A sueca Saab está na corrida à substituição dos F-16 da Força Aérea Portuguesa e para isso acena com a integração de empresas portuguesas na cadeia de fornecimento ou na montagem do caça Gripen.
Na pista do pequeno aeroporto de Linköping, na Suécia, o som constante e forte do motor do caça Gripen é difícil de ignorar. Ao lado, um tripulante de terra, com colete fluorescente e headphones protetores, aguarda pacientemente. Perto do hangar B, outra tripulação de terra posiciona-se junto de um posto de abastecimento de combustível esperando a chegada de um Gripen E, o mais recente modelo dos caças da Saab. Mas houve que fazer um compasso de espera para libertar a pista do aeroporto para a aterragem de um avião de emergência médica.
O nome Gripen surgiu em 1982, quando a revista FlygvapenNytt, da Força Aérea sueca, lançou um concurso para nomear o novo caça da Saab. Uma hospedeira de bordo chamada Helena Sillen sugeriu “Gripen”, tirando inspiração do nome inglês para grifo (griffin). A ideia era que o novo avião representasse a conjugação das forças de um leão e de uma águia, reinando no ar e em terra. O nome também fazia ligação aos dois anteriores caças usados pela Força Aérea: Draken e Viggen. E assim nasceu o Gripen, em 2026 já na sua versão E e o caça que a Saab quer vender a Portugal.
Na pista, os olhos estão colocados no céu. Aguarda-se a qualquer instante a chegada do caça sueco e quando finalmente acontece, dificilmente, passa despercebida. Não só se ouve o rugir do motor como se sente. A onda de som é de tal ordem impactante que se sente uma vibração no corpo, enquanto seguimos o percurso do caça que passa veloz e sobe vertiginosamente rumo às nuvens que, naquele dia de sol, pintalgavam o céu. Naqueles dez minutos no ar, não faltaram piruetas, subidas e descidas, curvas à direita, à esquerda, enquanto o piloto desenhava curvas e contracurvas no céu, qual acrobata aéreo.
Depois foi hora de descer à terra. Uma equipa aguardava o caça ‘camuflado’ em tons de cinzento que, calmamente, rolou para a zona de reabastecimento de combustível. Mas não só. Vai ainda ser montado um míssil por baixo de uma das asas do Gripen. Com 190 quilos, isso só é possível através de uma espécie de sistema de roldanas que eleva de um carrinho de transporte o armamento para ser fixado. Para efeitos da demonstração, montaram apenas um, mas um Gripen pode levar um total de até nove mísseis.
Ao todo, terão sido cerca de 30 minutos para conhecer no ar e em terra as capacidades do caça que a sueca Saab quer vender a Portugal para substituir a frota de F-16 em fim de vida. Ainda com o tema dos 5,8 mil milhões de euros do empréstimo europeu SAFE em mãos — os contratos com as empresas que vão fornecer as fragatas, artilharia de campanha, satélites, veículos médios de combate, em viaturas táticas, munições, sistemas antiaéreos ou drones só deverão ser fechados em maio, segundo o ministro da Defesa, Nuno Melo, referiu no Parlamento —, o processo de substituição dos caças da Força Aérea Portuguesa ainda não abriu, o que não impede que várias empresas já se estejam a posicionar. Trata-se de um negócio que, dependendo da opção de caça e número de aviões, poderá atingir um valor na ordem dos cinco mil milhões de euros, a serem pagos ao longo de 20 anos.
Pelo menos, era esse valor apontado em 2024 pelo então chefe do Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA), Cartaxo Alves, à CNN Portugal, pela compra de 27 caças F-35, da Lockheed Martin. A empresa americana é, aliás, juntamente com o consórcio Eurofigher, os concorrentes que a sueca Saab terá de bater para juntar a bandeira portuguesa às que são exibidas no hangar de assemblagem final do Gripen em Linköping. Além da Força Aérea Sueca, os Gripen já são fazem parte das forças áreas da Hungria, África do Sul, Tailândia, Brasil e, desde o ano passado, Colômbia.
A ‘air show’ serviu, aliás, para demonstrar as capacidades do caça que, no entender da Saab são mais-valias, na hora de escolher: o Gripen pode aterrar numa estrada com uma reta de 800 metros, dando às forças militares maior flexibilidade caso haja algum ataque a uma base aérea, e pode ser reabastecido, rearmado e levantar voo — apenas com uma equipa de quatro pessoas — em 10 minutos. Uma mudança de motor pode ser feita em uma hora, referem.
“Para dominar o ar, temos de ganhar em terra”, atira Johan Segertoft, head da unidade de negócio Gripen. O caça garante uma disponibilidade operacional de 80% a 90% da frota, “o dobro” da operacionalidade de outros aviões, permitindo que as aeronaves permaneçam no ar mais tempo, para executar missões como controlo de espaço aéreo ou vigilância marítima, um fator relevante para um país como Portugal que, à semelhança da Suécia, tem uma longa fronteira marítima para vigiar, destacam.
“O Gripen é um bom caça para Portugal”, assegura Daniel Boestad. “Podendo os pilotos voar mais, Portugal seria mais relevante nas operações”, argumenta o vice-presidente da unidade de negócio dos caças Gripen da Saab.
Mas a mensagem da companhia sueca é igualmente em torno dos custos. “O custo de aquisição é importante, mas não é tudo”, diz Daniel Boestad, garantindo que a manutenção de um Gripen é “um terço do custo de operação da concorrência”, embora sem adiantar valores concretos. “O Gripen foi desenhado para ser eficaz em termos de custos”, sintetiza.
Johan Segertoft reforça a mesma ideia. O Gripen é “uma solução económica e robusta, que aposta no poder do software” — o moto da companhia é “programar de manhã para voar à tarde”, através de uma metodologia que permite fazer atualizações, sem mexer na navegação aérea —, tendo a Saab apostado no desenvolvimento de soluções de guerra eletrónica e não em tecnologia stealth como é o caso dos F-35, caças de 5.ª geração ‘invisíveis’ aos radares.

Johan Segertoft desvaloriza classificações como ‘caça 5.ª geração’ (onde se posicionam os concorrentes F-35). Chama-lhe “marketing” da indústria. “Estamos a criar a ilusão da ‘next big thing‘”, considera o head da unidade de negócio Gripen. Com ou sem marketing, Segertoft não desvaloriza os caças F-35. “Não é um avião mau, mas foca-se noutro tipo de missões”, como de ataque em profundidade em território inimigo, enquanto o Gripen está mais focado em vigilância e defesa aérea.
“Made with Sweden”
Praticamente ao lado da pista do aeroporto, está a unidade de assemblagem final do Gripen. No pavilhão, pelo menos, três caças estão em fase final de montagem. Num deles, vários trabalhadores da Saab empunham ferramentas enquanto finalizam a montagem da aeronave coberta por uma película amarela. Pouco conseguimos ver do que estão a fazer, pois não só estamos a alguma distância, como não podemos circular no hangar, por questões de segurança. A mesma que impede que sejam tiradas fotografias do espaço ou que se levem smartphones durante a visita.
Mas é também aqui na área de produção que a Saab está a jogar as suas cartas. Abrindo portas a que não só empresas nacionais possam participar na cadeia de fornecimento, em termos de peças ou componentes, como, eventualmente, na própria pré-assemblagem dos Gripen, ou seja, a produção de parte da fuselagem.
“Portugal já está a participar na construção do Gripen” através do fornecimento de componentes, adianta Daniel Boestad, vice-presidente da unidade de negócio dos caças Gripen da Saab, mas também ao nível de tecnologia.
Com a Critical Software estão a trabalhar num simulador powered by IA para treinar os pilotos do Gripen. “A Critical Software é uma love story entre os engenheiros” da Gripen, afirmou Daniel Boestad, admitindo que a colaboração com a tecnológica nacional poderá ser estendida a outros projetos na área de software.
Mas não é a única a entrar na cadeia. O Thyssenkrupp em Portugal, a Vangest — grupo da Marinha Grande que atua em soluções de plástico para vários setores, incluindo o aeroespacial — e a Kristaltek — fornecedor de serviços de mecânica de precisão, metalomecânica, metalurgia — são as três outras empresas com as quais a Saab já está a trabalhar para o Gripen ou prestes a fechar contrato. E, diz Daniel Boestad, a Saab não quer ficar por aqui.
“Estamos sempre à procura de bons parceiros e novos parceiros. Já disse isto, mas digo novamente, penso que Portugal tem uma excelente indústria de defesa. Pode não ser a maior indústria de defesa do mundo, mas a que existe é realmente muito boa. Neste momento temos um MoU com a Critical Software, com a OGMA e com a AED [Cluster] e iremos continuar a explorar essas parcerias e continuar a olhar para outros parceiros. Já hoje temos empresas em Portugal a fazer parte da cadeia de fornecimento dos caças Gripen. Já existem partes ou materiais do Gripen a vir de Portugal”, detalhou ao ECO/eRadar.
Com a OGMA a empresa sueca vê um “grande potencial” para um parceria. “Acho que [a OGMA] é uma combinação muito interessante para nós. Eles são realmente capazes. Obviamente, também fazem parte da Embraer, um dos nossos outros parceiros. Por isso, em muitos aspetos é uma boa combinação para nós. Vimos um crescente interesse pelo Gripen no mundo e na Europa e vamos continuar a aumentar as nossas capacidades de produção. E, nesse campo, a OGMA encaixa perfeitamente. Têm um grande potencial. Por isso, vamos insistir nesse tema e manter essa relação”, disse.
Nada está ainda fechado, mas a produção de parte da fuselagem ou, eventualmente, a montagem final poderão estar em cima da mesa. “Temos que sempre fazer isso por etapas. Quero dizer, a sub-assemblagem é uma parte muito grande, complexa e avançada que está a ser discutida. Como em qualquer cooperação, precisamos de começar por algum lado. Estamos a fazer isto em parceria, portanto, a parceria precisa desenvolver-se”, diz apenas o vice-presidente da unidade de negócio dos caças Gripen da Saab.
O que a avançar não seria um modelo único na história da Saab com os Gripen, como indica o programa fechado com o Brasil. Depois da compra de 36 Gripen em 2014, ficou acordado que parte das aeronaves será produzida no país. Em março, o primeiro dos 15 made in Brasil saiu da linha de produção de Gavião Peixoto (SP) da Embraer, empresa responsável pela montagem final da aeronave e que controla 65% da OGMA. O programa levou cerca de 350 engenheiros brasileiros à Suécia e impulsionou a criação de mais de 12 mil empregos — dois mil diretos e dez mil indiretos —, segundo dados partilhados pelo Ministério da Defesa brasileiro.
Um modelo de trabalho que leva Johan Segertoft a frisar que os Gripen “não são feitos pela Suécia, mas sim com a Suécia”.

Com o atual momento geopolítico, na Europa a mensagem tem sido investir no reforço das capacidades de defesa e, de preferência, com a compra de equipamento produzido no continente. Mas quando questionado sobre se considera que esse fator possa jogar a favor da Saab, Daniel Boestad diz apenas: “Gostaríamos de ajudar a construir uma indústria de defesa europeia forte e uma defesa europeia robusta. Isso é algo que continuaremos a trabalhar. Isso é muito, muito importante.”
Mas não é só Gripen que a Saab quer vender a Portugal. Globalmente com mais de 28 mil trabalhadores, a empresa sueca, além de caças, produz sistemas marítimos, sistemas de comando e controlo (o Saab 340, o avião radar), sistemas avançados de armas — como armas anti-tanque, também enviadas para a Ucrânia ou o Barracuda Soldier System (camuflagem que esconde as ondas térmicas e impede a deteção de soldados por drones) — ou sensores que permitem a deteção de drones e objetos que se movem a elevada velocidade, está apostada em vender mísseis à Marinha.
“A Saab também está a oferecer os [mísseis] RBS15 à Marinha Portuguesa para a sua instalação nas fragatas classe Vasco da Gama e também nas futuras fragatas”, que Portugal vai adquirir através do programa SAFE, revelou John Belanger, director bussiness management Saab Dynamics, missile systems.
Produzido em colaboração com a alemã Diehl Defence, este sistema de mísseis, que também pode ser instalada nos caças Gripen, é uma multiplataforma, com capacidades de ser lançado a partir do ar, terra e mar; com uma ogiva de 200 quilos, tem um alcance de mais de 300 quilómetros, sendo capaz de operar em quaisquer condições meteorológicas.
Belanger descreve o RBS15 como um “míssil inteligente”, já que manobra e desvia-se dos obstáculos que surgem no seu percurso até atingir o seu alvo. Este sistema de mísseis, diz, está a ser “operado por vários países NATO”. Suécia, Alemanha, Croácia, Bulgária e Tailândia são já clientes.
“A maioria dos componentes são fornecidos pela Europa e a sua montagem é feita na Europa”, reforça.
*O ECO/eRadar viajou à Suécia a convite da Saab
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Por dentro do grifo que a Saab quer vender à Força Aérea portuguesa
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