Sines: investimento celebrado nos gabinetes de Lisboa causa ondas de choque na região

Preços proibitivos no imobiliário, ensino e saúdes sob pressão, empresas pouco envolvidas nos grandes projetos e um Estado central "distraído". Em Sines, questiona-se a valia dos mega-investimentos.

Os investimentos de milhares de milhões de euros que estão a dar à costa em Sines nesta década tardam em traduzir-se em ganhos para a população. A comunidade vê o fumo sair das chaminés, mas as grandes empresas não cooperam com a comunidade. O Estado investe no comboio de mercadorias, mas não devolve o de passageiros que daqui levou há mais de 35 anos. Gigantes da indústria e da tecnologia anunciam projetos de grande dimensão, mas as empresas locais não são chamadas a participar. Os trabalhadores têm um poder de compra entre os maiores do país, mas para aqui viverem pagam rendas ao nível de Lisboa e Porto. Criam-se milhares de postos de trabalho, mas os naturais de Sines e Santiago do Cacém já estão quase em pleno emprego, pelo que o acréscimo terá de ser suprido por gente de fora – e com estes, mais pressão sobre habitação, saúde e educação.

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Como o ECO/Local Online foi ouvindo ao longo de dois dias de reportagem, os mais de 20 mil milhões de euros em execução, ou estudo, para Sines, estão a passar ao largo de parte significativa do tecido empresarial de Sines e do concelho vizinho de Santiago do Cacém. “Grande parte dos grandes investimentos vêm pela AICEP. Ficamos, normalmente, um pouco afastados desde cedo da decisão de poder”, explica o presidente da Associação Empresarial de Sines, Hugo Ferreira.

Ainda assim, há quem esfregue as mãos com os serviços de trabalho temporário, a restauração e o retalho alimentar, e, acima de todos estes, o imobiliário. Aqui, o ECO/Local Online encontrou casos de promotores a preferirem manter as casas novas fechadas enquanto observam a valorização do metro quadrado, ainda que os preços de apartamentos novos já toquem nos 5.000 euros por metro quadrado.

Santo André, dividida pela A26, poderá ter no seu extremo Norte uma nova via urbana criada a partir do troço final desta autoestrada construída nos anos 1970 Hugo Amaral/ECO

 

A cidade que em 1971 era um pinhal

São 14 horas num dia de semana e a reportagem do ECO/Local Online chega a Vila Nova de Santo André, freguesia do concelho de Santiago do Cacém. Cidade desenhada de raiz a partir de 1971, surgiu com a missão de trazer alojamento e serviços condignos aos trabalhadores do grande projeto industrial e portuário de Sines.

O primeiro habitante instalou-se aqui há 51 anos, mas, olhando à escassa circulação de pessoas na rua, nem parece haver aqui 9.000 habitantes. Apesar de a população ser hoje inferior a 10% das 100 mil pessoas para as quais Vila Nova de Santo André foi dimensionada, esta cidade desenhada por alguns dos mais proeminentes urbanistas e arquitetos portugueses concentra numa pequena faixa de território quase tantos eleitores quanto Sines – 9.050 eleitores registados em Santo André, contra 12.021 em todo o concelho celebrizado pelo único porto de águas profundas em Portugal.

David Gorgulho, presidente da Junta de Freguesia de Santo André, recebe-nos na sede da edilidade, junto às casas do Futebol Clube do Porto, Sporting Clube de Portugal e Sport Lisboa e Benfica, que convivem pacificamente no chamado Bairro Azul – todos os bairros têm uma designação derivada das suas características, como o Panteras, onde os edifícios são da cor da personagem de animação Pantera Cor-de-Rosa, ou o Picapau, de novo pela natureza cromática, o amarelo, ou ainda o Bairro dos Serrotes, em alusão ao telhado recortado. Entre muitos, há ainda o Bairro da Ford, referência a uma fábrica de automóveis que nunca passou do papel no ambicioso projeto do triângulo Sines-Vila Nova de Santo André-Santiago do Cacém (este, sede de concelho onde se insere a nova cidade).

Perante as várias queixas que vamos ouvindo ao longo de dois dias de reportagem, o presidente da junta de Vila Nova de Santo André alude a “alguma distração, principalmente ao nível do Governo central”, com o investimento que tem desaguado na região. Isso está patente nas infraestruturas e habitação, desde logo, nota o governante local:

"As preocupações e as movimentações que estão a acontecer, tanto ao nível do Governo, como das autarquias locais, se calhar já deviam ter acontecido há mais tempo, para precavermos algo que não se resolve em dois, três anos. Já sabemos que a construção de habitação e destas infraestruturas vai demorar seguramente mais tempo e que se calhar vamos andar em permanente atraso.”

David Gorgulho adiciona a saúde, “uma das infraestruturas que certamente merece aqui uma atenção particular e que vai sofrer”.

Já no edifício da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, Bruno Pereira avança ao ECO/Local Online que “está a ser feito um estudo de impacto da chegada de 15.000 pessoas para uma unidade hospitalar e a respetiva unidade local de saúde, que no caso de Santiago do Cacém, abrange cinco concelhos e uma área de milhares largos de quilómetros”.

No outro concelho envolvido no grande projeto portuário e industrial, o autarca de Sines diz-nos ter ouvido, numa reunião com o secretário de Estado do Planeamento e Desenvolvimento, Hélder Reis, que “o Governo está sensibilizado” para os problemas da região.

Nesta faixa de território no distrito de Setúbal, a chegada de grandes investimentos está a provocar pressão em vários serviços. A cumprir o seu terceiro mandato, David Gorgulho realça que “estamos a falar de algo que já se sabia há vários anos. É um assunto que está na ordem do dia, se calhar com maior intensidade, há dois, três anos, mas nós já sentimos este impacto e já alertamos para esta para os problemas decorrentes há mais tempos do que isso”. No caso específico da habitação, destaca “o mercado de arrendamento, altamente inflacionado”.

Estamos a falar de algo que já se sabia há vários anos. É um assunto que está na ordem do dia, se calhar com maior intensidade, há dois, três anos, mas nós já sentimos este impacto e já alertamos para esta para os problemas decorrentes há mais tempos do que isso”. No caso específico da habitação, destaca “o mercado de arrendamento, altamente inflacionado.

Álvaro Beijinha

Presidente da Câmara Municipal de Sines

Uma realidade que Hugo Ferreira, presidente da Associação Empresarial de Sines (AES), concretiza em números: em tempos de pandemia, teve em arrendamento um apartamento na freguesia por 350 euros, e hoje esse mesmo imóvel (entretanto já vendido) está no mercado em torno dos 1.500 euros.

Uma técnica da sua empresa, que acompanha a entrevista realizada na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS), diz ao ECO/Local Online que um outro apartamento, um T3 igualmente em Santo André, pelo qual pagava, enquanto inquilina, 450 euros mensais até há cerca de meio ano (altura em que mudou de residência), está agora no mercado próximo dos 2.000 euros.

David Gorgulho, presidente da Junta de Freguesia de Santo AndréHugo Amaral/ECO

“Nem nós conseguimos justificar”

“Para quem tem imóveis para arrendar, é bom. Agora, jovens da terra que querem casar, comprar uma casa, isto é praticamente impossível”, diz Hugo Ferreira. “Um apartamento usado em Santo André ou em Sines custa 250 mil a 300 mil euros. Comprei alguns apartamentos antes do COVID, em 2020, a 80 mil euros cada um. Um deles está marcado [para venda] a 300 mil euros”.

Esta ordem de valores é constatável numa volta por imobiliárias. Na Predimed, um apartamento T1 novo, numa zona de expansão de Sines, com 61 metros quadrados de área, acaba de ser vendido por 310 mil euros.

Um apartamento usado em Santo André ou em Sines custa 250 mil a 300 mil euros. Comprei alguns apartamentos antes do COVID, em 2020, a 80 mil euros cada um. Um deles está marcado [para venda] a 300 mil euros.

Hugo Ferreira

Presidente da Associação Empresarial de Sines

Numa rápida visita a sites de imobiliário, num exercício meramente comparativo, na capital de distrito, Setúbal, vemos um T1 de 59 metros quadrados num condomínio com piscina e vista de rio por 325 mil euros. Para quem tente “fugir” de Sines para Santiago do Cacém, a fasquia não está muito abaixo: perto do castelo, um T1 de 62 metros quadrados, sem piscina (tal como o referido T1 de Sines), custa 269 mil euros.

José Malveiro, consultor imobiliário em Sines, descreve um cenário promissor para os promotores. Um empreendimento com mais de 70 apartamentos, cuja construção se iniciou há cerca de dois anos, foi totalmente vendido ainda em planta. Um T1 está ali em arrendamento por 1.600 euros, enquanto os T2 rondam os 2.000 euros e os T3 sobem aos 2.500 euros. “Daqui a dois, três meses, não lhe consigo responder. Chamamos a Sines a nova Lisboa”, diz o especialista, que há décadas trabalha em imobiliário. “Os valores aqui, nem nós conseguimos explicar”, admite.

Na habitação nova, conta, um promotor decidiu parar vendas de um empreendimento quando atingiu 70% de vendas, direcionando as casas para arrendamento, enquanto aguarda uma futura valorização para, mais tarde, aumentar as mais-valias. “Tenho dez clientes em carteira para comprar a pronto pagamento e não há casas”, relata o consultor imobiliário.

Tenho dez clientes em carteira para comprar a pronto pagamento e não há casas. Nos arrendamentos só trabalhamos com empresas. Estamos escaldados. São os próprios senhorios que nos dizem que não querem arrendar a particulares. Com as empresas é mais seguro, conseguem pagar

José Malveiro

Consultor imobiliário

A situação não é mais favorável no mercado de arrendamento. Deparados com a necessidade de alojar funcionários, os empresários preferem pagar um apartamento T3 até 2.500 euros para alojar vários, poupando assim no que teriam de pagar por quartos de hotel, nota o responsável da AES. “As empresas têm feito uma pressão enorme, porque podem pagar um valor que os singulares não podem, porque o salário não dá”, lamenta Hugo Ferreira.

Uma circunstância confirmada por Pedro do Ó Ramos, presidente da APS: “as empresas não se importam de fazer elas próprias alguns contratos de arrendamento e assumem isso como parte da remuneração dos trabalhadores, em vez de terem habitação” própria.

José Malveiro confirma esta ideia. “Nos arrendamentos só trabalhamos com empresas. Estamos escaldados. São os próprios senhorios que nos dizem que não querem arrendar a particulares. Com as empresas é mais seguro, conseguem pagar”, sintetiza o consultor.

Habitação/imobiliário em Sines Hugo Amaral/ECO

“Não existem pessoas para trabalhar em Sines”

Hugo Ferreira conhece a dificuldade de recrutamento associada aos preços da habitação. Assim aconteceu no preenchimento de uma vaga para engenheiro civil, para fiscalização de uma obra, com vencimento de 4.000 euros, um “salário já razoável”, nota. “Ele telefona a perguntar onde é. Sines. Não vem! Vai ter que pagar uma casa de 2.000 euros, e vai ser difícil arranjá-la, vai ter de pagar portagens e combustível para ir a Lisboa ver a família… no fim do mês sobra muito pouco dinheiro”.

O líder empresarial diz ser “muito difícil ter quadros. Não existem pessoas para trabalhar em Sines, aos diversos níveis. Temos sempre vagas em aberto para os associados, dezenas de vagas todos os dias”, explica o empresário, mencionando ainda a rotatividade, “pela concorrência entre empresas à procura dos recursos humanos mais qualificados”.

“Todos percebemos, nós próprios, que é muito difícil captar talento, sobretudo pelos custos de contexto”, refere o presidente do conselho de administração dos Portos de Sines e Algarve (APS), situação extensível a entidades com quem o porto trabalho de forma estreita, casos da Autoridade Tributária, DGAV e unidade costeira da GNR.

Estamos a falar de uma necessidade de mão-de-obra brutal e que, naturalmente, vai ter de vir de fora. E já hoje temos o problema que temos com o mercado de arrendamento e com o preço de metro quadrado absolutamente astronómico.

Álvaro Beijinha

Presidente da Câmara Municipal de Sines

O caso torna-se mais relevante entre o tecido empresarial abaixo dos “tubarões”. Pressionadas pelo poder financeiro dos gigantes de Sines, as PME “vão tendo os quadros que sobram das grandes empresas”, nota Hugo Ferreira, e “isto não nos permite crescer. Os quadros mais qualificados vão sempre à procura destas grandes empresas que têm outras condições para pagar. Nós [PME] não temos condições para pagar salários como há por aí [nas grandes empresas em Sines], de um engenheiro ganhar seis ou sete ou oito mil euros por mês. As PME não conseguem”, lamenta o dirigente da AES, deixando o desabafo: “claro que o crescimento é ótimo, mas que trouxesse sustentabilidade”.

“Temos investimentos em Sines, pelo menos os que já estão falados, que superam os 20 mil milhões de euros, qualquer coisa como 7.000 trabalhadores, que trarão ou não a sua família”, sintetiza o presidente da Câmara de Sines, Álvaro Beijinha. “Isto tem pressão sobre os serviços, designadamente a habitação, a saúde, a educação, e depois há também a questão social, porque não sabemos que impacto vai ter”, admite. “Estamos a falar de uma necessidade de mão-de-obra brutal e que, naturalmente, vai ter de vir de fora. E já hoje temos o problema que temos com o mercado de arrendamento e com o preço de metro quadrado absolutamente astronómico”, nota o autarca.

Os investimentos turísticos no litoral a norte de Sines estão a criar pressão na habitação e sobre os recursos humanos disponíveis para as empresas desta regiãoHugo Amaral/ECO

A Sines e Santiago do Cacém chega pressão também do concelho de Grândola, com os novos empreendimentos turísticos ali em construção. Em 2025, três técnicos qualificados do grupo VHF, detido por Hugo Ferreira, rumaram a Norte, e no total da associação, foram “centenas” na debandada, assegura o empresário. “Nas minhas empresas, começa tudo em 1.200 euros [de salário] para cima. Não se consegue pagar salário mínimo em Sines. Na Costa Terra ou na Comporta pagam o dobro, ou mais. Estou a falar até de técnicos operacionais, pessoas para servir à mesa”, diz o líder da AES – de seguida, vira-se para a técnica da empresa que acompanha a entrevista, diz-lhe “o chefe de sala ali do hotel foi trabalhar para o Louboutin, para o Vermelho. Como ele, muitos. Estava ali há anos, o outro ofereceu muito mais dinheiro, foi”.

Ao ECO/Local Online, Hugo Ferreira, transmontano a viver na região há cerca de três décadas, assegura que “isto depois reflete-se no preço que o consumidor vai pagar. Se forem a um restaurante qualquer, vão ver os preços”.

Como é que fazemos concorrência a uma empresa instalada em Sines ou Santiago do Cacém, com os vencimentos da Câmara tabelados, em que podemos negociar, quanto muito, a segunda ou terceira posição contratual da tabela.

Bruno Pereira

Presidente da Câmara Municipal de Santiago do Cacém

Neste cenário, em défice claro ficam os serviços públicos. Desde logo, as autarquias. “Como é que fazemos concorrência a uma empresa instalada em Sines ou Santiago do Cacém, com os vencimentos da Câmara tabelados, em que podemos negociar, quanto muito, a segunda ou terceira posição contratual da tabela”, questiona o presidente da Câmara de Santiago do Cacém, Bruno Pereira. E rapidamente responde: “Não conseguimos! Os ordenados, mesmo os do Executivo, mesmo os de um diretor de departamento, o chefe de divisão, que são as posições regulatórias por tendência mais altas numa Câmara Municipal, qualquer emprego básico na área industrial de Sines paga melhor”.

Por sua vez, Hugo Ferreira afirma que “um assistente ou técnico da câmara, ganha mil euros, ou 900, o salário mínimo. Se for para uma fábrica destas trabalhar como serralheiro de segunda, ajudante, ganha 2.500. Não é soldador, nem serralheiro, só ajudante”, explica o presidente da associação de empresas.

“Não existe habitação”

De todos os constrangimentos que nos chegam de vários quadrantes do poder local e das empresas, a habitação é o hegemónico. Sinal disso, como constatamos, vemos pessoas a residir nos armazéns da Zona Industrial e Logística de Sines, atropelando a lei, em edifícios edificados com as especificações de armazém ou espaço comercial. Roupa a secar nos estendais e, visto na rua através das portas abertas, interiores com mobília de casa, são presença ao longo das ruas da zona 2 da ZILS. “Se esperarem um bocadinho, vão ver ali no armazém da frente 20 pessoas a saírem do armazém com 100 metros quadrados. Trabalhadores dos andaimes, agricultura, pinturas, construção civil, estrangeiros, pessoas com poucas qualificações, especialmente da Ásia. Se vierem à noite, vão ver pessoas a passear os cães, a assar na rua… é proibidíssimo, não se pode morar numa ZILS”, salienta Hugo Ferreira.

Um armazém de 100 metros quadrados de área, com dois pisos e com uma dezena de quartos no interior, pode render 6.000 euros por mês em regime de habitação. Arrendado para a função comercial, o mesmo armazém, na sua totalidade, não passará em muito dos 500 euros, descreve o presidente da AES.

Habitação na Zona Industrial e Logística de SinesHugo Amaral/ECO

Segundo apurou o ECO/Local Online, as autarquias de Sines e Santiago do Cacém têm noção da existência da existência de cerca de 2.000 pessoas nas diversas zonas da ZILS, mas não dispõem de uma solução de alojamento condigno. A este propósito, Hugo Ferreira perspetiva que “se houver uma fiscalização muito apertada, as pessoas não têm onde dormir. Vamos criar um problema maior. Não existe habitação”, insiste. “Construir habitação vai demorar anos e anos. Já devíamos ter começado isto quando foram anunciados os primeiros projetos. Vocês viram há quantos anos estamos à espera da autoestrada – foi parado no tempo do Passos Coelho, ficaram as obras a meio”.

De facto, a autoestrada em que circulamos a partir do nó de Grândola da A2 é a mesma que conhecemos de experiência pessoal há mais de 30 anos – e já data da década de 1970. De Santiago do Cacém chegamos a Sines e depois dali viramos para Santo André. Nem mais um quilómetro há do que o feito há cinco décadas. Uma falha nas acessibilidades que não escapa ao olhar dos investidores, entre os quais “há uma preocupação enorme”, realça o presidente da Câmara de Sines.

Apontando o exemplo da Repsol, há mais de 20 anos presente no território e com o grande investimento Alba quase em fase final, Álvaro Beijinha conta um episódio vivido consigo: “recordo-me perfeitamente de que quando estavam a querer avançar com o projeto, eu ainda na qualidade de presidente de Santiago, o diretor da fábrica nos consciencializar para que fizéssemos pressão junto do Governo central para a necessidade urgente de esta via passar a autoestrada, e também para a questão da ferrovia”.

Álvaro Beijinha, presidente da Câmara Municipal de Sines, em entrevista ao ECO/Local OnlineHugo Amaral/ECO

“Quando se pensou o projeto de Sines, ainda antes do 25 de Abril – eu sou o primeiro a criticar o anterior regime – isto foi bem pensado e bem planeado”, assume o autarca comunista, notando como nas últimas décadas “construiu-se autoestradas por todo o lado e aqui, que é estratégico para o país, não se criou a acessibilidade necessária. Temos aqui os investidores estrangeiros e eles não conseguem compreender isto”. O mesmo com a ferrovia de passageiros, retirada aos dois concelhos no início dos anos 1990. Se ela existisse, “as pessoas não precisavam de residir aqui”, considera Álvaro Beijinha.

PME da região ficam à margem dos grandes investimentos

Na base de associados da AES, conta Hugo Ferreira, existem mais de 300 empresas, com preponderância das pequenas e médias (PME), algumas de concelhos limítrofes de Sines e Santiago do Cacém e também países da CPLP. Uma das mais destacadas é o porto de Sines, com o qual a associação está articulada numa associação portuária da lusofonia, APLOP – Associação dos Portos da Língua Portuguesa.

Ao todo, estima Hugo Ferreira, os associados da região empregam cerca de sete a oito mil pessoas, dimensão que dispara na ordem dos milhares em certos momentos, por via do trabalho temporário. Petróleo, metalomecânica, eletricidade, logística e área portuária são parte do portefólio de áreas de atuação.

Empresário com presença em Portugal e Angola, Hugo Ferreira lamenta a ausência de legislação que privilegie a incorporação local de serviços e produtos, como ocorre naquele país africano, por exemplo. Em Angola, “sempre que há um projeto petrolífero, eles são obrigados a deixar 1% ou 2% para causas sociais. Tem de fazer a escola, o hospital. Nós vamos ao Cercal do Alentejo [concelho de Santiago do Cacém] e não há uma creche”.

Complexo Petroquímico da Repsol na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS) Hugo Amaral/ECO

Com os grandes projetos a chegarem já desenhados a Sines, as empresas da região ficam limitadas a alguns serviços de menor escala. Tanto que, salienta o responsável da associação empresarial, baseando-se numa lista do jornal Setubalense com as maiores empresas sediadas no distrito de Setúbal (ficheiro que tem à mão no seu telemóvel), a agricultura, a pecuária, o imobiliário e o trabalho temporário são campeões neste território.

Hugo Ferreira explica o quão distantes ficam os empresários dos grandes investimentos:

"Quando os projetos são anunciados, a maior parte dos cadernos de encargos, das adjudicações, já está tudo feito, ou seja, fica muito pouco. Muitas vezes, estes grandes projetos só compram em Sines o que não conseguem trazer de fora. Os concursos são internacionais, as empresas que vêm são quase todas de fora, têm a sua central de compras fora, as centrais de abastecimento também são de fora, e muitas vezes só compram aqui ‘um quilo de pregos porque me esqueci de trazer os pregos’…”

O empresário e líder associativo reconhece que em “tanta coisa e tanto projeto que aparece sempre alguma coisa”, mas deixa o alerta para uma “reação popular que já existe hoje em dia” por desagrado face aos impactos dos grandes investimentos.

Começamos a não ter creches para as crianças, a ter as escolas esgotadas, os centros de saúde e os hospitais ocupadíssimos, com filas de espera, os restaurantes caríssimos, as casas caríssimas“, nota o presidente da AES, ironizando: “Como dizia um amigo, de cada vez que o primeiro-ministro anuncia um investimento para Sines, os preços no supermercado aumentam”.

Álvaro Beijinha alerta para a falta de investimento do Estado central e alerta:

"A câmara não vai aumentar a sua receita brutalmente para construir uma nova escola, um centro de saúde novo, para meter mais efetivos da GNR… só para ter uma ideia: a GNR aqui em Sines tem vinte e tal guardas, tem duas viaturas… uma delas foi a Câmara que lhes cedeu, para fazer o patrulhamento todo. É caricato. Uma cidade onde vivem 13 mil pessoas, onde, segundo estimativas, vivem mais cinco ou seis mil, atualmente – andam por aí. Há uma sensação de insegurança que cresce todos os dias na população local. Sabemos ao que isso leva muito facilmente…”

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