Exclusivo Apostar na conectividade na Europa é defesa contra ameaças modernas
Integrar a conectividade segura na estratégia nacional de segurança é uma das recomendações do relatório "Conectividade Segura", da Vodafone, a que o ECO/eRadar teve acesso.
“Se a Europa continuar a tratar a conectividade como um serviço básico e de baixo custo, vai estar a expor cidadãos, instituições democráticas e aliados a riscos cada vez maiores”, dar prioridade à conectividade reforça “uma das linhas de defesa mais importantes contra as ameaças modernas”, alerta a Vodafone no relatório “Conectividade Segura: O novo pilar estratégico da defesa europeia”. Integrar a conectividade segura na estratégia nacional de segurança ou reforçar a coordenação e colaboração pan-europeia entre governos e operadores são algumas das recomendações do relatório divulgado esta sexta-feira ao que o ECO/eRadar teve acesso.
Há que fazer um “investimento significativo numa conectividade pan-europeia segura”, de outro modo, a “Europa continuará vulnerável a ameaças híbridas”. O alerta da operadora de telecomunicações surge num momento geopolítico particularmente tenso — na Ucrânia a guerra com o invasor russo não dá sinais de tréguas e as relações com o aliado americano já viverem dias melhores, com o tema da Gronelândia a adensar as preocupações no Continente —, em vésperas da apresentação em Bruxelas, prevista para a próxima semana, do Digital Networks Act (DNA), documento que promete mudar o ambiente regulatório do setor das telecomunicações.
Na atualidade não faltam sinais de que a conectividade está na ordem do dia. Na quinta-feira a Polónia acusou Rússia de ciberataque para provocar apagão no país e, no início do ano, a Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, alertava que a “infraestrutura crítica” do bloco permanece sob “alto risco de sabotagem”, após um cabo submarino de comunicações no Mar Báltico, que liga a Finlândia à Estónia, ter sido rompido, num ato que se suspeitou malicioso e intencional.
Nada que surpreenda, dada a sua importância vital nas comunicações. “Cabos submarinos, estações de amarração, rotas terrestres de fibra, mastros de telecomunicações móveis e centros de dados são alvos atrativos. Atualmente, 97% dos dados do tráfego global da internet percorrem cabos submarinos, transportando cerca de 8,5 mil milhões de euros em transferências financeiras diárias”, pode ler-se no relatório, lembrando que há três Estados-Membros europeus — Irlanda, Malta e Chipre — que “dependem inteiramente dos cabos submarinos para a sua conectividade”. Por ano, “os sistemas de cabos registam entre 150 e 200 avarias, mesmo sem ação hostil. Por tudo isto, a redundância, a reparação e os locais de amarração são de extrema importância”, reforça.

O certo, é que ameaças como ciberataques, sabotagem de infraestruturas e campanhas de desinformação dirigidas às instituições democráticas se tornaram frequentes. Só em 2025, os ataques cibernéticos globais aumentaram 21%, e, entre 2023 e 2024, tendo o International Institute for Strategic Studies registado “um crescimento de 246% nas operações de sabotagem russa contra infraestruturas críticas europeias”, destaca o relatório.
A Europa tem vindo a alocar orçamentos para a Defesa — só 150 mil milhões são para o programa de empréstimo SAFE que viu esta semana aprovados pela Comissão Europeia os primeiros de oito países, entre os quais a fatia de 5,8 mil milhões para Portugal —, mas também em infraestruturas digitais, incluindo inteligência artificial, computação quântica e comunicações seguras.
Há um reconhecimento de que a “segurança europeia é indissociável das infraestruturas que sustentam as suas economias e sociedades. Neste contexto, assegurar uma conectividade segura — e uma infraestrutura de telecomunicações que a suporta — será decisivo para transformar ambição em capacidade efetiva“, argumenta a Vodafone.
“As forças armadas modernas dependem de telecomunicações seguras e de elevada capacidade para operações de comando e controlo, logística e recolha de informação”, destaca o relatório, suportando-se no estudo do Chatham House sobre os sistemas de comando, controlo e comunicações da NATO, que refere que “a comunicação constitui um dos três pilares de qualquer estratégia de dissuasão” e, qualquer interrupção nas redes de comunicação tem “implicações sérias na capacidade de exercer comando e controlo”.
Os ensinamentos da Ucrânia
Nesse campo, os quatro anos de guerra na Ucrânia são um estudo de caso. Não só da relevância das comunicações na manutenção da prontidão do país, mas também como estas são visadas pela Rússia para desestabilizar o esforço de combate à invasão. “Desde o início da invasão, a Rússia procurou desativar as redes ucranianas através de ataques físicos, ciberataques e guerra eletrónica”, lembra o relatório.
Vários fatores contribuíram para a resiliência da rede de comunicações do país. Por um lado, a diversidade e redundância. “As redes na Ucrânia recorreram a múltiplas tecnologias, rotas e fornecedores, incluindo conectividade móvel, fixa, por cabo submarino e satélite. Isto permitiu criar caminhos alternativos para restaurar a conectividade em poucas horas sempre que havia danos na rede”, refere o relatório.

A reconfiguração rápida da rede foi igualmente “crítica”, com a instalação de gerados e estações base alimentadas por energia solar, mantendo 90% dos sites (da Vodafone local) operacionais durante os apagões; mas também a junção de esforços e “diálogo regular” entre entre governo e operadores privados — o que “permitiu respostas rápidas e coordenadas a incidentes, bem como a distribuição de informação verificada por SMS, ajudando a combater os riscos de desinformação durante a guerra” —, uma regulação ágil — com as autoridades a facilitar “o uso de espectro de emergência, o roaming e a rápida implementação de infraestruturas temporárias” —, a proteção cibernética e inovação. Nesse tema, a operadora destaca a criação de um novo laboratório de I&D, fruto da parceria entre a Vodafone Ucrânia e a Universidade Nacional de Aviação da Ucrânia, focado em 5G, cibersegurança, sistemas de drones e comunicações móveis espaciais.
Colocar a conectividade na prioridade de segurança
Mas, a “garantia de uma conectividade segura não deve ser da exclusiva responsabilidade dos operadores”, aponta o relatório. Há que criar um “enquadramento político que promova o investimento a longo prazo na segurança, a inovação e a colaboração com governos e operadores de confiança“, argumenta a operadora, alertando que “fragmentação do setor na Europa” terá a prazo consequências negativas. Irá “enfraquecer a capacidade do setor” em “responder de forma eficiente a ameaças emergentes, limitar a inovação e o nível de investimento necessário para redes seguras e de dupla utilização”, elenca o relatório da operadora que atua em vários mercados na região.
“Para fazer face a ameaças transfronteiriças patrocinadas por Estados, a infraestrutura digital exige uma coordenação pan-europeia com parceiros de confiança, não apenas estratégias nacionais isoladas”, aponta. Recomendando, “uma cooperação mais estreita entre a UE e o Reino Unido”, algo que classifica de “fundamental, já que ambos enfrentam ameaças comuns e possuem competências complementares”.
Recomendações aos líderes europeus
Colocar a conectividade com prioridade de segurança passa por diversos níveis. E nesse sentido, o relatório da operadora deixa cinco recomendações.
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Integrar a conectividade segura na estratégia nacional de segurança
“A conectividade segura deve ser explicitamente reconhecida como um ativo estratégico nas estratégias nacionais, nos documentos estratégicos da UE e no planeamento da NATO” e que a tratem “como capacidades essenciais a par da energia e transportes”. “Isto implica integrar a infraestrutura digital como parte integrante das cadeias de abastecimento e planeamento da defesa, garantindo que o investimento em conectividade seja priorizado juntamente com os demais gastos em defesa e resiliência”;
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Reforçar a coordenação e colaboração pan-europeia entre governos e operadores
“A coordenação ad-hoc já não é suficiente. Para enfrentar ameaças híbridas, governos e operadores precisam de mecanismos formais de colaboração, ligando estruturas nacionais, europeias e da NATO”. Mecanismos como fóruns de crise transfronteiriços, protocolos partilhados de reporte de incidentes e exercícios conjuntos regulares para garantir respostas coordenadas em todas as fases dos acontecimentos, elenca.
“A UE e os governos nacionais devem reforçar a coordenação pan-europeia com vista a proteger infraestruturas críticas de rede”, diz. “Deve existir capacidade de resposta partilhada para cabos submarinos, bem como mecanismos de reparação, sob controlo europeu. A colaboração pan-europeia deve estender-se ao espectro de satélites, à resiliência das estações terrestres e a normas e a certificações de cibersegurança comuns“, enumera.
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Investir na resiliência quando os mecanismos de mercado não são suficientes
“A fragmentação do setor das telecomunicações na Europa e a existência de operadores de pequena dimensão dificultam o investimento em redundância e robustez que a segurança atualmente exige”, alerta. Nesse sentido, “os governos devem identificar corredores e nós críticos onde seja necessária uma resiliência adicional e recorrer a financiamentos direcionados, garantias e incentivos regulatórios para colmatar esta lacuna de investimento”.
Mais, “os líderes devem reconhecer e apoiar os investimentos em segurança e resiliência feitos pelos operadores, incluindo através de políticas estáveis, previsíveis e coerentes em toda a UE”.
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Adotar uma abordagem estrategicamente aberta à soberania tecnológica
A soberania sobre infraestruturas digitais críticas é “essencial” para a segurança da Europa a longo prazo, sendo a IA, a computação em nuvem e a conectividade avançada “elementos críticos da defesa moderna”. Nos dias de hoje, “o mercado de IA e cloud é dominado por um pequeno número de fornecedores não europeus”, mas cortar o acesso a estas tecnologias teria impactos negativos.
A Europa “deve adotar uma estratégia de mitigação, e não de exclusão, baseada no risco e no reforço do controlo, sem se isolar da inovação de ponta mundial. A abordagem à soberania europeia não se deve focar apenas na localização da sede das empresas, mas priorizar o investimento local, a I&D, a criação de emprego e a produção em território europeu”, defende. “A Europa deve estabelecer parcerias com países que partilhem os mesmos valores, como o Japão, a Coreia do Sul e o Reino Unido, colaborando no desenvolvimento de tecnologias-chave, na partilha de recursos e no alinhamento de normas.”
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Reforçar a resiliência social através da literacia digital
“À medida que a guerra de informação se intensifica na Europa, o investimento na inclusão e literacia digital irá capacitar os europeus a identificar desinformação, resistir à manipulação e manter a confiança nas instituições democráticas durante períodos de crise”.
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