O mestre do estufado, um FCP “nas lonas”, o chapéu de Nini e o “gajo com turbante”. Festival ECO. Pratos para uma barrigada de conversa

Sem "operação especial" russa na Ucrânia e ainda com Gaza de pé, sem Trump na Casa Branca e com o "ouro negro" a fluir por Ormuz, sem IA e com a "geringonça" a arrancar. Assim foi 2016, génese do ECO.

Este texto não foi gerado em IA. Nem o dia de debates a dois entre a água e o azeite no Centro Cultural de Belém, em que se procurou vencer a convenção química e gerar uma mistura dos dois líquidos nos painéis do Festival ECO – alô, Ricardo Araújo Pereira, o jornal ECO realizou o Festival ECO.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

Jornalismo, literatura, música, inteligência artificial, futebol e motociclismo, banca e telecomunicações, a coleção de copos e a gastronomia dos dois António Lobo Xavier, e muito mais, como a Estrela Michelin de Marlene Vieira, chef que só descobriu o brilhantismo da cozinha portuguesa quando esteve em Nova Iorque e autora do (enigmático) prato com aroma a feijoada que não é uma feijoada.

Isto e mais passou pelo Centro Cultural de Belém no Festival ECO, onde entre as muitas novidades, também houve lugar à repetição: Lobo Xavier à conversa com Lobo Xavier. Um, famoso advogado de barba grisalha, outro, um jovem chef com um bigode ainda imune à idade.

Reclamando-se mestre da lampreia e dos estufados, Lobo Xavier, pai, mostra uma capacidade de propalar as capacidades culinárias como poucos o terão ouvido falar sobre a sua profissão, a advocacia. “Nunca ouvi o meu pai dizer que é imbatível a fazer pareceres”, salienta o filho, arrancando uma inescapável gargalhada à assistência. “Eu só disse que sou o melhor em duas ou três coisitas”, desculpou-se o chairman da EDP e “sócio do ano” 2003 do Futebol Clube do Porto (FCP), o clube que André Villas-Boas levou a campeão de futebol no ano deste décimo aniversário do ECO.

“Quem ganha as eleições, manda”, diria mais tarde o sociólogo António Barreto, não sobre futebol, mas a propósito de política, o campo de jogo de Pedro Duarte, companheiro de painel de Villas-Boas. Vencedor à primeira numa corrida autárquica – depois de aproveitar um Conselho de Ministros no Bolhão para anunciar a sua candidatura ao edifício no topo dos Aliados –, o presidente da Câmara do Porto surpreendeu ao mostrar-se convencido (ou talvez fosse apenas bonomia) de ser mais difícil liderar o clube da sua cidade do que a própria cidade.

Habitué na Avenida dos Aliados, primeiro como adepto, depois enquanto treinador e agora no papel de presidente do FCP, quando chegou à liderança do seu clube, há dois anos, Villas-Boas encontrou um saldo bancário de 8.000 euros – além de um “legado único e excecional” no panorama desportivo nacional e internacional, destaca o presidente do clube “mais titulado do futebol” em Portugal e com 133 anos de vida. E se o jornalista achava que seria acutilante ao falar dos “8.000 euros que se dizia que o Porto tinha na conta” quando a nova direção tomou posse, o presidente empossado em 2024 não hesitou em atirar à baliza, com um sorriso irónico: “Que se dizia, não! Foi o que eu constatei. Infelizmente, não é o que se dizia”.

“Tínhamos 15 milhões de euros para pagar até ao final de maio, quando tomei posse, e a situação era alarmante”, resume Villas-Boas ao ECO.

Agora, o número de sócios cresce 20% ao ano. “Algo notável, desde que assumi a presidência”, diz o presidente do FCP, entrando a pés juntos sobre quem geriu o clube anteriormente, ao acusá-lo de ter “desvalorizado a transformação digital do clube”.

De líderes de clubes falou-se também a propósito de um ex-presidente do Sporting Clube de Portugal, mas sobre um episódio de quando liderou a Câmara de Lisboa e abriu a porta a um sonho de Roberta Medina, o Rock in Rio. “Batemos no maluco certo, que é bom ter esse nível de ousadia, que foi o Santana [Lopes]. Nunca um protocolo foi assinado tão rápido. Em um mês o protocolo estava assinado com o local comprometido e outras pessoas dentro da Câmara participando desse processo”.

Nascia assim o primeiro Rock in Rio Lisboa, em 2004, 12 anos antes de o ECO nascer e da edição que trouxe a Portugal Bruce Springsteen, depois de o “Boss” já ali ter estado em 2014, numa atuação surpresa ao lado dos Rolling Stones, aproveitando a presença em Portugal enquanto acompanhava a filha numa prova de equitação, recorda a fundadora do Rock in Rio.

Já em 2022, o pai de “Born in the USA” recusou o convite e preferiu ficar pelas atuações em Espanha a mover a equipa toda para Lisboa. Reagindo com uma (incompreensível) gargalhada à pergunta de como pode o Festival ECO de 2036 (o diretor do ECO, António Costa, promete que haverá uma segunda edição) contar com Springsteen a ocupar o lugar que nesta edição dos 10 anos coube ao maestro Martim Sousa Tavares, Roberta Medina explica que “tem de ter um cheque grande. Hoje, o grande desafio do mercado português é que a gente precisa de valorizar a economia. Quando tem um ticket tão mais baixo do que a Europa paga, mesmo tendo patrocinadores, você não consegue competir”.

“Não temos escala, somos pequeninos, mas somos muito bons”, reivindica a CEO da Capgemini. “Se não formos orgulhosos do que somos ninguém vai ser, se não soubermos vender-nos ninguém nos vai vender”, diz Cristina Rodrigues, mais uma dinamizadora de gargalhadas, ao recordar a reunião a que levou um executivo francês da consultora junto de um cliente nacional, vestida de vermelho, cor da instituição bancária em causa. O escarlate chocou o precursor de paletas de cinzentos, mas o sucesso junto do gestor do banco levou a CapGemini a adotar internacionalmente a prática de uso de uma peça de roupa em pendant com a cor comercial do cliente em todas as reuniões.

 

Aversão ao risco e motos a 350 km/h

Ao longo desta quarta-feira, a bola nunca deixou de saltitar entre painéis. Num dos casos, o tema para quem chegasse de repente ao Centro Cultural de Belém ou à emissão online, em direto, no site do ECO, poderia parecer o percurso dos outros dois “grandes” do futebol português.

“As memórias negativas têm poder maior que as positivas”, pelo que devemos “celebrar todos os pequenos sucessos”, diz Luísa Lopes, neurocientista no Gulbenkian Institute for Molecular Medicine.

E, numa nota que tanto poderia ser dirigida a adeptos de grandes clubes desportivos devido ao receio com a próxima época desportiva, como aos que temem racionamento de combustível – o que João Diogo Marques da Silva, co-CEO da Galp, assegura que não vai ocorrer, tanto na estrada como no aeroporto, ou não fosse o país produtor de 80% do jet fuel consumido – Luísa Lopes alerta que “a falta de sono é das piores coisas que se faz ao cérebro”.

É necessário dormir “sete a oito horas por noite, porque é aí que processamos as memórias, para haver limpeza de resíduos celulares, da atividade cerebral intensa do dia, e é no sono intenso que todos nós restabelecemos os circuitos cerebrais”. As orelhas da líder da Siemens, Sofia Tenreiro, terão ardido, depois de esta ter abordado os tempos em que dormia três ou quatro horas por noite, algo que não preocupa o presidente do BCP. Miguel Maya, que, no painel com Luísa Lopes, assegura que “dorme como um bebé”.

Pouco dado a sestas, Miguel Oliveira, que em conjunto com André Villas-Boas foi o mais procurado do dia para selfies e autógrafos – talvez por pudor, a assistência conteve-se perante o Presidente da República, António José Seguro, apesar de este ser o centro das atenções junto ao piano magistralmente tocado por Martim Sousa Tavares no encerramento do Festival ECO.

O piloto poderia assinar a frase da neurocientista de que “não há melhor forma de treinar o cérebro do que falhar mais vezes e perceber que não é o fim do mundo. Não há resiliência sem falhar. Em Portugal, temos alguma aversão ao risco”.

 

Não o “Falcão” (de apelido e alcunha). Único português a sentar-se nas mais rápidas motos de competição do mundo, habituou-se a pilotar a 350 km/h, levou ao delírio a multidão no Grande Prémio de MotoGP que venceu em Portimão, e hoje diz-se consciente de que “entre a glória e o hospital não há uma grande distância”.

E se o hospital é, genericamente, um equipamento indesejado – algo que não dirá uma grávida que tem o filho à porta, e não dentro dele, como António Barreto recorda que sucede, aludindo a uma incapacidade do Estado –, a escola também o consegue ser, pelo menos para os que, como Pedro Santa Clara, professor e empreendedor, considera que “a escola mata a curiosidade. Desperdicei 19 mil horas sentado na escola, ainda por cima quando era novo e bonito”.

Mais sorte teve António Lobo Xavier, filho, que antes de optar pela cozinha, tentou a cadeira do curso de Direito, “um tiro no pé” que valeu o dichote familiar de que “teve de ser o menino a estragar o legado da família de advogados”.

O turbante do argentino e o chapéu da madeirense

Também a boa comida veio à mesa do Festival ECO. Chakall, argentino de Tigre, Buenos Aires, cruzou-se com Portugal há 40 anos, no Mundial do México, sem fazer ideia de que um dia acabaria aqui a conduzir uma Piaggio Ape 50 com o cão Pulga à pendura num programa televisivo – no qual impôs, como habitualmente, a limitação de duas temporadas, até porque, confessa, “não aguentava mais falar com o cão”.

“Um gajo com turbante é diferente”, mas a sorte acaba “se as pessoas acham que és um palhaço”, alerta Chakall, cuja imagem pública já não dispensa este acessório.

A designer madeirense de interiores Nini Andrade Silva preferiu adornar a cabeça com outro elemento. “Não devemos ter vergonha de nada. Nem de um simples chapéu”, salienta. “Todos se vão lembrar. ‘É aquela que levou chapéu’”, nota a madeirense.

A chave está em arriscar. “Cair com segurança”, como resume Nuno Delgado. Entre os que preconizam o risco está também Sofia Tenreiro, CEO da Siemens: “acho que uma das principais dificuldades que as pessoas têm hoje é não se levantarem depois do erro. No mundo dos gestores, é preciso não ter medo”.

O judoca português medalho olímpico prontificou-se a ajudar a assistência do Festival ECO a saborear a queda: “Há aqui alguém em Portugal que nunca caiu? Ponha o dedo no ar que eu trato disso”. Sem surpresa, mas lamentavelmente para a equipa de fotografia do Festival ECO, ninguém se ofereceu para colaborar com o medalhado olímpico.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O mestre do estufado, um FCP “nas lonas”, o chapéu de Nini e o “gajo com turbante”. Festival ECO. Pratos para uma barrigada de conversa

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião