Sines, a mini-aldeia da Start Campus e os colarinhos azuis

A Start Campus é o lado mais mediático de um crescimento assinalável em curso em Sines. Mas há mais projetos na calha, conforme descreve a gestora da grande Zona Industrial e Logística de Sines.

Casas a preço acima da capital de distrito e não muito díspares dos de Lisboa, empresas locais sem bilhete para o comboio do progresso, escolas à míngua de espaço, a autoestrada que nunca mais chega. E a linha férrea à espera da prometida nova ligação de mercadorias a Espanha. E no meio disto, milhares de pessoas esperadas para aqui trabalhar – e, se houver espaço, viver.

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Tal como realça a AICEP Global Parques, “Sines está no centro de uma nova fase de transformação industrial, energética e tecnológica, afirmando-se como um dos territórios mais estratégicos da Europa para grandes investimentos”.

O fim da década está ao virar do calendário e nos bastidores corre-se para que o progresso não coloque em risco a coesão em Sines e Santiago do Cacém.

Já arrancaram quatro projetos imobiliários [e] dois deles já estão a acabar, porque também falaram connosco e começaram a ver o mercado. As rendas estão a 2 mil euros, é quase Lisboa, porque não há oferta. Quer dizer que quem construir vai conseguir arrendar

Luís Rodrigues

Diretor de operações da Start Campus

Nesta área encontra-se o investidor com o investimento potencial mais elevado, a Start Campus, cujo plano aponta para uma expansão que poderá atingir os dez mil milhões de euros. Ciente das dificuldades, a empresa vai construir uma mini-aldeia, repescando, a nível micro, a ideia por detrás da criação na década de 1970, de raiz, de Vila Nova de Santo André, cidade pensada para chegar aos 100 mil habitantes (ainda que se tenha ficado por 10%).

Com alojamento e serviços, a mini-aldeia “será temporária”. “Não vamos fazer um bairro para a Start Campus. Queremos integrar com a comunidade”, afirma o diretor de operações do data center ao ECO/Local Online. “Esperamos poder colaborar com as entidades públicas para resolver todas estas questões a médio e longo prazo”, afirma Luís Rodrigues. “Isto são desafios estruturantes, que demoram o seu tempo a resolver. Não podemos estar à espera que, de repente, numa cidade de 13 mil, venham outras 13 mil e de um dia para o outro as coisas estejam prontas.”

Complexo Petroquímico da Repsol na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS) Hugo Amaral/ECO

Concelho que chegou a concentrar dois dos três maiores poluidores do país – central termoelétrica da EDP, de longe o maior foco de emissões do país, encerrado em 2021, e a refinaria da Galp –, que tem o maior porto de mercadorias do país e acolhe a reserva de combustível portuguesa, Sines é o ponto de encontro dos grandes investimentos em andamento, ou que se perspetivam avancem num futuro próximo. A mais longo prazo, o Governo já assume ser necessário olhar para outras paragens aptas a receber investimento.

Entre estes, o projeto de aço “verde” (produzido com recurso a hidrogénio fabricado com energias renováveis) dos suecos Stegra. Entre aqueles, a fábrica de baterias dos chineses da Calb e a Madoqua Power2X, para produção de hidrogénio e amoníaco “verdes” para abastecimento marítimo e industrial.

Sines está no centro de uma nova fase de transformação industrial, energética e tecnológica, afirmando-se como um dos territórios mais estratégicos da Europa para grandes investimentos.

AICEP Global Parques

Ao ECO/Local Online, a AICEP Global Parques, gestora da Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS) realça, entre os atuais “residentes”, o projeto da Alba, da Repsol (polímeros) e a expansão da única refinaria da Galp, com “foco na produção de hidrogénio verde e no investimento em combustíveis avançados, incluindo biocombustíveis (HVO) e soluções sustentáveis para a aviação (e-SAF)”, conforme descreve a agência pública.

Reserva petrolífera estratégica nacional localizada na refinaria da Galp em SinesHugo Amaral/ECO

Por seu lado, a Start Campus, recém-chegada a Sines, à boleia da atracagem do primeiro cabo submarino, tem em curso um segundo pavilhão, numa expansão que poderá atingir perto de dez mil milhões de euros de investimento. Conforme salienta a AICEP Global Parques, o data center “posicionou a região no radar internacional dos grandes operadores de infraestruturas digitais, num momento em que se verifica uma procura crescente por áreas com capacidade para acolher data centres de grande escala, suportados por disponibilidade energética, conectividade internacional, integração logística e condições de expansão a longo prazo”.

Com a concretização desta leva de investimento desde início desta década, e com um atraso generalizado nas infraestruturas e construção de habitação apontado um pouco por toda a região, a autoridades e empresas estucam o passo para preparar o território para os mais 20 mil milhões de euros de investimento esperado até final da década.

Centro de Negócios na ZILS em Sines, sob gestão da AICEP Global ParquesHugo Amaral/ECO

Só do lado do hidrogénio verde está em preparação “um investimento superior a 3.000 milhões de euros, com uma estimativa de criação de cerca de 1.000 postos de trabalho, entre postos de trabalho diretos e emprego temporário associado à fase de construção, reforçando o papel estratégico do território na transição energética e na descarbonização da economia”, realça a AICEP Global Parques.

No topo desta onda surfa a Start Campus, que, assim os clientes acorram a este centro de dados, explica o seu diretor de operações, poderá ter quatro edifícios erguidos até final da década. O segundo edifício começará a ser ocupado no final de outubro e estará concluído no início de 2028. Para o terceiro edifício, “depende se fechamos contratos com clientes ou não. Não vamos construir um edifício de 2.000 milhões sem um contrato. Acreditamos que, se as coisas correrem conforme esperamos, estamos a apontar para setembro de 2028 esse edifício, o Sines 04, e o final desse edifício será em novembro de 2028”.

A força de trabalho esperada nesta vaga industrial e de empresas digitais é uma faca de dois gumes. Ao ECO/Local Online, os autarcas dos dois concelhos assumem um mínimo de 7.000 pessoas, a que, expectavelmente, se juntarão famílias, elemento adicional para a pressão habitacional que já leva os preços de venda para um patamar de 5.000 euros por metro quadrado, conforme realça Álvaro Beijinha, edil de Sines. E que, como o ECO/Local Online verificou junto de imobiliárias nos dias de reportagem na região, chegam aos 2.000 euros por T2 e 2.500 euros por um T3 – com muitos proprietários a darem indicação aos consultores imobiliários para escolher apenas empresas para inquilinos.

Habitação em construção em Sines, um cenário muito concentrado num bairro em específicoHugo Amaral/ECO

Para as empresas locais, a AICEP Global Parques assegura que “este movimento terá um impacto muito significativo não só no tecido empresarial da região, como também a nível nacional, promovendo o aparecimento de novas empresas, fornecedores especializados, serviços técnicos e atividades complementares ligadas às cadeias de valor industriais e energéticas”. Ainda assim, para já, e segundo diz ao ECO/Local Online o presidente da Associação Empresarial de Sines, Hugo Ferreira, as empresas da região não estão a colher os devidos frutos, com os grandes investimentos a chegarem já em formato de chave na mão.

No emprego, a agência pública prevê “uma evolução relevante, com uma crescente procura de perfis blue-collar e qualificados, nomeadamente nas áreas da engenharia, energia, manutenção industrial, automação, logística, digitalização e tecnologias ambientais”. Mas, está a região preparada? A própria agência realça ao ECO/Local Online que “o desafio passa agora por continuar a preparar o território para responder à escala e à ambição dos investimentos que estão a chegar”.

Luís Rodrigues, Chief Operating Officer da Start CampusHugo Amaral/ECO

A água e a energia são dois pontos ainda em aberto, desde logo nas fontes. Aquele que é expectavelmente o maior consumidor, a Start Campus, está “a trabalhar com a EDP para criar mais energia renovável em Portugal e garantir que toda a energia que vamos consumir está a ser produzida por um projeto” com a elétrica. O local de geração desta energia renovável será onde a EDP entender, explica Luís Rodrigues. “Não precisa de ser naquela zona, pode ser noutras zonas. Eles é que são os experts no desenvolvimento de energias renováveis, cabe a eles fazer esse assessment. Já na água, o diretor de operações da Start Campus promete que “no momento em que tivermos água do mar, não pôr nenhuma pressão em termos de consumo de água na comunidade”. E explica:

"A água que entra, água do mar, é a que sai. Não existe consumo, não existe evaporação, sai é um bocadinho mais quente. Quando o projeto estiver todo construído, será equivalente à central termoelétrica, que é, no máximo três graus a 30 metros da descarga. Era o que estava antes, não existe nenhum consumo”

Contudo, ainda falta um passo importante, a chegada dos direitos da água, que para já envolvem um litígio entre a EDP e a Águas de Santo André, entidade pública do grupo Águas de Portugal. Em causa, está, como noticiou o Observador, quem é o titular da infraestrutura que, durante quatro décadas, trouxe e levou água do mar entre a zona da praia de São Torpes e a central termoelétrica. Um processo que habituou os locais a um mar mais quente. Contudo, desligado o “esquentador de São Torpes”, EDP e Águas de Santo André reclamam a propriedade.

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