Comporta, nem oito nem oitenta

O ruído que se ouve contamina o bom senso e perturba o futuro de uma região e de um concelho fartos de ver tantos, há tanto tempo, a “brincar aos pobrezinhos”.

A Comporta desperta paixões. Está na ribalta e merece destaque na imprensa estrangeira, é destino de férias de muitas figuras do “jet set” internacional e consegue atrair milhares de milhões de euros de investimento direto, não apenas nacional, mas também estrangeiro que tanta falta faz ao país e à região. Em Portugal, o fenómeno Comporta também não passou despercebido – na mesa do café, aos jantares com amigos ou mesmo nas reuniões de trabalho, muitos opinam sobre o tema. Todavia, durante estas discussões é invariavelmente esquecido um ponto: Esta zona do país tem um problema estrutural que não é muito diferente de outras regiões – chama- se pobreza.

Economia baseada numa agricultura de subsistência, pouca indústria e serviços, algum turismo e elevadíssima sazonalidade. Portanto, sem grande surpresa, o concelho de Grândola perdeu cerca de 7% da população (2011-2021) e está cada vez mais envelhecido pela baixa natalidade e pelo facto de os mais jovens terem de partir por falta de oportunidades (Grândola tem a taxa mais elevada de alunos que reprovam ou desistem dos estudos na região).

De alguma forma, esta visão que tem prevalecido e que alguns parecem pretender manter, permitiu que Grândola entrasse num verdadeiro ciclo de pobreza.

Nos últimos 30 anos, com o referido êxodo populacional e parcas condições de trabalho, apenas algumas pessoas, porventura mais privilegiadas, conseguiram construir as suas casas (de férias, invariavelmente), muitas vezes a roçar o disposto na lei e utilizando métodos construtivos sem grande preocupação com o meio ambiente. Durante este período, as célebres dunas, que agora geram revolta e indignação, eram apenas um atalho para chegar à praia de Ranger Rover e moto4… e conseguir licenciar uma casa o mais próximo possível da linha de água era motivo de orgulho, sem que ninguém questionasse os pressupostos legais de tal aberração. Paralelamente, verificou-se um verdadeiro flagelo relativamente às pequenas quintas de “turismo” transvertidas em habitação, sem controlo de quem devia identificar esse abuso. Curiosamente, muitas dessas pessoas são as vozes que agora se levantam contra o desenvolvimento sustentável e ordenado da Comporta.

Hoje, o que se perspetiva para a Comporta é bem diferente. Os projetos imobiliários em construção estão sob um enorme e desejável escrutínio – dos financiadores dos projetos, às autoridades locais, agências do ambiente, passando pelos ambientalistas e, quando tudo falha, os órgãos de comunicação social cumprem sempre o seu papel. São estas condições que atraem investidores profissionais e preocupados com questões sociais e ambientais.

Contudo, não devemos cair na tentação da crítica gratuita, ainda que por vezes bem- intencionada, de promover uma perceção que poderá ultrapassar a realidade.Não é verdade que a Comporta ficará igual ao Algarve; que o betão irá substituir o verde; que a larga maioria dos comerciantes locais e população ativa são contra o investimento na região; que não há soluções para os problemas da água e da sazonalidade e que haverá uma elevada taxa de construção – muito pelo contrário.

Há soluções social e ambientalmente sustentáveis e responsáveis que estão a ser trabalhadas, também tendo como base aquilo que tem sido transmitido e partilhado pelas comunidades locais. E tem havido a preocupação de comunicar aberta e devidamente as opções e soluções que já estão ou irão ser adoptadas. Nunca em Portugal se viu tanto investimento por parte de promotores imobiliários em soluções de desenvolvimento sustentável.

Pela primeira vez na história do nosso país, teremos toda uma região que vai apostar no turismo e no segmento residencial, ambos de valor acrescentado. Há anos que este caminho é defendido como a solução para evitar os erros cometidos, sobretudo a sul, com centenas de empreendimentos construídos sem qualidade, que promoveram um turismo de massas, com direito a esplanadas destruídas e aeroportos sobrecarregados com voos “low-cost”.

Perante este cenário, é caso para dizer que na Comporta estamos no caminho certo.

Mas não nos equivoquemos: Obviamente que há inúmeros desafios pela frente. O concelho de Grândola deve atacar as causas do atual ciclo da pobreza e investir cada vez mais no crescimento sustentável, na protecção da qualidade do ambiente e na promoção do bem-estar com melhor qualidade de vida. A região precisa de crescer e rumar ao equilíbrio, uma vez que não pode ficar no actual oito, nem passar para o oitenta. A Comporta merece ser promovida e defendida de forma séria, responsável e informada e, principalmente, que todos sejam parte da solução.

O ruído que se ouve contamina o bom senso e perturba o futuro de uma região e de um concelho fartos de ver tantos, há tanto tempo, a “brincar aos pobrezinhos”.

  • Colunista convidado. Director de Comunicação da Vanguard Properties

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