Municípios do interior do país apostam nas praias fluviais e captam investimento privado e receitas

Com paisagens de cortar a respiração e chamariz de turistas, as praias fluviais estão a captar cada vez mais investimento municipal e privado, gerando receitas, dinamismo na economia local e emprego.

As praias fluviais de águas límpidas e cristalinas tornaram-se muito mais do que simples áreas convidativas a mergulhos na época estival. Os municípios já perceberam o potencial turístico e consequente impacto económico que geram no território. E investem cada vez mais em melhores infraestruturas de apoio e na criação de estações náuticas, enquanto “refúgios climáticos” e motores de desenvolvimento, para abrir o apetite a novos investidores em hotelaria e restauração que depois geram emprego.

De norte a sul do país, as regiões ganham, assim, um novo fôlego com toda a dinâmica económica gerada em torno da afluência de milhares de veraneantes a estas zonas balneares de água doce. Estes territórios transformam-se nos epicentros de uma rede de turismo rural e atividades aquáticas que não funciona apenas na época estival, mas que se mantém operacional durante todo o ano, contrariando a sazonalidade turística das praias fluviais.

Os municípios viram aqui uma janela de oportunidades para alavancar a economia, e lançam charme aos empresários para que se instalem com negócios náuticos, de hotelaria e restauração no território. Como acontece em Alandroal com a praia fluvial das Azenhas D’El Rei, numa das margens da albufeira de Alqueva – o maior lago artificial da Europa –, que resultou de um investimento superior a um milhão de euros, com uma parte substancial financiada pelo Turismo de Portugal.

Praia fluvial das Azenhas D’El Rei, Alandroal21 agosto, 2025

A praia fluvial deste concelho do distrito de Évora atrai milhares de banhistas que procuram ainda desenvolver uma panóplia de atividades na estação náutica certificada desde 2023, construída no território, que surge como motor de dinamização económica e turística. “A estação náutica está a ter um efeito de atração de investimento de hotelaria e restauração assim como uma dinâmica local muito grande e acima das nossas expectativas”, começa por assinalar ao ECO/Local Online o presidente da Câmara de Alandroal.

João Grilo cita como exemplo dessa atratividade o caso de uma empresa que decidiu deslocalizar a construção de um hotel de quatro estrelas para o concelho, que estava inicialmente prevista para outra localidade do país. Além de ter impulsionado o comércio local e o mercado imobiliário que teve “um significativo aumento da procura de primeira e segunda habitação nas localidades próximas” da estação náutica. O impacto tem sido de tal forma surpreendente que o autarca socialista considera mesmo que a praia fluvial das Azenhas D’El Rei “poderia ser um caso de estudo”.

No Alentejo existem oito destas estações náuticas certificadas, espalhadas pelos concelhos de Alandroal, Avis, Mértola, Monsaraz, Moura-Alqueva, Odemira, Ponte de Sor-Montargil e Sines que “acabam por ser uma porta de entrada no destino”, e autênticos “refúgios climáticos”, detalha, por sua vez, José Santos, presidente da Entidade Regional de Turismo (ERT) do Alentejo e Ribatejo em conversa com o ECO/Local Online.

Estas são uma “espécie de hub turístico” que agrega uma oferta integrada de alojamento, restauração, atividades náuticas – como vela, passeios de barco, mergulho, remo, canoagem — e muitas outras experiências que captam a atenção dos visitantes. “Certificadas pela qualidade e ligação ao destino, as estações náuticas são o ponto de partida para partir à descoberta da excelente gastronomia alentejana, da hospitalidade única das gentes do Alentejo e da beleza única das paisagens desta região”, precisa o líder da ERT.

No futuro esta frente de Alqueva do concelho será uma enorme alavanca de desenvolvimento económico. É impactante.

João Grilo

Presidente da Câmara Municipal de Alandroal

Razões de sobra para o autarca João Grilo estar confiante de que, “no futuro, esta impactante frente de Alqueva do concelho de Alandroal será uma enorme alavanca de desenvolvimento económico”. O município aposta, por isso, as fichas na valorização das áreas junto à água como forma de atrair visitantes, investidores privados e novos residentes, criando riqueza e emprego na região. E deverá lançar até ao final deste ano a obra do centro náutico de Juromenha com piscina ecológica e área de lazer, num investimento superior a um milhão de euros, financiado em cerca de 300 mil euros pelo Turismo de Portugal, segundo avança.

Este projeto contempla ainda a construção do ancoradouro, rampa para barcos, zona de lazer, parque de merendas, balneários, estacionamentos e acessos, além de restaurante e área para animação turística.

Praia Fluvial da Amieira

João Grilo crê mesmo que Alandroal não será caso único de sucesso. “Acreditamos que este fenómeno de atratividade não deve ser exclusivo da nossa praia”, mas sim, extensível a todas as zonas balneares do Alqueva. O presidente da ERT do Alentejo e Ribatejo, dá-lhe razão, indicando que “nas praias mais recentes associadas ao Alqueva, [constata-se] um crescimento turístico de portugueses, espanhóis e franceses muito substantivo e fundamental para toda a economia turística da região”.

Além da zona balnear de Alandroal, José Santos elenca as praias do Lago (na Estação Náutica de Moura – Alqueva), e as de Alqueva e da Amieira, no concelho de Portel (distrito de Évora). Ainda recentemente, o município de Portel inaugurou a praia de Oriola, na barragem de Alvito, também conhecida por Albergaria dos Fusos, num investimento de quase meio milhão de euros, financiado pelo programa Linha + Interior Turismo, do Turismo de Portugal.

Para o presidente da ERT, não restam dúvidas de que as praias fluviais “são os grandes chamarizes desse aumento de turistas, especialmente nestes meses de verão”. Só no Alentejo e Ribatejo, contabiliza, há 18 praias fluviais e um grande número delas hasteia bandeira azul, havendo ainda casos como a Albufeira da Tapada Grande (Mértola), Amieira (Portel), Mourão (concelho de Mourão) e de Monsaraz (Reguengos de Monsaraz) que ostentam o galardão “Praia com Qualidade de Ouro Quercus”.

Nas praias mais recentes associadas ao Alqueva, [constata-se] um crescimento turístico de portugueses, espanhóis e franceses muito substantivo e fundamental para toda a economia turística da região.

José Santos

Presidente da Entidade Regional de Turismo (ERT) do Alentejo e Ribatejo;

Autênticos tesouros de água doce, estes espaços de lazer atraem, assim, mais visitantes como alternativa as praias do litoral, impulsionam o turismo local e geram receitas para as comunidades onde estão inseridas, além de criarem emprego. “O impacto económico é visível [nas regiões]. Estimamos que só as praias fluviais nos concelhos de Alandroal, Mourão, Reguengos de Monsaraz, Portel e Moura tenham sido responsáveis pelo aumento em cinco a 10% da ocupação hoteleira nos últimos dois anos”, calcula o líder da ERT do Alentejo e Ribatejo, salvaguardando, contudo, não ter na sua posse dados que atestem uma correlação direta entre as praias fluviais e o desempenho turístico da região.

“Consideramos que há um aumento do negócio turístico e as praias têm ajudado muito ao desenvolvimento do turismo do interior.” Nem que seja pelo crescente número de operadores marítimo-turísticos que vão surgindo “à medida que as estações náuticas se desenvolvem e as câmaras municipais vão construindo ancoradouros, equipamentos de apoio e zonas de guarida das embarcações”, assinala José Santos.

Alcanena investe 1 milhão de euros em Olhos d’Água do Alviela

Há, por isso, cada vez mais municípios a construir ou a requalificar as praias fluviais para reforçar a atratividade turística e valorizar o património natural por forma a afirmar o concelho como destino de excelência e captar fluxos turísticos. Como é o caso da Câmara de Alcanena (distrito de Santarém) que em 2026 vai investir um milhão de euros na praia fluvial dos Olhos d’Água do Alviela, que somam aos 600 mil euros injetados nos últimos dois anos numa intervenção com vista à valorização deste património e construção de um parque de estacionamento para disciplinar a afluência de trânsito.

Praia fluvial dos Olhos d’Água do Alviela, Alcanena21 agosto, 2025

“Vamos repensar um pouco o espaço da praia, renaturalizar algumas partes das margens do rio e criar melhores condições de usufruto” desta zona balear, detalha o presidente do município de Alcanena, Rui Anastácio, de olhos postos na atratividade deste ativo turístico que quer colocar no mapa nacional e internacional.

Considerada “um dos cartões de visita do concelho de Alcanena”, a praia fluvial dos Olhos d’Água do Alviela é uma das 29 praias fluviais da região Centro que conquistaram este ano bandeira azul símbolo de qualidade e excelência, e para a qual o autarca Rui Anastácio anseia conquistar o título de praia acessível em 2026.

Situada a pouco mais de uma hora de Lisboa, esta zona balnear “é uma das principais entradas do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), recebendo milhares de visitantes todos os anos” que geram significativas receitas na região, nota.

Com a afluência à praia a aumentar, nota-se o impacto económico com receitas para o comércio, restauração e alojamento. Há vários projetos turísticos privados que estão a avançar no concelho.

Rui Anastácio

Presidente da Câmara Municipal de Alcanena

“Com a afluência à praia de Olhos d’Água do Alviela a aumentar, nota-se o impacto económico com receitas para o comércio, restauração e alojamento. Há também vários projetos turísticos privados que estão a avançar no concelho”, indica o autarca social-democrata, sem adiantar mais pormenores.

Segundo a Turismo Centro de Portugal, 29 das 50 praias interiores galardoadas com bandeira azul localizam-se em municípios do Centro de Portugal. “Um dado que confirma o estatuto da região como o principal destino nacional de turismo de natureza e de águas interiores”, destaca esta entidade.

Albufeira do Azibo gera 4 milhões de euros no verão

Mais a Norte, o município de Macedo de Cavaleiros apostou na construção de um centro náutico, situado na praia da Fraga da Pegada, para reforçar o posicionamento da albufeira do Azibo como destino de excelência para o turismo náutico e alavancar ainda mais a economia local. Custou quase meio milhão de euros, grande parte da verba suportada por fundos europeus, segundo adianta o autarca Benjamim Rodrigues.

Albufeira do Azibo, Macedo de Cavaleiros21 agosto, 2025

O presidente da Câmara de Macedo de Cavaleiros tem planos ambiciosos para esta estação náutica na Albufeira do Azibo que quer colocar no mapa nacional e internacional do turismo náutico e até de desporto de alta competição, como a vela, o remo, a canoagem ou o windsurf. “O espaço poderá ser aproveitado para estágios das seleções nacionais, dado que está dotado de todas as condições em águas tranquilas e sem o receio de correntes ou ventos”, sublinha Benjamim Rodrigues.

Está confiante no sucesso da infraestrutura a julgar pelos investidores privados que já estão de olho no espaço para abrir negócio, nomeadamente “alguns operadores de embarcações turísticas, a funcionar a energia solar, que se querem instalar no terreno”, avança o autarca social-democrata.

O espaço poderá ser aproveitado para estágios das seleções nacionais, dado que está dotado de todas as condições em águas tranquilas e sem o receio de correntes ou ventos.

Benjamim Rodrigues

Presidente da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros

Espera que a infraestrutura “potencie uma subida no número de visitantes, inclusive em época baixa”, impulsionando a economia local que durante o verão sente os efeitos positivos da afluência dos banhistas. Benjamim Rodrigues calcula que o setor da restauração, alojamento – com cerca de mil camas disponíveis – e do comércio — por exemplo, com a venda de produtos endógenos como azeite — fature um total de quatro milhões de euros entre a segunda quinzena de julho e o mês todo de agosto deste ano.

As praias Fraga da Pegada e da Ribeira – esta última foi em 2012 reconhecida como uma das “7 Maravilhas Praias de Portugal” — hasteiam bandeira azul desde 2004 e 2010, respetivamente. A afluência tem aumentado de tal forma que o município sentiu necessidade de instalar pórticos para evitar a sobrecarga humana e de veículos no espaço.

Praia da Ribeira, Macedo de Cavaleiros21 agosto, 2025

Braga cria rede de praias fluviais acessíveis e de excelência

Mais a Norte do país, a Câmara de Braga avançou este ano com a requalificação da praia fluvial de Cavadinho, junto ao rio Cávado, na freguesia de Crespos, reforçando a estratégia de valorização do património natural e cultural da região. Com um custo de 850 mil euros, cofinanciado pelo programa Norte 2030, a empreitada já valeu bandeira azul a esta zona balnear minhota.

Com encostas arborizadas, e elementos do património rural como azenhas e campos agrícolas, este espaço ganhou agora um parque de estacionamento, um bar de apoio, um largo de acolhimento e acessos qualificados à zona de banhos.

Esta intervenção surge no âmbito de uma estratégia municipal mais ampla de criação de uma rede de praias fluviais acessíveis e de excelência, que inclui as praias de Merelim São Paio, Adaúfe e Ponte do Bico – estas duas últimas também hasteiam bandeira azul.

“Queremos continuar a valorizar as margens do rio Cávado e a criar espaços que promovam o bem-estar dos cidadãos, reforçando a imagem de Braga como um destino turístico de excelência em várias áreas”, salienta Ricardo Rio, presidente desta autarquia minhota, satisfeito com o sucesso que estas áreas de lazer estão a ter.

Um pouco por todo o país o modelo de requalificação e construção de praias fluviais parece estar a resultar com o convite aos banhistas no sentido de estenderem a toalha no relvado ou no areal, mergulharem nas águas cristalinas e aproveitarem a oferta de toda uma panóplia de atividades náuticas disponíveis. E não só. Deixam um significativo contributo para a dinâmica económica da região.

Praia Fluvial do Cavadinho Sérgio Freitas/CM Braga 21 agosto, 2025

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