Ysium de Famalicão ‘afina mira’ da ótica para a defesa, aeroespacial e mobilidade

Dos estabilizadores para o tanque de guerra Leopardo 2 às miras telescópicas para armas de snipers, e componentes para satélites, como o Galileo, a Ysium direciona mira para os EUA e Alemanha.

No chão de fábrica da famalicense Ysium – Soluções de Engenharia Avançada, o ruído das máquinas CNC (Controlo Numérico Computadorizado) é uma constante, em sintonia com os movimentos dos braços robóticos mecânicos, onde tudo é medido, calibrado e repetido com rigor absoluto. Por aqui trabalha-se à micra e não há margem para erro quando os trabalhadores especializados montam e controlam, com precisão, a qualidade das miras telescópicas para as armas usadas por snipers ou do estabilizador da cápsula direcional do tanque militar Leopard 2.

Estas são algumas das peças inovadoras que saem da linha de produção da Ysium diretamente para grandes indústrias, sobretudo dos mercados alemão e norte-americano, como conta o CEO Hugo Freitas, enquanto nos mostra os dois componentes militares em exposição numa mesa colocada na entrada da unidade industrial.

Ao guiar-nos pela linha de produção da fábrica, o engenheiro de materiais vai desfiando como, em 2017, “arriscou” produzir os componentes militares na antiga unidade industrial da Leica, em Vila Nova de Famalicão. Na altura, Hugo Freitas viu na indústria da defesa uma janela de oportunidades e um nicho ainda por explorar no país.

Percebemos que havia ali um nicho pouco explorado e com défice de oferta. Investimos antes de a procura disparar”, recorda ao ECO/Local Online durante uma visita à fábrica, no âmbito do roteiro “Famalicão Created IN”.

Passados nove anos, assegura, a aposta na área da defesa revelou-se certeira e o investimento de seis milhões de euros nos últimos nove anos também. Prepara-se para investir este ano 1,5 milhões de euros só na área de componentes militares.

Ysium, em Vila Nova de Famalicão

Quando decidiu apostar neste nicho de mercado, o empresário já contava na bagagem com know-how “suficiente” em microprecisão e mecânica avançada. Desde 2014 que já produzia componentes para o setor da ótica para a Leica, na sequência de um desafio lançado pela multinacional germânica. “A Leica lançou o desafio de nos tornarmos um fornecedor de referência. Havia uma necessidade clara: fornecedores que entendessem a linguagem da qualidade absoluta”, lembra o engenheiro de materiais que chegou a liderar o departamento de mecânica da multinacional.

O desafio da Leica foi o clique que Hugo Freitas precisava para lançar a empresa Ysium com um capital inicial de meio milhão de euros. “Fazíamos os produtos típicos óticos, desde peças para objetivas e para máquinas fotográficas. Ainda não tínhamos maquinação de CNC”, explica perante o olhar curioso do presidente de câmara de Famalicão, Mário Passos.

O estabilizador da cápsula direcional do tanque militar Leopard 2, pousado na mesa que serve de montra dos componentes em produção, captou a atenção do autarca. Mário Passos pega na peça, pesa-a na mão e aproveita a ocasião para questionar o empresário sobre o seu funcionamento.

Hugo Freitas responde com precisão técnica: “É um estabilizador da cápsula direcional do tanque militar Leopard 2, ou seja, o que guia a bala de 120 milímetros de diâmetro”. Traduzido por miúdos, é “o guia da bala que sai do canhão”, detalha o empresário, explicando que “é uma das peças mais complexas e de maior valor acrescentado produzidas pela empresa”. Garante depois que a Ysium é a “única” indústria portuguesa a fabricar este estabilizador e as miras telescópicas para as armas usadas por snipers.

O início da produção de componentes militares para a defesa remonta a 2017, ano em que o negócio deu o verdadeiro salto. O engenheiro começou a investir em tecnologia de ponta – grande parte proveniente do Japão –, para criar peças de elevado grau de exigência e reforçar o posicionamento da empresa num mercado internacional competitivo.

Ysium, em Vila Nova de Famalicão
Ysium, em Vila Nova de Famalicão

A Ysium foi ganhando escala à medida que diversificou as áreas de atuação e o tipo de clientes. “Fomos crescendo economicamente de forma sustentável”, salienta, lembrando que o verdadeiro ponto de viragem aconteceu em 2020, em plena pandemia da Covid-19 e num contexto económico mundial de incerteza, quando a Leica colocou à venda o imóvel. Hugo Freitas nem pensou duas vezes. Voltou a arriscar e comprou as instalações onde operava. Na altura, investiu “cerca de quatro milhões de euros entre imóvel, maquinaria e tecnologia”, contabiliza.

Passados seis anos, o gestor admite: “Foi mais um ato de loucura da minha parte, mas a realidade é que o ano de 2020 foi a rampa de lançamento para o que a empresa é hoje. Começámos a assinar contratos com outros clientes para fazer peças de valor acrescentado. Sempre fugi desse nicho de negócio de ser mais um no mercado.”

O resultado está à vista: “Este ano prevemos faturar mais de 10 milhões de euros nas várias áreas de negócio, que, além de componentes de microprecisão para a defesa, incluem ainda o setor aeroespacial, da ótica, mobilidade ou meteorologia”.

São peças muito complicadas, de elevado valor acrescentado, porque exigem um grau de precisão e dimensional muito apertado, com tolerâncias de 10 micras, o que implica um rigor extremo.

Hugo Freitas

CEO da Ysium – Soluções de Engenharia Avançada

Passando em revista a história do negócio que criou em 2014, o gestor considera ganha a aposta na “inovação”, assim como na automatização e no detalhe manual para não haver qualquer margem de erro na produção das peças. “É esse equilíbrio que faz a diferença” num processo em que cada etapa nas linhas de produção é afinada com detalhe, desde a fresagem aos tratamentos de superfície, como polimentos, oxidações ou gravações, até à montagem e embalamento.

É neste ambiente de alta tecnológica e precisão que os colaboradores trabalham uma vasta gama de materiais, que vão desde o titânio ao aço inox ou latão. E validam cada detalhe das peças como se cada uma delas fosse única para que nada falhe.

Num mercado global, onde a concorrência é constante e sem fronteiras, a Ysium posiciona-se como parceira e não apenas fornecedora: “Tentamos dar uma solução chave na mão. Só assim conseguimos acrescentar valor aos nossos produtos”.

Hugo Freitas orgulha-se de ter arriscado criar “peças para visão noturna, miras telescópicas para tiro, balística e binóculos”, como conta ao ECO/Local Online. “São peças muito complicadas, de elevado valor acrescentado, porque exigem um grau de precisão e dimensional muito apertado, com tolerâncias de 10 micras, o que implica um rigor extremo, desde o processo produtivo até ao tratamento de superfície e acabamentos, à medição final e avaliação estética”, descreve depois o engenheiro.

Ysium, em Vila Nova de Famalicão
Ysium, em Vila Nova de Famalicão, produz o estabilizador da cápsula direcional do tanque militar Leopard 2.SP/ECO 24 abril, 2026

Em paralelo, a empresa produz peças para a indústria aeroespacial, incluindo componentes integrados em satélites como o Galileo colocado em órbita. Também aqui a exigência é elevada para vingar num mercado competitivo, combinando tecnologia de ponta com o trabalho manual e preciso dos colaboradores. O detalhe e minúcia fazem a diferença.

Atualmente, Hugo Freitas emprega 70 pessoas às quais dá formação dentro de portas, para garantir os parâmetros de exigência técnica e estética que caracterizam as peças que fabrica. Na Ysium o salário mais baixo ronda os mil euros para conseguir reter o talento que entretanto formou. Ora, as melhores condições salariais para trair a mão-de-obra são de louvar para o presidente da Câmara de Famalicão, manifestando-se igualmente satisfeito com “o bom exemplo de know-how tecnológico” da empresa que gera valor para a economia local e nacional” e contribui para que “o concelho tenha um ecossistema diferenciador“.

Acresce, aponta Mário Passos já no final da visita, a inovação e o empreendedorismo da Ysium ao “transformar a indústria numa opção pelo valor acrescentado, altamente especializada, com aposta na inovação e forte vocação exportadora”.

Ysium, em Vila Nova de Famalicão
A Ysium produz o estabilizador da cápsula direcional do tanque militar Leopard 2

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