Do inesperado silêncio no chão onde a Lockheed Martin produz F-35 até ao som avassalador do levantar de voo, o ECO/eRadar faz o roteiro da fábrica de onde poderão vir 27 caças para substituir os F-16.
Na manhã televisiva americana, um canal de notícias acompanha o Secretário da Guerra, Pete Hegseth, no Senado, a explicar o pedido de um orçamento militar recorde de 1,5 biliões de dólares (cerca de 1,3 biliões de euros), incluindo para mais caças. Um toque no comando e, no canal seguinte, mais generalista, discute-se de forma animada o quadragésimo aniversário de ‘Top Gun – Ases Indomáveis’, o blockbuster protagonizado por Tom Cruise e que colocou para sempre os fighter jets americanos no imaginário global.
Tudo muito apropriado, pois passadas poucas horas vamos estar no local onde a Lockheed Martin produz os F-35 Lightning II, a grande estrela atual da aviação militar e que Portugal pondera comprar para substituir os ‘velhinhos’ F-16, que cá chegaram nos anos 90.
No minibus que leva o grupo de jornalistas portugueses à fábrica nos subúrbios de Fort Worth — no Texas e muito perto de Dallas — Alisson McKibbin, communications manager do programa F-35 e funcionária da empresa há 32 anos, revela que trabalham cerca de 18 mil pessoas na fábrica, com a produção espalhada por três turnos.
Já depois do controlo de segurança, aponta para um billboard digital com a mensagem “Welcome Portugal Media“, sinal que o charme do marketing americano não deixa nenhuma ponta solta. Já perto do edifício principal, mostra onde está a portuguesa numa coluna de bandeiras. Portugal não está ainda no programa F-35, mas está no dos F-16 Fighting Falcon, que também nasceram aqui.
A Lockheed Martin resulta da junção, em 1995, das empresas criadas por Glenn L. Martin (em Los Angeles em 1912) e pelos irmãos Allan e Malcolm Loughead (em Santa Barbara um ano a seguir)
Ultrapassadas ligeiras burocracias, de repente estamos a atravessar um espaço industrial gigante que nem sequer temos tempo de apreciar antes de entrarmos no Aeronautics Vision Centre, espaço no qual a empresa expõe nas paredes citações alusivas à aviação (desde Leonardo da Vinci aos fundadores da empresa), à inovação, filosofia militar e ainda dezenas de fotografias da sua longa história. Ou histórias, pois na realidade a Lockheed Martin resulta da junção, em 1995, das empresas criadas por Glenn L. Martin (em Los Angeles em 1912) e pelos irmãos Allan e Malcolm Loughead (em Santa Barbara um ano a seguir).
Pelo meio, as empresas desenvolveram aeronaves de última geração, mísseis, helicópteros e sistemas espaciais para as forças americanas, mas também para dezenas de outros países aliados. Já numa sala de reuniões, os executivos da Lockheed Martin explicam que os caças americanos estão presentes em 20 países porque o programa tem alcance global, maturidade, resistência e interoperabilidade.

Corrida a três
Sobre se poderão dar como incentivo à compra alguma cooperação industrial, como prometeram dois potenciais concorrentes ao contrato de compras de Portugal, os executivos dizem que sim e dão mostras de trabalho no terreno, mas sublinham que não é o fator único, apenas um de muitos.
A Saab, produtora dos Gripen, é uma das concorrentes. Para a empresa sueca Portugal “tem muito potencial” para produzir parte dos caças em Portugal, com Daniel Boestad, vice-presidente da unidade de negócio dos caças a dizer em abril que a Critical Software, Thyssenkrupp em Portugal, Kristaltek e a Vangest já estão a colaborar com a empresa sueca para os caças militares.
Outra organização na corrida é o consórcio Eurofighter, composto por Airbus, a britânica BAE e a italiana Leonardo. Questionado esta quarta-feira em Munique sobre a corrida, o CEO da Airbus, Guillaume Fauryé, disse ao ECO e outros jornalistas portugueses que a empresa coopera em escala europeia. “Garantimos a soberania da solução que desenvolvemos”, vincou.
A corrida pelo contrato dos jatos ainda está na fase inicial. No caso do EUA, como parte do Foreign Military Sales, o regime que regula as vendas de produtos ou serviços militares pelo Governo americano a outros países, o potencial comprador tem de apresentar um Letter of Request, uma carta de requerimento, em tradução literal, no qual detalha o que pretende adquirir. Os executivos da Lockheed Martin dizem que ainda aguardam por esse passo do Governo português.
Declinam falar sobre os preços dos caças. Se Portugal optar por manter a confiança na empresa americana — com a qual chegou a acordo para comprar 28 caças F-16 em 1990 com as encomendas a chegarem quatro anos a seguir — a escolha deverá recair nos F-35A, o modelo mais convencional, enquanto o B é desenhado para capacidade stealth e o C para ser usado em porta-aviões.
A opção agrada à Força Aérea Nacional, como admitiu em maio 2024 o então Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, Cartaxo Alves, apontando que, para isso, haveria que desembolsar, a 20 anos, 5,5 mil milhões de euros por 27 aeronaves.

200 jatos ao longo de uma milha
A escala é um fator no qual os americanos raramente ficam atrás. Na fábrica de Fort Worth, temos finalmente oportunidade de ver e explorar a gigantesca linha de produção. Saídos do Vision Centre, somos dirigidos para uma caravana de três carros de golfe, com quatro lugares cada. Sim, parece um bocado estranho de início, mas rapidamente se percebe a lógica, recordando até aquele momento inicial de choque com o tamanho do espaço industrial. É uma linha de produção de uma milha — ou numa medida não-imperial, cerca de 1,6 quilómetros.
A linha de montagem cobre 6,5 milhões de pés quadrados, ou perto de 604 mil metros quadrados, parte de um espaço total de cerca de 245 hectares
O nosso segundo ‘guia’ do dia, o capture manager Austin Abitz partilha alguns dados para a caravana através de um microfone enquanto percorremos parte do recinto. Transmite que o espaço cobre 6,5 milhões de pés quadrados, ou perto de 604 mil metros quadrados, parte de um espaço total de cerca de 245 hectares.
Neste momento estão 200 F-35 em diversas fases de produção, desde a montagem inicial, passando pela colocação de várias camadas de cobertura que vão dar ao caça uma quasi-invisibilidade, até aos toques finais. Em cada posto há um ecrã que indica para que país o jato vai, quantos dias de trabalho já teve, quantos faltam, os de atraso etc. Por ano, a fábrica de Fort Worth entrega 156 F-35, espalhados entre os três modelos.
Mas antes de sairmos para ver o ‘relâmpago’ em ação de teste e observação, uma palavra para o ambiente no chão de fábrica. Ao contrário do que seria de esperar, é calmíssimo, quase silencioso. Austin Abitz salienta que um F-35 hoje precisa de uma quantidade total de rebites (rivets, um fixador mecânico metálico, semelhante a um prego) que poderia caber numa chávena de café. A referência aos rivets cruza com parte da história militar americana e nomeadamente a Rosie the Riveter, um ícone cultural criado nos Estados Unidos para incentivar as mulheres a trabalharem em fábricas e estaleiros, enquanto milhões de homens serviam nas forças armadas durante a Segunda Guerra Mundial. No museu-corredor da Lockheed Martin há uma foto de uma riveter, com um exemplar da ferramenta (pesada) que usava na manufatura dos aviões.
A juntar-se ao inesperado silêncio do chão de fábrica de jatos, passam por nós vários funcionários a pedalarem triciclos, num cenário insólito, como se estivéssemos nas ruas de Nova Delhi. “Levam algumas peças pequenas ou documentos nas caixas de metal, é uma tradição que se foi mantendo”, diz Alisson McKibbin, a nossa guia.

Entregues por Austin Abitz de novo ao minibus, desta vez vamos rapidamente para um dos 32 hangares que a Lockheed Martin tem para alojar os F-35 que vão partir e voltar em voos de teste. Em meros minutos, fomos do silêncio quase espiritual da linha de produção para um sítio onde, de vez em quando, se levanta um som difícil de descrever e que impede qualquer outra atividade enquanto existe — o de um F-35 a levantar voo ou a voltar para a terra.
Estamos com sorte, as condições climatéricas estão perfeitas e há muito tráfego de testes. O arranque da entrevista do ECO/eRadar a Carlton ‘Puff’ Wilson, piloto que realiza os primeiros voos de aeronaves que saem da linha de produção de F-35, é logo interrompido pelo levantar de um caça, obrigando a um geral levantar de dedos indicadores para tapar os ouvidos.
‘Puff’ é um dos poucos pilotos qualificados em todas as três variantes do F-35 e traz mais de 15 anos de experiência direta com a plataforma. Como o 58.º a voar o F-35, pilotou todas as versões de software desde o seu início e treinou mais de 100 pilotos na utilização das capacidades avançadas da aeronave. Antes disso, antes de se juntar à Lockheed Martin, Puff serviu 22 anos como Oficial do Corpo de Fuzileiros Navais e acumulou mais de 2.000 horas de voo nos AV-8B, F-16 e F-35.
A pergunta natural a fazer ao experiente piloto é sobre qual é o seu caça favorito. “A resposta curta é que todos os aviões que pilotei foram um prazer de voar e acho que todos os pilotos lhe dirão o mesmo”, diz. “Cada um deles é um pouco como os nossos filhos: todos têm personalidades diferentes.”
“Dito isto, se tivesse de ir para combate, era neste avião que eu gostaria que os meus filhos estivessem a voar, era neste avião que eu gostaria que os meus amigos estivessem a voar, porque, no final do dia, é o que lhes vai proporcionar a maior consciência situacional para tomarem decisões e a maior capacidade de sobrevivência para regressarem”, vincou.
Acrescentou, que, no fundo, “é isso que procuramos — quer sejam os nossos amigos, a nossa família ou os nossos compatriotas: queremos que regressem, queremos preservar esses recursos, os recursos humanos, as pessoas que fazem parte das nossas vidas e acho que este avião é o melhor para conseguir isso”.
IA é oportunidade e desafio
Logo a seguir a mais uma interrupção sonora provocada pelos F-35, Wilson deixa-nos segurar o seu capacete, com o forro feito à medida. Mas é como se estivesse a segurar um bebé ou uma peça de vidro frágil: continua com as mãos debaixo, em posição de backup. Perguntado sobre onde está a alcunha, ou assinatura de piloto, no capacete — em Top Gun, o ‘Maverick’ de Cruise estava bem visível em letras garrafais em cima do visor — aponta para uma pequena etiqueta na parte de trás com o nome ‘Puff’. “É mais um mito do cinema”, admite, entre risadas.

Mas a conversa sobre o capacete não fica por aí. O piloto aponta para dois pequenos projetores que ficam mais ou menos ao nível da testa e lançam para o visor todas as imagens que servem para navegar e combater.
As questões sobre a tecnologia usada nesta quinta geração dos F-35 animam o piloto e continuam no regresso à mesa de reuniões. “Temos um centro de inteligência artificial (IA) da Lockheed Martin, que faz um trabalho fantástico a decidir o que vamos adquirir a outras empresas do setor, o que vamos fabricar nós próprios e, depois, talvez a curto prazo, o que precisamos de adquirir agora, enquanto desenvolvemos algo para o substituir mais tarde”, diz ‘Puff’.
“Encaramos a inteligência artificial como uma grande oportunidade e, ao mesmo tempo, um desafio no que diz respeito à forma de a adotar”, e adianta que “estamos a utilizar ativamente a inteligência artificial no F-35 em capacidades relacionadas com a identificação de ameaças e também no que diz respeito ao sistema logístico”.
* O ECO/eRadar viajou a Fort Worth a convite da Lockheed Martin
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})
Silêncio e fúria na gigante casa texana onde nascem os ‘relâmpagos’ F-35 para tentar render os velhos ‘falcões’ portugueses
{{ noCommentsLabel }}