Sapatos portugueses ‘trepam’ montanha olímpica das exportações em Itália

Da ex-diretora da Danone em estreia no calçado ao regresso das botas com cheiro a limão, com o preço médio a derrapar “sem dramas”, empresários entram na feira com Milão de saída dos Jogos de inverno.

Numa cidade à pinha e em ebulição com os Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026, que terminam este domingo, a indústria portuguesa do calçado está por estes dias de volta a Itália para tentar igualmente ‘tocar o ouro’ das exportações depois de anos “muito difíceis”, em que os empresários nacionais treinaram mais a resistência do que velocidade. Entre novas marcas a qualificar-se para a prova feminina, há consagradas a pegar na trela do cão e até a ‘mudar de sexo’ para se manterem no Olimpo da maior feira de calçado do mundo.

Joana Trigueiros está pela primeira vez na MICAM. Formada em Economia na Universidade Nova de Lisboa, há seis anos era diretora de marketing da Danone, depois de passagens no início da carreira pela Unilever e pela KPMG, quando viu na dificuldade por que passava uma marca de sapatos de que era cliente a oportunidade de mudar de carreira. Abriu o Instagram, enviou uma mensagem à fundadora Rita Correia Mendes e pagou 35 mil euros para se tornar proprietária da Maray.

Atualmente com 44 anos, a empresária conta que passou muitas horas da infância e juventude na Sapataria Trigueiros, o negócio da família em Torres Vedras e que acabou herdado pela mãe e pela tia. Na Maray, onde tem como sócia minoritária (10%) a amiga Sara Vicente Barreto, experiente na área de fusões e aquisições, tem uma equipa de cinco pessoas a tratar dos desenhos e da seleção das peles para os sapatos que são depois produzidos em duas fábricas de São João da Madeira.

Não quero que a faturação cresça acima dos 3,5 milhões de euros. Acredito em marcas de nicho e já trabalhei muitos anos em multinacionais. Se fosse para não ter vida, teria ficado onde estava.

Joana Trigueiros

Proprietária da Maray

Em 2025 saíram dessas duas linhas de produção um total de 35 mil pares, que vendeu nas duas lojas próprias em Lisboa (Alvalade e Campo de Ourique) – a terceira deve abrir em Cascais, onde a marca tem origem –, em espaços multimarca situados em Torres Vedras, Coimbra e Porto, e também online. Este ano quer “abrir as portas ao mundo”, visando mercados como Itália, França, Alemanha e Polónia, que sente “ávidos de novidades” e que podem pagar, em média, 150 a 200 euros por par.

Com este “calçado para mulheres dinâmicas que não precisam de comprometer o conforto para se sentirem elegantes”, como resume a dona da Maray, faturou 500 mil euros em 2025. A meta está nos 3,5 milhões de euros, com a exportação a valer 70%, e é fixada a cinco anos. “Não quero que cresça mais do que isso. Acredito em marcas de nicho e já trabalhei muitos anos em multinacionais. Se fosse para não ter vida, teria ficado onde estava”, diz Joana Trigueiros, que trouxe para Milão os 12 modelos e as 40 variedades da próxima coleção outono-inverno.

Joana Trigueiros, proprietária da Maray

Quem não quis ficar onde estava há quatro décadas foi a PC Footwear, que emprega atualmente 50 pessoas em Cucujães, no concelho de Oliveira de Azeméis. Inspirado no nome da mulher, Alberto Ribeiro criou a marca Helena Mar em 2017, mas só no ano passado é que “começou a dar os primeiros passos a sério”, incluindo participar em feiras. Há um ano esteve na MICAM para se apresentar ao mercado; está agora de volta para encontrar cadeias de lojas para comercializar os 90 modelos da coleção de sapatos e botas de senhora, a que juntou duas carteiras que também fabrica dentro de portas.

No ano passado saíram 4.000 pares desta marca própria das linhas de produção da empresa nortenha, especializada no formato de subcontratação (private label). Valeram cerca de 30% da faturação global e quase só vendeu em Portugal. Sobretudo em duas lojas em Lisboa e no Porto, mas também online, com algumas primeiras encomendas provenientes de França, Itália ou Países Baixos. Júlia Nunes está por estes dias a ‘namorar’ um cliente japonês, que poderá ser o primeiro nesta fase de expansão internacional, embora reconheça que “as feiras mudaram depois da pandemia e [os clientes] deixam para mais tarde as encomendas”.

Júlia Nunes, brand manager da Helena Mar

Recrutada há pouco mais de um ano à Tiffosi, a agora brand manager da Helena Mar sublinha que o dono da PC Footwear “vê tudo de fio a pavio nos modelos” e que esse background industrial é uma mais-valia para a marca, notando que “os bicos são o mais difícil de fazer”. O plano criativo está a cargo de uma designer interna e de outra que trabalha para a Ralph Lauren nos EUA, apontando a um PVP de 270 euros nos sapatos e de 500 euros nas botas. Diz que “o objetivo não é vender muito nem para todos, mas para os clientes certos” e “estar em lojas em que o [seu] produto seja o mais barato”.

Consagrados ‘pisam’ o retalho e dão a volta ao género

A delegação portuguesa naquela que é a feira de referência do calçado a nível mundial é composta por 39 empresas. Mais uma vez, os empresários de um setor que no ano passado produziu 80 milhões de pares de sapatos e contribuiu com 854 milhões de euros para a balança comercial portuguesa, voltaram a fazer as malas com demora na liquidação dos apoios à promoção internacional, como o ECO noticiou este domingo. Embora esta manhã tenham surgido promessas de que o “fluxo de incentivos” possa ser retomado nas próximas semanas.

Para o biénio 2026–2027, o investimento em promoção internacional vai superar os 20 milhões de euros e envolver mais de 120 empresas, segundo a associação patronal do setor (APICCAPS), que lidera e submete os projetos conjuntos de internacionalização neste setor que fechou 2025 com um ligeiro crescimento (0,8%) nas vendas ao exterior, num total de 1.718 milhões de euros. Alemanha, Colômbia Dinamarca, Espanha, EUA, França, Itália e Reino Unido são os oito mercados estratégicos, tendo nos primeiros dois meses deste ano sido já concretizadas 11 ações em mercados internacionais.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Foi precisamente aqui na MICAM que a Lemon Jelly se mostrou ao mundo em 2013. Então com a troika em Portugal, foi nesse ano em que a gigante gaiense de componentes Procalçado decidiu criar uma marca própria de moda para juntar à Wock do segmento profissional, que calça trabalhadores da saúde ou da restauração. Conhecida por incorporar cheiro a limão nos seus artigos, a marca manteve no ano passado o contributo de 4 milhões de euros para o grupo liderado por José Pinto. Já foi muito maior e em 2026 vai “tentar manter” este indicador.

“Antevê-se que este ainda não vai ser o ano da retoma porque temos o mundo em suspenso. A instabilidade geopolítica traz retração no consumo e a moda é a primeira coisa em que se sente [o corte nos gastos]”, desabafa Catarina Véstia. A exportação pesa 90% no total das vendas, sendo França e Alemanha os principais mercados, seguidos por Canadá, EUA, Japão e Coreia do Sul. Porém, a grande novidade dos últimos meses até surgiu no mercado doméstico, com a abertura de uma primeira loja própria no outlet de Vila do Conde, que cresceu com 30 milhões e já tem planos para uma nova ampliação.

A primeira loja própria da Lemon Jelly abriu em novembro de 2025 no Vila do Conde Porto Fashion Outlet

A diretora de desenvolvimento de negócios frisa que a Lemon Jelly é “muito sensorial” e que “o [canal] online é ótimo, mas não permite tocar e cheirar o produto”. E planeia continuar a “levar o mundo amarelo para Portugal” com novos espaços próprios de venda (além dos multimarca) que, reconhece, exigem “investimento avultado e fôlego financeiro”. Por outro lado, no próximo inverno conta ter lojas temporárias (pop-up) na Bélgica e na Áustria, e repetir os corners nos armazéns El Corte Inglés de Lisboa e de Vila Nova de Gaia.

Embora também tenha no portefólio sandálias leves, chinelos para a piscina ou malas de praia, a Lemon Jelly é uma marca mais associada ao inverno. Para somar alguns euros à faturação no atual ambiente de desgaste comercial, criou um kit completo para ir passear o cão: inclui uma capa para o animal, uma peça para aquecer as pernas e que se coloca em cima das botas, ajustável a todos os modelos da marca, uma gabardina e um chapéu. Por outro lado, para o verão de 2027 está a preparar o lançamento de modelos unissexo para chegar aos consumidores masculinos.

Antevê-se que este ainda não vai ser o ano da retoma porque temos o mundo em suspenso. A instabilidade geopolítica traz retração no consumo e a moda é a primeira coisa em que se sente [o corte nos gastos].

Catarina Véstia

Diretora de desenvolvimento de negócios da Lemon Jelly

No mesmo sentido estratégico, embora contrário em termos de género, a ovarense Fábrica de Calçado da Mata prepara-se, ao fim de 35 anos, para ter pela primeira vez uma primeira coleção consistente de senhora, uma vez que as experiências passadas foram para clientes específicos. Rui Oliveira trouxe na mala para Itália um total de 120 amostras de calçado feminino “pela dificuldade que [está] a ter em penetrar nos mercados tradicionais de homem”. “É a famosa crise com a diminuição das vendas e que é transversal aos 16 mercados em que estamos”, completa o CEO.

No ano passado, a empresa que produz 500 pares de sapatos por dia até conseguiu recuperar parte das perdas que tinha tido em 2024 depois de um 2023 que tinha sido o melhor ano de sempre e em que chegou aos 7 milhões de euros de faturação. Em dezembro fechou as contas anuais com apenas 5 milhões na folha de Excel e 70 funcionários ao serviço, menos 25 do que dois anos antes. “O feminino surge como resposta à queda no masculino e para tentar voltar ao nível anterior”, atesta. Está a ser bem recebida e até já recebeu uma primeira encomenda da Alemanha.

Rui Oliveira, CEO da Fábrica de Calçado da Mata

Embora tenha duas marcas próprias (Men Devotion e Woman Devotion), elas não pesam mais de 5% nas receitas. Para o porta-voz da Fábrica de Calçado da Mata, que tem Armando Costa como sócio (50%), a aposta continuará na exportação – absorve 99% da produção, com as vendas mais relevantes em França, Alemanha, Países Baixos, Reino Unido, Austrália e EUA – e também no private label: “Somos conhecidos por sermos muito bom produtores”, alega o empresário nortenho.

Conhecido pelo estilo casual no calçado, até terça-feira Rui Oliveira estará no stand da MICAM a mostrar três inovações que estavam dispersas para vários clientes e que agora agrupa nesta coleção: acabamentos manuais personalizados, com processos mais artesanais; uma dupla camada de espuma (na palmilha de montagem e na palmilha de acabamento); e a Mata Tex, uma membrana impermeável que permite que a pele seja resistente à água e que não passe para o forro.

O CEO da Fábrica de Calçado da Mata reclama que “Portugal deixou de ser um país de preço barato” e com estas inovações espera conseguir subir o preço médio por par à saída de fábrica, que ronda os 60 euros. “Se há uns anos tivéssemos tido a tentação de sermos competitivos pelo preço, já não havia indústria de calçado em Portugal”, concorda Paulo Gonçalves, diretor executivo da APICCAPS, em declarações aos jornalistas à margem da MICAM, que arrancou este domingo no Norte de Itália.

À saída das fábricas portuguesas, o preço médio do par de sapatos que seguiram para estrangeiro foi de 25,29 euros em 2025, abaixo dos 25,54 euros registados em 2024. “Não é drama nenhum”, dizem os patrões do setor.

No final de um ano “muito difícil” e em que este setor dito tradicional foi particularmente penalizado pelo “comportamento completamente errático” dos EUA, que acabaram por encolher em 12% as compras a Portugal, foi o calçado de características técnicas que ajudou a sustentar as vendas ao exterior, ao crescer 14,5% para 213 milhões de euros.

Pelo contrário, o calçado em couro estagnou (0,2%) em torno dos 1.413 milhões de euros e, tendo preços de venda superiores, levou a uma quebra do preço médio do calçado nacional na exportação: de 25,54 euros em 2024 para 25,29 euros em 2025. Paulo Gonçalves entende que “não é drama nenhum” e é até “uma estratégia absolutamente concertada” para diversificar a oferta e chegar a novos nichos de mercado.

(O jornalista viajou para Itália a convite da APICCAPS)

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