O projeto da grande Sines está finalmente a florescer. Criticada pela autarquia por descurar a comunidade, a Start Campus, maior investimento em curso, anuncia ao ECO a mudança da sede para Sines.
“Entre o Alentejo e o Mundo”, sintetiza Sines no marketing territorial quando nos aproximamos da cidade ao fim de cerca de 20 km da A26, uma autoestrada com designação atual, mas que já soma cinco décadas, aberta após o plano gizado para o grande polo de Sines em 1971. “Com base no que temos vindo a observar nos últimos 6 a 7 anos, acreditamos que Sines está a consolidar-se como um dos principais polos industriais, energéticos, logísticos e digitais da Europa, com capacidade para atrair investimento transformador ao longo da próxima década”, diz ao ECO/Local Online a entidade gestora dos mais de três mil hectares de zona industrial e logística, a AICEP Global Parques.
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A âncora de Sines é o porto de águas profundas idealizado após a crise do Canal do Suez da década de 1960. Até à abertura do terminal XXI, da PSA, no início deste século, este era sobretudo um porto para desembarque de petróleo para a refinaria (agora, única no país) e para o carvão da central termoelétrica da EDP (em processo de desmantelamento).
O sucesso do terminal de contentores da PSA levou o Governo a lançar um concurso para construção de novo terminal, com o nome Vasco da Gama, mas o primeiro concurso, acima dos 600 milhões de euros, ficou deserto. Com base num estudo esperado ainda para o mês de maio, será analisado como proceder num segundo concurso. “Há uma coisa que não quero fazer, lançar um concurso imprudentemente“, afirmou ao ECO/Local Online Pedro do Ó Ramos, presidente do Conselho de Administração dos Portos de Sines e Algarve (APS).
Se “lançar um concurso e ficar deserto, dificilmente o projeto se levantará”, considera o gestor. O que se espera para a nova concessão é uma divisão em secções, reduzindo a ambição de investimento inicial, e já com o horizonte de concessão em 75 anos.
Entre obra no terreno e anúncios promissores, o investimento em curso em Sines ruma aos 10% do PIB, algo como 30 mil milhões de euros. A mais recente rajada deste vendaval de projetos surgiu esta semana, com as palavras otimistas relativas à gigafábrica de inteligência artificial que a União Europeia poderá delegar a Portugal. Só neste projeto, o país receberá 6.000 milhões de euros, com Sines a dividir parte do bolo com Lisboa e Abrantes, redundâncias à cidade alentejana.
Tal como o data center da Start Campus (que poderá, ou não, ser a casa da gigafábrica), esta infraestrutura de IA é uma das herdeiras do cabo submarino chegado do Brasil. A Zona Industrial e Logística de Sines, ZILS no seu acrónimo disperso ao longo desta região, é o ponto de confluência dos grandes investimentos atraídos nas últimas cinco décadas.
A sul, destaca-se, pela imponência do edifício industrial, o “esquentador” da praia de São Torpes desligado em 2021, a central termoelétrica da EDP, que durante cerca de quatro décadas marcou a paisagem com as suas duas grandes chaminés (já demolidas), e para onde se espera um investimento em hidrogénio “verde” – ou seja, no lugar do carvão ali desembarcado durante décadas através de um tapete de quilómetros vindo do porto, o hidrogénio será gerado por renováveis. Ao lado, a Start Campus, que, destaca a AICEP Global Parques ao ECO/Local Online, “posicionou a região no radar internacional dos grandes operadores de infraestruturas digitais, num momento em que se verifica uma procura crescente por áreas com capacidade para acolher data centres de grande escala, suportados por disponibilidade energética, conectividade internacional, integração logística e condições de expansão a longo prazo”.
Na extremidade leste, onde se encontra o edifício da AICEP Global Parques, erguido nos anos 1970 para sede da refinaria original de Sines, a Petrosul, de Manuel Bullosa (nacionalizada em 1975), começou já a movimentação de terras para a fábrica de baterias chinesa CALB, China Aviation Lithium Battery.
Vemos o resultado da desmatação num terreno já vedado e marcado com placas da Mota-Engil, responsável pela construção do empreendimento onde trabalharão cerca de 1.800 pessoas, num investimento na ordem dos 2.000 milhões de euros que se espera esteja operacional em 2028.

Na ZILS encontram-se, para lá da refinaria da Galp e da Repsol Polímeros, ambas em expansão, instalações petroquímicas e um parque fotovoltaico da Repsol, e também fábricas de glicerina e cimento, a Air Liquide, a Indorama, a Medway (empresa que ganhou a concessão da CP Carga, responsável pelas dezenas de comboios que chegam a sair diariamente do porto de Sines), a Euroresinas, Metalsines e a Ren Gasodutos, entre muitas empresas de menor dimensão.
Mas no lado leste há ainda um segredo mal guardado, um discreto edifício onde se encontra a ancoragem do cabo EllaLink, cerca de 6.000 quilómetros de fibra ótica submarina entre o Brasil e Portugal. “Muito antes de se falar em digitalização em Portugal, estava a Ellalink a bater à porta, a querer um espaço para meter uma estação de cabo submarino, em 2016”, explicou, numa conferência do Jornal Económico, Miguel Borralho, diretor da ZILS. No local desde 2021, foi este o investimento que abriu porta à digitalização de que é estrela o data center da Start Campus.
Empresa do setor empresarial do Estado, a AICEP Global Parques é o “senhorio” dos mais de 3.300 hectares de terrenos públicos dedicados ao projeto de Sines (parte dos mais de 20 mil hectares que em 1971 foram expropriados pelo Estado para erguer todo o projeto de Sines). Repartida entre áreas de atuação, a ZILS tem na Energia Sul o tabuleiro onde se movem as peças de uma das grandes apostas europeias para a transição energética, o hidrogénio verde.
“Mais de 60 projetos de hidrogénio bateram-nos à porta”, explicou Miguel Borralho na mesma conferência, existindo oito projetos em instalação ou fase final de licenciamento. Estes projetos incluem autoconsumo e descarbonização da indústria instalada, nota a agência ao ECO/Local Online, o que acabará por reduzir a pegada carbónica dos empreendimentos sobre a região. “No conjunto, representam um investimento superior a 3.000 milhões de euros, com uma estimativa de criação de cerca de 1.000 postos de trabalho, entre postos de trabalho diretos e emprego temporário associado à fase de construção, reforçando o papel estratégico do território na transição energética e na descarbonização da economia”, explica a AICEP.
Na geração de novas energias contam-se o H2Park, empreendimento de 1.200 milhões de euros que poderá chegar aos 900 MW, e o HVO, mais 269 milhões de euros, ambos projetos em curso da Galp. No HVO será produzido combustível com menores emissões para a aviação, numa parceria com os japoneses da Mitsui, com uso de resíduos da refinaria e hidrogénio “verde” produzido no local. “Estes investimentos demonstram que os grandes ativos industriais instalados em Sines estão a adaptar-se rapidamente às exigências da transição energética”, salienta, ao ECO/Local Online, a AICEP Global Parques.

Hoje, fala-se em mais de 20 mil milhões de euros a serem “descarregados” em Sines, com realce para o projeto Alba, da Repsol – empreendimento de 650 milhões de euros para triplicar a produção de plásticos –, a que se poderá juntar uma fábrica que se espera venha a ser implantada pelos suecos da Stegra (aço “verde”, produzido com hidrogénio provindo de renováveis e que poderá ajudar a compensar os cinco milhões de toneladas de carvão desaparecidos com o encerramento da central da EDP), a modernização da refinaria da Galp, a única do país desde que a petrolífera encerrou abruptamente a unidade de Matosinhos, e o hidrogénio e amoníaco verdes para abastecimento marítimo e industrial da Madoqua Power 2X. Só aqui, são cerca de mil milhões de euros e 115 postos de trabalho criados, ainda segundo a AICEP Global Parques.
Outro dos projetos PIN em Sines é o da Catalyxx, berço de 100 milhões de euros para butanol verde. Ainda na energia, as baterias da Calb, numa fábrica a construir num terreno de 90 hectares, com capacidade anual para 195 mil baterias destinadas a armazenamento e à mobilidade elétrica – pela sua posição no mercado, a fabricante chinesa poderá vir a ser um dos fornecedores do novo citadino elétrico da Autoeuropa –, uma aposta de 2.800 milhões de euros para criação de 1.800 postos de trabalho diretos. Este projeto tem um interesse adicional: na corrida à sua instalação estava também a Alemanha.
Criticada pelo autarca de Sines, Start Campus promete voltar a investir na comunidade
“Toda a gente quer investimento nos seus territórios e nós aqui em Sines também”, diz o presidente da autarquia. Álvaro Beijinha, que chegou ao município em outubro, após 12 anos a liderar Santiago do Cacém. O autarca nota, contudo, “um efeito perverso na comunidade local, naqueles que já cá vivem, porque no preço da habitação estamos a falar de valores das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, se calhar a restauração também tem vindo a subir significativamente e até os supermercados. Naturalmente, que uma coisa que aparentemente seria muito boa acaba por ter como consequência impactos a este nível”, explica o autarca, que tem, para todo o concelho de Sines, apenas 41 milhões de euros de orçamento e 12 milhões de euros destinados a investimento.

Entre os alvos de críticas de Álvaro Beijinha encontra-se a geografia tributária: empresas que pagam a derrama noutras bandas, mas é aqui em Sines que deixam a pegada carbónica e criam constrangimentos como os vividos na habitação – onde um T2 se arrenda por 2.000 euros e os senhorios dão preferência às empresas – e na educação, setor em que a única escola secundária do concelho está no limite. O surgimento dos mega-empreendimentos industriais dos últimos anos está a trazer pressão também nas acessibilidades.
No périplo efetuado pelo ECO/Local Online nos concelhos de Sines e Santiago do Cacém, o presidente da Associação Empresarial de Sines, Hugo Ferreira, dá nota da dificuldade da autarquia em cuidar de estradas municipais onde passam camiões com dezenas de toneladas, em parte provenientes da central de betonagem próxima do local onde ficará a fábrica da CALB. Uma consequência da falta de retribuição financeira a Sines e Santiago do Cacém por acolherem os grandes empreendimentos industriais no seu território. O líder da associação onde estão representadas mais de 300 empresas repete um argumento usado pelo autarca: “Grande parte destas grandes empresas não paga derrama cá, sequer. Algumas nem pagam em Portugal. Grande parte dos centros de decisão não está aqui. Os escritórios da Galp não estão aqui, estão em Lisboa, está tudo em Lisboa. Aqui, é só a oficina”.

Também o autarca de Sines critica a falta de empenho das grandes empresas no apoio à comunidade, num sinal que considera de desconsideração pela pressão feita por estas sobre as infraestruturas e a qualidade de vida. Um reparo que tanto vale para as que não alocam quaisquer recursos, como para a Start Campus, dona do data center que se espera venha a chegar aos 9.000 milhões de euros de investimento. E também se destina à Galp, que baixou o patrocínio ao festival Músicas do Mundo de 135 mil para 100 mil euros.
No caso da Start Campus, maior investimento em curso na região, a ligação ao processo Influencer, que levou à queda do Governo de maioria absoluta de António Costa, deixou marca no investimento, considera o presidente da autarquia de Sines. O concurso de ideias no valor de 100 mil euros, esperado pelo município como iniciativa a repetir anualmente, acabou logo na primeira edição.
Mas poderá não ser o fim dessa iniciativa, explica o diretor de operações da Start Campus ao ECO/Local Online. “Não, isso não está cancelado, estamos agora na fase pós-avaliação, e se virmos que foi um sucesso, possivelmente para o ano podemos abrir o Gama 2, ou outro nome qualquer, voltar a fazer algo semelhante, por isso não foi cancelado”, assegura Luís Rodrigues. “Houve quatro ou cinco projetos que ganharam, e estamos a avaliar todos os projetos para garantir que o dinheiro que foi investido de facto trouxe mais-valias”, diz.
Na conversa com o ECO/Local Online, já depois da publicação da entrevista ao presidente da Câmara de Sines, o diretor da Start Campus aponta quatro programas em que a empresa de data center está a colocar as suas fichas. Contudo, dos quatro, apenas um está ligado a Sines. Com a Microsoft, Universidade Nova e Instituto de Emprego e Formação Profissional está-se a falar de parcerias negociadas ao nível de Lisboa, e só no projeto em desenvolvimento com o Politécnico de Setúbal, para criação de um curso específico em Sines – licenciatura em engenharia de sistemas de infraestrutura crítica – existe, de facto, um benefício direto para a região.
Mas Luís Rodrigues tem uma novidade “na manga”. Ao ECO/Local Online, anuncia que a Start Campus vai mudar as empresas atualmente sediadas em Lisboa para Sines. A alteração, que significará o pagamento da derrama em Sines, ocorrerá ainda este ano.
Adicionalmente Luís Rodrigues destaca a contratação de uma profissional portuguesa atualmente na Amazon, que chegará a Sines para desenvolver projetos de impacto na comunidade. “Vai ajudar-nos a dar a continuidade a todos estes programas e também a fazer o plano multianual para os próximos dois, três, quatro anos, e ajudar-nos a implementar, de maneira a conseguir não só trazer mais-valias e apoiar a comunidade, mas também garantir que o que estamos a investir traz retorno à comunidade”, assegura o diretor da Start Campus.

As petrolíferas em Sines e a exploração de petróleo que aqui teve o centro de operações
No ponto oposto da ZILS, começamos o dia de reportagem no Centro de Negócios, gerido pela AICEP Global Parques. O edifício da década de 1970 denuncia o cuidado arquitetónico da criação das infraestruturas da nova Sines há 50 anos.
Neste, não falta uma rampa para circulação de pessoas com mobilidade reduzida, detalhe banal em edifícios recentes, mas incomum em construção da década de 1970, e revelador da valia de colocar arquitetos a pensar e construir de raiz a “megalópolis” de Sines, idealizada em 1971.
Do topo deste edifício percebe-se a vastidão de território da ZILS, entre as várias zonas que a compõem, aquém e além autoestrada. E, mesmo assim, há empresas perdidas entre a vegetação.
Lá em baixo, nas traseiras do edifício, dezenas de jovens convivem junto ao pavilhão da Escola Tecnológica do Litoral Alentejano (ETLA), uma criação dos finlandeses da Neste, que em 1989 adquiriram a empresa de polímeros EPSI, fundada em 1976, e que é parte do espólio adquirido pela Repsol já neste século. Parte das turmas está instalada no próprio centro de negócios, onde ocupam quatro dos seis pisos.

Hoje, já com a Repsol como proprietária do complexo de polímeros, a expansão em curso no projeto Alba vai levar à deslocalização da ETLA, tendo por destino o futuro polo do Politécnico de Setúbal, junto à única escola secundária de Sines. É aí que os cerca de 250 jovens que frequentam os quatro cursos da escola de formação gerida por Sines e Santiago do Cacém e empresas, passarão a ter acesso aos quatro cursos da ETLA.
Ali ao lado, dois símbolos de Sines, um relativo aos falhanços, outro aos sucessos. À direita, a fábrica encerrada da Recipneu, local de um incêndio de elevadas proporções em 2017 que provocou uma mancha negra nos céus de Sines ainda hoje recordada na zona. No setor dos pneus, outro insucesso da história da região foi a Carbogal, empresa fundada em 1983, vendida pela Petrogal à Orion Engineered Carbons em 1987 e encerrada em 2013.

Inicialmente um polo portuário e de refinarias, e com uma central termoelétrica da EDP a chegar já na década de 1980, Sines teve, entre as promessas de grandes investimentos, uma refinaria de Patrick Monteiro de Barros, projeto abortado há exatamente 20 anos, em maio de 2006, com troca de acusações entre o empresário e o Governo de José Sócrates. Com uma verba de 1,1 mil milhões de euros, prometia, à data, ser o segundo maior investimento no país, superado apenas pela Autoeuropa.
Hugo Ferreira lembra-nos outro dos investimentos que passou por Sines, onde tinha o centro de operações e estaleiro de material pesado: a exploração petrolífera ao largo de Aljezur. O empresário chegou a ser diretor do projeto. “Tínhamos as licenças todas. Era um projeto da ENI com a Galp, 70/30%”. O projeto acabaria por não ir avante, depois de muita contestação ambiental e dos partidos parceiros do PS na “geringonça” que governou o país. “Nem nos deixaram fazer o teste. Era isso que queríamos fazer, só o teste”, diz o empresário, com experiência na indústria petrolífera em Angola.
Mesmo sem petróleo a jorrar, Sines caminha para os 10% do PIB nos próximos anos, no somatório dos investimentos em curso e dos que estão em análise. “No seu conjunto, estes projetos, a par de outros atualmente em avaliação ou em diferentes fases de implementação, representam potenciais investimentos superiores a 20 mil milhões de euros, de acordo com a informação disponibilizada pelos respetivos promotores”, diz, ao ECO/Local Online, a AICEP Global Parques. “Mais do que números, estes investimentos refletem uma transformação estrutural profunda da região, cada vez mais orientada para a indústria sustentável, a energia limpa, a logística avançada e a economia digital”.
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