Luxo

De segunda mão a primeira escolha: o fenómeno da revenda de luxo

Rita Ibérico Nogueira,

O luxo está a mudar. Com o mercado de segunda mão a crescer a um ritmo recorde, plataformas como a Fashionphile lideram uma revolução onde exclusividade, sustentabilidade e investimento se encontram.

Nos últimos anos, o mercado de luxo em segunda mão deixou de ser um nicho para se tornar um dos segmentos de crescimento mais rápido dentro da indústria de bens de luxo. Com uma valorização global estimada em mais de 50 mil milhões de dólares, este setor atrai cada vez mais consumidores que procuram exclusividade, sustentabilidade e investimento em peças intemporais. Empresas como a Fashionphile, fundada em 1999, estão na vanguarda desta revolução, redefinindo a forma como se compram e vendem artigos de luxo.

A origem e evolução da Fashionphile
Criada por Sarah Davis como uma pequena operação no eBay, a Fashionphile rapidamente cresceu e se tornou uma referência em revenda de artigos de luxo nos Estados Unidos. Em 2006, a empresa estabeleceu a sua própria plataforma, investindo num sistema de autenticação rigorosa e num processo de compra facilitado. No fundo, trata-se de uma empresa tecnológica com a missão de tornar as marcas mais cobiçadas do mundo mais acessíveis, quebrando as barreiras do luxo tradicional.

O grande salto aconteceu em 2019, quando a Neiman Marcus adquiriu uma participação maioritária na empresa, tornando-se a primeira grande department store a investir diretamente no mercado de luxo em segunda mão. Com isto, os clientes passaram a poder vender as suas peças diretamente nas lojas Neiman Marcus, revertendo o valor obtido em novas compras.

A expansão da Fashionphile não parou por aí. A marca implementou um sistema avançado de avaliação e definição de preço, utilizando inteligência artificial para determinar o valor de mercado das peças com base em procura, condição e raridade. Além disso, reforçou os seus centros de autenticação e logística, garantindo um serviço eficiente e seguro para compradores e vendedores.

De acordo com a própria Fashionphile, que celebrou no ano passado 25 anos de atividade, acrescentando ao seu portefólio marcas como Khaite, The Row, Jacquemus, Phoebe Philo, Chrome Hearts, Rimowa, Loro Piana e Tag Heuer, os números não mentem: em 2023, o mercado global de produtos usados ​​foi estimado em 197 mil milhões de dólares. A projeção é que este valor aumente cerca de 100 mil milhões de dólares até 2026. Mas com esta escala maior surge uma série maior de desafios, como carteiras de designer ‘super falsas’ ou imitações que podem ser difíceis de distinguir das originais.

Este fluxo de falsificações convincentes — algumas das quais atingem preços de quatro dígitos — ocorre depois de as casas de luxo terem aumentado os seus preços nos últimos anos, levando os compradores a procurar réplicas de alta qualidade. E dão o exemplo da carteira Jackie, da Gucci, que sofreu um aumento de preço de 30% na plataforma. Outras marcas também registaram aumentos de preços impressionantes, como a Goyard (15%), Loewe (15%), Hermes (13%), Fendi (10%), Prada (9%) e Celine (9%).

“À medida que avançamos para o próximo quarto de século, continuamos empenhados em equipar a nossa comunidade com o conhecimento e a sensibilização para fazer escolhas informadas e participar ativamente na luta contra as falsificações”, defende a marca.

No final de Janeiro, a Fashionphile anunciou que 2024 foi o seu ano mais rentável até à data, tendo alcançando um notável aumento de 67% nos lucros ano após ano.

O crescimento do mercado de luxo em segunda mão
O mercado de revenda de luxo tem registado um crescimento impressionante. De acordo com um relatório da Bain & Company, a revenda de bens de luxo aumentou a um ritmo três vezes mais rápido do que o próprio mercado primário, prevendo-se que atinja 80 mil milhões de dólares até 2030. A mudança de mentalidade dos consumidores, aliada ao impulso da economia circular, tem impulsionado plataformas como a Fashionphile, The RealReal, Vestiaire Collective e Rebag.

Comprar produtos em segunda mão, principalmente de luxo, está a tornar-se cada vez mais popular, graças à Geração Z. Esta geração está a redefinir o mercado ao dar prioridade ao impacto ambiental em todos os aspetos da vida, incluindo a revenda de luxo, que tem uma pegada climática notavelmente mais baixa. A abordagem consciente do valor da Geração Z está a transformar rapidamente a perceção do luxo em segunda mão.

A popularidade deste mercado está associada a vários fatores, nomeadamente a sustentabilidade, a exclusividade, a raridade e o investimento. O consumo consciente tem levado os consumidores a optar por artigos em segunda mão, reduzindo o desperdício e prolongando o ciclo de vida dos produtos. Sendo que, muitos artigos vendidos nas plataformas de revenda são edições limitadas ou peças descontinuadas, tornando-se verdadeiros achados para colecionadores.
O valor de algumas peças de luxo, como carteiras Hermès e relógios Rolex, pode aumentar com o tempo, levando consumidores a considerá-las ativos de investimento.

Olhando para o futuro, e de acordo com este relatório da Bain, algumas tendências devem continuar a moldar o setor:

Integração de revenda pelas próprias marcas – Mais marcas de luxo estão a explorar o mercado de segunda mão internamente, como a Gucci, que lançou o seu próprio serviço de revenda Gucci Vault. A Chanel e a Louis Vuitton também estão a testar modelos de recompra e revenda controlados.
Expansão da certificação digital – O uso de NFTs e blockchain para autenticação de produtos de luxo está a ganhar força, permitindo que os compradores tenham um histórico transparente de propriedade e autenticidade.
Personalização da experiência de compra – Plataformas de revenda estão a investir em algoritmos de recomendação mais sofisticados, oferecendo uma experiência de compra cada vez mais personalizada.
Crescimento na Ásia e Médio Oriente – Estes mercados emergentes estão a tornar-se cada vez mais relevantes no segmento de luxo em segunda mão, com consumidores chineses e do Médio Oriente a impulsionar a procura por peças vintage e raras.
Com a aceitação crescente do mercado de segunda mão, a Fashionphile e outras plataformas estão bem posicionadas para redefinir a relação dos consumidores com o luxo, combinando exclusividade, sustentabilidade e inovação tecnológica. O futuro do luxo pode já não estar apenas no que é novidade, mas também na história e na longevidade dos seus produtos icónicos.

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