Stuart Gelbard, antigo tripulante do USS Intrepid, recorda-se dos tempos passados na Baixa Pombalina, no Elevador de Santa Justa, e a ver as ondas gigantes da Nazaré em 1971.
“Partimos em abril de 1971. A nossa primeira paragem foi em Lisboa. Houve uma mudança de comandantes e a cerimónia de troca nessa altura. Desde então, nunca mais voltei a Portugal.” É com palavras saudosas que o septuagenário Stuart Gelbard, tripulante do porta‑aviões USS Intrepid da Marinha norte-americana, conta ao ECO/eRadar porque é que este navio de guerra atracou na capital portuguesa no início dos anos 70.
Em tempos, o navio de guerra com cerca de 250 metros cruzava o Atlântico, reforçando a presença da Marinha norte-americana neste oceano e no mar Mediterrânico. Hoje, encontramos o USS Intrepid ancorado no cais 86, em Manhattan. É um museu vivo de uma época: a Guerra Fria.
Passagem por Portugal
Stuart Gelbard recorda-se bem de uma vinda a Portugal e dos tempos passados na Baixa Pombalina, mais precisamente no Elevador de Santa Justa, onde passeou e tirou várias fotografias (pergunta-nos se ainda está de pé).
De passagem esteve também pela serra de Sintra e pela Nazaré, que identificou com um sotaque de difícil perceção, embora as fotografias que ainda guarda não deixassem dúvidas. “Lembro-me de ter visitado diferentes cidades em Portugal. Uma vez fui até uma montanha e depois fui a uma zona de praia. Vi ondas enormes e gente a ser arrastada pela areia”, conta Stuart Gelbard, antigo mecânico naval do Intrepid.

No arquivo da missão da Marinha norte-americana, uma espécie de ata da viagem feita pela tripulação, é relatada a presença em Lisboa e como a mudança de comandantes na capital portuguesa trouxe um ‘calor humano’ diferente. Como se o sol português tivesse consolado o grupo até Rhode Island.
“A partir desse dia, 30 de abril, até ao fim da viagem e ao nevoeiro da Baía de Narragansett, o capitão Williams demonstrou uma liderança e um contacto pessoal com os homens que poucos tinham presenciado antes. Isto, aliado às suas decisões oportunas em relação às operações do navio, fez desta viagem uma das mais bem-sucedidas da história da Marinha”, lê-se no Cruise Book 1970-1971.

Durante três anos, até 1972, Stuart Gelbard foi o responsável por manter e reparar a maquinaria de propulsão e os sistemas auxiliares de bordo. Hoje, é um dos rostos que representa a memória viva dos membros da Forças Armadas que partiram dos Estados Unidos, passaram por Portugal, Dinamarca, França, Alemanha, Itália e regressaram ao ponto de partida.
“Enfrentámos marés agitadas. Desembarquei em 1972 e pensei que nunca mais veria este navio, mas, como sou de Nova Iorque, o navio acabou por me perseguir e voltei. Voluntariei-me para estar aqui, porque gosto da interação com as pessoas e sinto-me bem a retribuir”, diz o presidente emérito da associação de antigos tripulantes do USS Intrepid, sentado na sala de comando do navio atracado no cais 86 de Manhattan.
Transporte de aviões e armas
É lá que se localiza o Museu Intrepid, um dos poucos em Nova Iorque onde é no exterior que estão as principais “obras” — e o único a partir do qual é possível entrar num submarino também ancorado nesse cais do rio Hudson. Mais do que um navio capaz de levar aeronaves, o Intrepid era um depósito de armas flutuante e transportava armamento para aviões militares para as suas missões de defesa.
As armas eram armazenadas em compartimentos blindados, os paióis, localizados nas profundezas do navio, e existiam elevadores de bombas (possíveis de ver na exposição) que permitiam à tripulação mover o armamento em segurança entre os conveses. Para tal, existiam regras e tripulantes considerados especiais, os red shirts (“camisas vermelhas” pelo cor encarnada do uniforme), os artilheiros da aviação encarregues de operar as bombas convencionais, os mísseis e os foguetões a bordo.
Qual a importância destes elevadores? Uma bomba que caísse do convés de aviões para um paiol de munições causaria uma explosão catastrófica, portanto estes equipamentos funcionam através de duas secções separadas. Os do estágio inferior iam dos paióis até ao terceiro convés e, a partir daí, os marinheiros transferiam as armas para elevadores superiores, que subiam até ao convés de voo.
Dada a vertente histórica do museu e a temática em torno da defesa, é constante ler-se e ouvir-se a palavra “bomba” neste espaço, porém, este é mais do que um local de culto às Forças Armadas. É também uma extensa exposição de aeronaves de renome que atrai miúdos e graúdos apaixonados pela aviação. É possível ver de perto um exemplar do avião favorito de Elon Musk, o Lockheed A-12 Archangel.

Trata-se de uma aeronave ultrassecreta de reconhecimento da CIA, da qual o dono da Tesla era tão fã que utilizou “A-12” no nome do filho.
“Sem armas, sem defesas, apenas velocidade. Ótimo em batalha, mas não violento”, justificou a cantora Grimes, então mulher de Elon Musk, num tweet publicado em maio de 2020 aquando do nascimento do filho X Æ A-12 (entretanto alterado para X Æ A-Xii por obrigação legal da Califórnia). Junto a este cais nova-iorquino está também o Concorde da British Airways, o avião comercial supersónico produzido de 1965 a 1978.

Submarino como tríade da defesa
Navio, avião e submarino. Este trio andava lado a lado durante a Guerra Fria, portanto a lista de artefactos só fica completa com uma visita ao USS Growler, um dos primeiros submarinos nucleares de mísseis dos Estados Unidos. Na galeria abaixo mostramos-lhes como é o interior deste submarino, construído após a Segunda Guerra Mundial, quando o mundo se encontrava em alerta máximo com as superpotências (Estados Unidos e União Soviética) em estado de permanente tensão.
O submarino era diesel-elétrico e permanecia sempre submerso. Os membros da tripulação, pelo secretismo da missão, nunca saiam, não podiam falar com a família ou entes queridos e nunca viam o sol. No entanto, ouviam as notícias — como a da morte do presidente Kennedy — através da antena de rádio que ligava o Growler ao mundo por um fio flutuante.
Entre 1960 e 1964, o submarino USS Growler (SSG-577) manteve-se escondido nas águas gélidas da costa da Rússia, com uma tripulação de 90 homens (voluntários) a aguardar sinal para disparar os mísseis com ogivas nucleares (Regulus), mas não houve disparos. A patrulha durou apenas cinco anos, porque os rápidos avanços tecnológicos tornaram, tanto os submarinos Growler como os mísseis Regulus, obsoletos. Um desafio de constante modernidade que a defesa continua a enfrentar nos dias de hoje.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})
O porta-aviões americano que atracou em Lisboa em plena Guerra Fria e se tornou num museu vivo
{{ noCommentsLabel }}