “Há carros com seguros superiores à esplanada do restaurante. Se fazem a um carro, porque não fazem aqui?”. Com a urgência de reerguer o negócio, “os filhos [donos do restaurante “Leme”] até já fizeram um empréstimo ao banco”.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Leiria e Marinha Grande, nas zonas afetadas pela tempestade Kristin. Rui Miguel Pedrosa/ECO

Num setor onde a época balnear dita o volume de faturação anual, o reconstruir o negócio de uma vida transformar-se numa corrida contra o tempo. Ainda assim, há quem, mesmo tendo seguro, veja o problema agravar-se. O desabafo sobe de tom: “É o ganha-pão dos meus filhos, que são sócios. Eu sou cozinheira. Temos empregados, temos prestações da casa para pagar. Não temos ninguém que nos ajude.”

A resposta do Chefe de Estado é imediata: “Tem toda a razão. Não prometo mais nada do que inteirar-me desta situação em concreto e havemos de lhe dar uma resposta”. Aldina agradece, emocionada, os olhos a marejar: “Muito obrigada, senhor Presidente”. O gesto é devolvido com simpatia: “Não tem de agradecer. É o meu dever”. Logo depois um assessor aproxima-se para recolher os dados de contacto, a pedido do Chefe de Estado, um gesto que se repetiu com todos os empresários do setor cujas preocupações escutou após o almoço.

No último dia da Presidência Aberta pela região Centro, a mensagem de António José Seguro foi de alento, mas também de compromisso. Sem avançar com soluções concretas no imediato, o Chefe de Estado assegurou aos empresários que iria acompanhar de perto a situação e procurar respostas junto das entidades competentes, numa altura em que persistem dúvidas sobre apoios e indemnizações. Seguro optou por sublinhar a importância de perceber “o que chegou e o que está em falta”, deixando a garantia de que os casos relatados no terreno não ficarão sem seguimento.

No meio dos destroços, os empresários da restauração mostram a António José Seguro um cenário que pouco mudou, causado pelo chamado comboio das tempestades: estruturas por recuperar, contas a acumular e uma incerteza que já não é exceção, mas que se tornou a regra. A reconstrução do negócio faz-se agora com crédito e com um risco que as seguradoras não querem assumir, denunciam desolados.

Dizem-se abandonados pelo Governo e transmitiram essa desilusão a António José Seguro que os vai escutando durante um percurso feito a pé pela marginal da Vieira de Leiria, com paragem e visita ao interior do pouco que restou dos estabelecimentos comerciais, onde os sinais da tempestade insistem em estar visíveis a olho nu. Estruturas danificadas, equipamentos inutilizados e edifícios ainda por reconstruir desenham um rasto contínuo de destruição ao longo da marginal.

Ricardo Costa é um destes empresários que antecipa precisar de 400 mil euros para erguer o negócio. “Ativei o seguro, mas ainda não recebi”, lamenta, contando: “Tivemos duas semanas e meia com chuvas todos os dias, e os frigoríficos e outras máquinas ficaram completamente danificados”. Enquanto não vê uma solução à vista, Ricardo Costa armazena “os destroços” num contentor, os poucos que sobraram depois da tempestade e dos furtos de que foi alvo. “Roubaram o mobiliário que restou depois da depressão Kristin”, queixa-se, indignado.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Leiria e Marinha Grande, nas zonas afetadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO

O relato de aflição repete-se na voz de Alfredo Rasmugue, dono da marisqueira Lismar. “Está tudo a fundo perdido. O vento levou o telhado. Só ficaram as paredes e voou tudo, tenho a maquinaria toda estragada pela chuva, porque o imóvel ficou a céu aberto depois da tempestade”, lamenta-se ao Chefe de Estado, contabilizando os prejuízos acima dos 300 mil euros.

Já quando tomou a palavra, o Chefe de Estado responde: “Agora é preciso as seguradoras pagarem aquilo que precisa. Espero encontrarmo-nos aqui noutra circunstância; tenho muito gosto em cá vir e ajudar a economia da terra”.

Os relatos de desespero prosseguiram durante toda a caminhada, com moradores a relatarem: “Foi a pior noite da minha vida”. Uns passos mais à frente, o Presidente da República escutava as preocupações de Ângela Pedrosa, proprietária da Fábrica gelados: “Ficou tudo destruído por dentro. É uma vida inteira a trabalhar para perdermos tudo. Alguém que nos ajude, senhor Presidente, e venha ver o que se está a passar aqui na praia da Vieira de Leiria”. Aproveitando a oportunidade de ter ao lado o presidente de câmara da Marinha Grande, Paulo Vicente, o Chefe de Estado aconselhou a empresária a que marque uma reunião. “A minha indignação é com o presidente da câmara; mas vou marcar a reunião na mesma”, retorquiu a comerciante.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Leiria e Marinha Grande, nas zonas afetadas pela tempestade Kristin. Rui Miguel Pedrosa/ECO

Já de manhã Seguro reuniu-se, em Leiria, com empresários afetados pelas intempéries e familiares de vítimas do mau tempo; seis perderam a vida e outras 775 ficaram feridas.

O último dia da Presidência Aberta ficou assim marcado por um muro de lamentações e pedidos de ajuda, à semelhança do que aconteceu durante a semana. Entre mensagens de alento e de promessas de ajuda, Seguro assegurou esta sexta-feira estar “muito atento” ao problema da habitação, já que os salários dos portugueses não chegam para pagar “as rendas que estão pela hora da morte” ou para comprar uma casa.

A constatação foi feita no seguimento das palavras de Ana Comenda, uma das moradoras das seis casas modulares em Pousos, Leiria, cedida pelo município de Leiria, após ter ficado sem teto. Olhos marejados, Ana apelou à necessidade de ser revista a “questão da habitação em Portugal”.

Presidência Aberta 2026: Presidente da República, António José Seguro, em visita a Leiria e Marinha Grande, nas zonas afetadas pela tempestade Kristin.Rui Miguel Pedrosa/ECO

“Sei bem. Aliás, recentemente, na última intervenção que fiz na Assembleia da República, chamei precisamente a atenção para essa situação”, respondeu, por sua vez, o Presidente da República, referindo-se ao seu discurso, a semana passada, na sessão no parlamento para celebrar os 50 anos da Constituição.

Está por cumprir, e tem de ser concretizado, um dos mais nobres princípios constitucionais: o de uma sociedade justa e solidária”, avisou; sublinhando que “todos os meses surgem novos sinais de alerta sobre o acesso à habitação”, setor no qual se estão “a bater recordes históricos nos custos” e com taxas de esforço no arrendamento que “esmagam o orçamento familiar”.

Da população levou na bagagem para Belém um caderno cheio de apontamentos, para que as pessoas com quem se cruzou não sejam esquecidas e abandonadas longe da capital.

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