“O impacto do Portugal Fashion é mais significativo quando proporcionamos oportunidades fora do país”

Lina Santos,

Cerca 475 mil euros levam designers de moda portuguesa pela Europa em 2026. Na próxima etapa, querem "dar mais visibilidade ao ecossistema. Que parceiros estão aqui? Quantas empresas?"

Os designers Inês Amorim e Reid Baker abrem a porta verde do showroom de Ernest W. Baker em Paris, no primeiro andar de um edifício numa das ruas movimentadas do bairro do Marais, ainda mais efervescente em dias de semana da moda, entre uma entrevista e encontros com compradores. Três paredes estão ocupadas com charriots de roupa – um degradé de cinzas, negros, vermelhos, brancos, verdes, um pouco de azul – que chegará em setembro às lojas. São 25 para já, de Itália a Los Angeles, passando pela Coreia do Sul. É sábado e passam pouco mais de 24 horas desde o primeiro desfile da dupla portuguesa, uma das mais bem sucedidas com o selo created in Portugal.

Asiáticos e norte-americanos eram os mais representados no desfile de sexta-feira, a bordo de um barco parado no Sena, com a Torre Eiffel em fundo. Têm sido os mais fiéis seguidores de Ernest W. Baker, desde os inícios em 2017, quando a marca nasceu.

Na passerelle, a pensar no próximo inverno, viu-se muito xadrez, total look, malhas, peles, casacos compridos, bombers, sacos de viagem, malas, rosas vermelhas, que são a assinatura da marca, e cristais, muitos usados nesta coleção, em colaboração com a Swarovski. Desta vez decidiram inspirar-se “no todo da marca”, diz Inês Amorim. “É um best of”. “Fazemos tudo: malhas, peles, sapatos… Desta vez, também fizemos óculos”.

Uma das características do trabalho de Ernest W. Baker é a produção em Portugal e estar mais perto das fábricas foi uma das razões que levou uma estudante portuguesa e um estudante americano que se encontraram em Milão a mudar-se para Viana do Castelo e agora para o Porto.

Nesta coleção, 16 fábricas estiveram envolvidas. A joalharia é desenvolvida em Viana do Castelo e Gondomar. O trabalho têxtil envolve unidades na Trofa, Barcelos, Santo Tirso e Gaia. O calçado é produzido em Felgueiras e São João da Madeira. As luvas são do Sabugo, Sintra. E se bem que a maioria dos tecidos são italianos, também existe produção nacional com o selo Albano Morgado, mostra Reid Baker, no showroom, onde as peças podem ser apreciadas nos mais pequenos detalhes.

A Ernest W. Baker sobressaiu internacionalmente depois de ter sido finalista do prémio LVMH, mas também quando Harry Styles usou um casaco de malha tricotado à mão por uma artífice de Braga ou quando o músico (e diretor criativo de homem da Louis Vuitton) Pharrell Williams e a mulher vestiram os seus fatos na entrega dos Grammy em 2023. Até agora, a marca tinha dispensado apresentar-se no modelo tradicional do desfile. “Foi muito bom e foi muito rápido”, diz Inês Amorim, minutos após a apresentação. “O nosso objetivo é continuar a crescer em todo o mundo. Em lojas, clientes, pessoas mais interessadas na marca, é um todo”.

O desfile de Ernest W. Baker chega ao calendário oficial da semana da moda de Paris impulsionado pelo Portugal Fashion, a plataforma portuguesa de internacionalização do design português, criada no âmbito da ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários e apoiada pelos fundos europeus do Compete. Na cidade francesa está também até esta segunda-feira uma showroom que reúne criações de Behen, Duarte Hajime, David Catalán, Susana Bettencourt, Losiento, Maria Carlos Baptista, Veehana e E.P. Atel Ye.

“Temos a missão específica de converter criatividade em negócio”

Paris tem sido o destino mais consistente do Portugal Fashion nos seus 30 anos de vida. “O nosso impacto está obviamente na notoriedade, na comunicação, no chamar a atenção para o ecossistema português e todas as ações que fazemos, quer no Porto, quer fora, são baseadas nesse objetivo mas nós percebemos que esse impacto é muito mais significativo quando proporcionamos oportunidades fora do país, o nosso mercado é muito pequeno, e na verdade cá fora é muito mais fácil atrair esse buyer, atrair, no fundo, encomendas e começar a criar sinergias, às vezes entre designers e outras marcas. E, de facto, ao longo dos anos, sempre que vamos encontrando os nossos casos de estudo que têm mais sucesso, tem a ver com esta presença”, diz Mónica Neto, diretora do Portugal Fashion, ao ECO.

“A marca do David Catalán, que era um designer emergente quando foi integrado no calendário oficial de Milão, teve um boom de encomendas junto dos compradores por ter esse reconhecimento”, diz Mónica Neto. “O buyer tem uma atenção particular quando percebe que há um selo de uma fashion week e cria-se ali uma estratégia de divulgação do nome que depois tem um cartão-de-visita para a oportunidade de apresentar a coleção aos compradores”.

David Catalán, espanhol sediado no Porto há 15 anos, apresentou-se em Milão há uma semana – em outra ação de internacionalização do Portugal Fashion – e um dos seus fatos de denim com brilho chamou a atenção de um dos convidados do cocktail de apresentação do showroom português no Marais.

As portas do 43 da Rue Tournelles abriram na sexta-feira com um cocktail para receber gente ligada à indústria como Kelly Phoenix, ator e realizador. Além das peças de Catalán, detém-se junto a um blazer acetinado de Maria Carlos Baptista. “Gosto muito de cetim, penso usar numa premiére”, conta Kelly Phoenix, ator e realizador. Ao lado, Suna Moya, editora de moda numa revista virada para o mercado asiático, conta que segue o Portugal Fashion “há seis anos”. “Estamos a ver muitas novas formas e novos materiais”, resume. Está interessada nas peças de Losiento. Mostra uma gabardine verde, com forro vermelho, que pode agradar ao público chinês e um vestido florido que vê na Arábia Saudita.

São as mesmas peças em que se fixam duas produtoras de moda, uma francesa e uma inglesa a viver em Paris, que durante a semana da moda fazem prospeção e passam pelo showroom português. “A curadoria ainda tem espaço para melhorar”, diz. “Algumas marcas são muito fortes, precisam de fazer saltar os olhos”, avalia a britânica. Já tinha estado no primeiro showroom do Portugal Fashion, uma estratégia recente que Mónica Neto pretende prosseguir.

Entre sábado e segunda-feira, o showroom passa para um registo orientado para reuniões com compradores e o Portugal Fashion vira a sua atenção para Copenhaga, mais um momento da estratégia de internacionalização da moda portuguesa, com curadoria de Marques’ Almeida.

"Temos com este projeto uma missão muito específica de converter essa criatividade, essa inovação, em negócio”

Mónica Neto, diretora do Portugal Fashion

ECO

“Nós estamos permanentemente em ligação com os criativos e empreendedores, aos makers e temos com este projeto uma missão muito específica de converter essa criatividade, essa inovação, em negócio, daí esta estratégia que obviamente foi apresentada ao Compete 2030 num fundo que é de apoio à internacionalização”, diz a diretora do Portugal Fashion. “O que nós propusemos para este período de 2023 até fevereiro de 2026 foi um conjunto de iniciativas que vão desde o scouting e apoio dos novos criadores até à mentoria e acompanhamento na área de negócio e depois à internacionalização”.

Um investimento de cerca de 475 mil euros e um Portugal Fashion Experience

Ao todo, o investimento do Portugal Fashion foi de cerca de 475 mil euros nos seis eventos: semana da moda de Milão (homem e mulher), desfile de Ernest W. Baker, em Paris, Marques’ Almeida em Londres e semana da moda de Copenhaga.

“Ao longo dos anos fomos evoluindo, fomos crescendo como evento, ambicionando ser uma Fashion Week, tornando o calendário cada vez mais profissionalizado, mais sólido, e entretanto, com as questões de financiamento, sustentabilidade financeira, as transições de quadros comunitários, houve uma avaliação muito racional sobre o que deve existir se tivermos que depurar o evento e se tivermos que o tornar sustentável financeiramente”, afirma.

“Vamos tornar esse storytelling, que era orgânico, em oficial e vamos fazer do Portugal Fashion a plataforma que traz essa visibilidade”, diz Mónica Neto.

O Portugal Fashion já está a trabalhar num novo projeto para o próximo quadro comunitário. Um dos objetivos, diz Mónica Neto, “deixarmos cair esta ideia de que o Portugal Fashion é um evento, ou um conjunto de eventos, e assumirmos o Portugal Fashion como uma plataforma permanente de apoio, de promoção e, sempre, de negócio e internacionalização”, como, diz, o Portugal Fashion sempre fez. E acrescenta: “Dar mais visibilidade ao ecossistema. Que parceiros estão aqui? Quantas empresas? Vamos visitá-las, vamos tornar esse storytelling, que era orgânico, em oficial e vamos fazer do Portugal Fashion a plataforma que traz essa visibilidade. Nós acreditamos que os designers podem trazer a força do marketing para um país que precisa de se promover mais para além do saber-fazer”.

Este ano, o Portugal Fashion terá mais uma edição Experience. “É um evento mais experiencial, com mais curadoria” e acontece entre 1 e 4 de julho. “Temos muita expectativa de o tornar um evento cada vez mais diferenciado porque ele próprio está a assumir um formato que é diferente do comum na maioria dos casos e dos países”.

(A jornalista viajou a convite do Portugal Fashion)

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