Um mar de oportunidades e um oceano de desafios

Portugal recebeu a primeira tranche do PRR. Até ao final do ano chegará uma segunda que ajudará ao lançamento de reformas tão urgentes como necessárias… Porquê o ceticismo sobre o impacto do PRR?

Enquanto muitos portugueses aproveitavam os dias de sol de Agosto para fintar a pandemia e recuperar algumas das energias perdidas ao longo do último ano, muitos empresários dedicaram parte do seu tempo a fazer contas e mais contas para entender como vão gerir as suas empresas num Inverno que se adivinha difícil e incerto.

Apesar do optimismo que o senhor Ministro das Finanças procurou transmitir recentemente sobre o futuro, a verdade é que existe um enorme cepticismo (confirmado pelos estudos de opinião publicados nas últimas semanas), relativamente à recuperação e resiliência da economia portuguesa, tanto no que resta de 2021, como durante os anos de 2022 e seguintes.

Esta dissonância é, no entanto, perfeitamente explicável, se pensarmos que nos cofres do Estado português já “mora” a primeira tranche dos fundos do PRR (e que até já se contam os dias para a chegada da segunda), enquanto os empresários vivem encurralados entre um desconfinamento que ainda não é total e segue incerto, uma expectativa de fim das moratórias a concretizar nas próximas semanas, e uma assignação efectiva dos fundos que (ainda) não chega à economia real.

De facto, não é líquido assumir que o anúncio de que quase um terço do PRR já está contratualizado com os beneficiários directos e intermediários (Governos Regionais ou Câmaras Municipais), signifique que a economia real vai sentir o impacto desses fundos, estejam eles a ser aplicados em reformas estruturais da Administração Pública, na recapitalização de empresas ou a financiar projectos empresariais estruturantes de transformação da economia portuguesa.

Procurando, no entanto, ver o copo meio cheio, importa dizer que o governo português está a fazer um enorme esforço por agilizar os concursos, informar a opinião pública e os empresários, dar meios às autarquias e às universidades para arrancar com as iniciativas previstas no PRR… mas a verdade é que ainda não estamos lá.

Ao longo dos próximos dois meses, fruto sobretudo dos processos em curso relativos às denominadas Agendas Mobilizadoras e Agendas Verdes, muitas são as iniciativas do sector privado que vão emergir, ver a luz do dia e, se tudo correr bem, ter o crivo de apoio da estrutura de missão Recuperar Portugal, para avançar para a contratualização no início de 2022.

Tendo o privilégio de poder acompanhar de dentro algumas dessas iniciativas, cumpre-me registar o arrojo e ousadia de muitas das propostas cujo desenvolvimento está em curso, algumas das quais poderão, como se espera, ter um impacto relevante no curto e no médio prazo, com benefícios importantes para a transformação da economia do nosso país.

Porém, para chegar a bom porto, muitas destas iniciativas antecipam desde já desafios importantes que vão muito além do objectivo inicial de conseguir as verbas para o financiamento dos projectos. Destaco três desses desafios, com base na experiência de trabalho dos últimos meses:

  1. Criticidade da gestão orientada aos objectivos – a mudança das regras de reembolso promovida pela EU, que põe foco no atingimento de milestones para a libertação das verbas, por oposição à lógica histórica de pagamento contra desembolso, colocará uma pressão extrema sobre a execução das actividade e demonstração do atingimento das metas, algo que pode nalguns casos até, colocar em risco a adequada entrega dos projectos;
  2. Necessidades de financiamento complementar – relacionado com o ponto anterior, o reembolso por metas e objectivos obrigará os promotores privados a ter que recorrer a meios de financiamento dos cash-flows, para poder arrancar a execução dos programas de investimento e fazer face às actividades de maior duração, aspecto que lança enormes desafios sobre a execução e gestão financeira dos projectos;
  3. Estabilidade e governance dos consórcios – o modelo colaborativo (re)forçado por muitos dos concursos no âmbito do PRR, tem tanto de positivo como de arriscado. Forçar a associação entre empresas, universidades, unidades científicas e entidades públicas faz todo o sentido no mundo interconectado em que vivemos, mas importa ver como vão os distintos grupos agora formados ser capazes de manter a estabilidade ao longo dos contratos, governar os apoios e gerir entre si as normais dificuldades que estão associados a projectos desta complexidade.

Em suma, partilho do optimismo moderado de muitos relativamente aos próximos 18 meses, e acredito que existe efectivamente um mar de oportunidades à nossa frente. Desafio a lógica dos cépticos que querem fazer crer que o PRR não terá impacto relevante na recuperação da economia portuguesa. Mas reconheço que para além do mar de oportunidades há um oceano de desafios que ainda nos irão dar a todos muitas dores de cabeça e noites sem dormir. Venham elas! Cá vos esperamos!

Os pontos de vista e opiniões aqui expressos são os meus e não representam nem reflectem necessariamente os pontos de vista e opiniões da KPMG Portugal.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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