PRR pouco ‘amigo’ não ajuda cidades a serem mais inteligentes

  • Fatima Ferrão
  • 16 Novembro 2021

Disponibilizar um conjunto de serviços úteis aos habitantes, otimizar recursos e antecipar necessidades são os grandes desafios das cidades inteligentes, mas, na maioria dos casos, falta dinheiro.

A falta de orçamento das autarquias é um dos grandes problemas com que a administração local se debate e que, em muitos casos, trava a inovação essencial ao desenvolvimento de projetos que transformem as cidades em ecossistemas inteligentes.

“O Governo central ainda não dá a devida atenção às cidades, desde logo com a disponibilização dos orçamentos para as autarquias”, aponta Miguel Pinto Luz. Na opinião do vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais, o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que podia ser uma oportunidade, falha em termos estratégicos. “É muito centralizado, pouco virado para as parcerias público-privadas, e não acredito que seja empregue de forma adequada”. Uma opinião partilhada pelos presidentes dos municípios do Seixal, Coimbra e Aveiro, que marcaram igualmente presença no painel de debate que abriu o Smart Cities Summit, que começou hoje e que decorre até à próxima quinta-feira, na FIL, em Lisboa.

Joaquim Santos critica, essencialmente, a falta de diálogo com as autarquias sobre a aplicação do PRR. “O Governo está a usar o PRR para suprir as suas falhas na gestão do Estado”, acredita o presidente da Câmara do Seixal. “Não temos a descentralização que é necessária”, acrescenta José Ribau Esteves, presidente da Câmara de Aveiro.

Já para José Manuel Silva, “não será com uma chuva de dinheiro que se resolvem os problemas do país”. O recém-eleito presidente da Câmara de Coimbra acredita que o problema é estrutural, de organização política, de transparência e de corrupção. “Temo que cheguemos ao fim do PRR sem capacidade para aplicá-lo e para fazer a diferença no desenvolvimento que o país precisa para o futuro”.

Aplicar a inteligência das TIC à vida urbana

Para os responsáveis dos quatro municípios, uma cidade inteligente é aquela que se preocupa com os cidadãos, antecipa as suas necessidades e procura adaptar-se através da oferta de serviços. O objetivo, diz Joaquim Santos, presidente da Câmara do Seixal, “será sempre servir melhor as populações, usando a tecnologia como um instrumento para potenciar o serviço aos cidadãos”. O projeto Seixal On, com foco nas questões da sustentabilidade e do ambiente, é disso exemplo. “Temos um living-lab para a descarbonização que já reduziu o consumo energético do município em 28%, e vamos investir sete milhões de euros na sustentabilidade ao longo dos próximos dois anos”.

O desenvolvimento da Smart City Seixal não fica por aqui. O município faz a valorização de bio resíduos, através da recolha seletiva, que depois são encaminhados para a produção de biogás e energias renováveis, e conta com a presença da Gestene, empresa que está a produzir a primeira molécula de hidrogénio verde para ser injetada na rede energética.

Já em Aveiro, exemplifica José Ribau Esteves, “tentamos dar resposta às necessidades dos cidadãos através das tecnologias e das redes que temos”. O Presidente da Câmara destaca a rede piloto 5G que a cidade está a testar, e os Living Labs, onde as empresas da região podem ensaiar as suas ideias e projetos antes de entrarem em fase de comercialização. No entanto, o município sofre da falta de talento especializado que possa contribuir mais ainda para a digitalização da cidade e das empresas locais. Um problema comum a outras regiões, e também ao país. “É preciso investir na capacitação de todos”, diz Ribau Esteves, destacando o projeto Aveiro Steam City, que visa formar para estas aprendizagens, desde tenra idade.

"Quem nos governa não está a querer reagir, e fica pela qualificação dos recursos altamente qualificados, mas isto não chega.”

José Ribau Esteves

Presidente da Câmara de Aveiro

Nas escolas do concelho, e para os diferentes níveis de ensino, existem TecLabs, que contribuem para esta capacitação. Em Coimbra, revela José Manuel Silva, a autarquia procura trabalhar de perto com as universidades e o ecossistema de inovação, “para desenvolver uma cidade inteligente e para criar as condições para a atração e retenção de talentos”.

Mas esta capacitação, diz José Ribau Esteves, tem que começar pela requalificação de recursos como, por exemplo, de desempregados. “O país tem que passar de investir no desemprego para incentivar a atividade profissional, através de políticas de emprego ativo”. Atualmente, acrescenta, “quem nos governa não está a querer reagir, e fica pela qualificação dos recursos altamente qualificados, mas isto não chega”.

“As pessoas querem trabalhar fora das grandes cidades”

O fenómeno dos nómadas digitais, que ganhou relevo ao longo da pandemia, depois da Madeira ter criado a primeira comunidade nacional dedicada aos trabalhadores remotos, foi outro dos temas em destaque no primeiro dia do Smart Cities Summit. Colocar a ilha no radar dos trabalhadores remotos foi o grande objetivo deste projeto, lançado em setembro de 2020, e que já contou com a visita de 3500 nómadas digitais. Segundo Rui Barreto, Secretário Regional da Economia do Governo Regional da Madeira e responsável pelo projeto Nómadas Digitais, o projeto superou as expectativas e tem ajudado muito a economia local. “Neste momento, a Madeira está entre os 10 destinos preferidos pelos nómadas digitais no mundo”, salienta.

Com um gasto mensal médio individual na ordem dos 1800 euros, os nómadas digitais permitem à Madeira diversificar a sua economia, muito focada no turismo e nos serviços, abrindo portas a outras atividades com impacto como, por exemplo, a economia do conhecimento. Até ao final de 2022, acredita Rui Barreto, passarão pela Ponta do Sol (a nómada village) mais de 5.000 trabalhadores remotos, com estadias médias de três a quatro meses, o que permitirá criar um ecossistema “muito propício a uma economia digital”.

Gonçalo Hall, fundador do Remote Work Movement, e outro dos convidados do painel sobre nómadas digitais no Smart Cities Summit, é um dos parceiros do projeto madeirense desde o início. Questionado sobre quais as condições para tornar um destino atrativo para estes trabalhadores, não tem dúvidas. “Internet, alojamento de qualidade, boa oferta de restauração, com enfoque na alimentação vegetariana, uma vez que 30 a 40% dos nómadas praticam esta opção, e uma aposta na criação de comunidade são os elementos-chave”, afirma. Para o também nómada digital, “não basta atrair. É preciso garantir uma experiência de qualidade”.

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