12 passas e uma taça de realpolitik

Com o processo de transição na Venezuela ainda uma incógnita, e o mundo ainda a digerir a ação militar dos EUA, muito terá o Conselho de Estado para debater.

Ano novo, vida nova. Mas, mal terminam as 12 badaladas e entramos em 2026 damo-nos conta que, mais do que o champagne com o qual empurramos a tradicionais passas, afinal a taça está cheia de uma boa dose de realpolitik. Na Ucrânia, nem o Natal nem o Ano Novo trouxeram boas novas sobre o processo de paz a ser negociado — com o beneplácito dos Estados Unidos — com a Rússia. O acordo está “90% pronto”, disse Volodymyr Zelensky, na sua mensagem de Ano Novo aos ucranianos, mas faltam 10% e é essa ‘pequena’ fatia que irá “determinar o destino da paz, o destino da Ucrânia e da Europa”. E do outro lado do Atlântico abriu-se outra caixa de Pandora geopolítica, com o recente ataque militar dos EUA à Venezuela.

Na Ucrânia, mais de 100 mil pessoas iniciaram o ano sem eletricidade na região ocidental de Volínia, após um ataque russo com drones na véspera de Ano Novo e nas primeiras horas de 2026. Assistimos ainda a novos episódios sobre a ‘novela’ de contrainformação em torno do alegado ataque drone ucraniano à moradia de Vladimir Putin. Os ucranianos negam, mas o certo é que a acusação azedou as negociações do acordo e irritou Trump. Agora parece que nem a CIA está convencida do ataque e Donald Trump, no mesmo dia em que o Wall Street Journal avançou a notícia, partilhou nas redes sociais um editorial do New York Post que acusa Moscovo de fabricar o ataque para sabotar o processo de paz com Kiev. A Rússia contra-ataca com o envio para os EUA das análises aos destroços dos drones que terão atacado a residência do presidente russo, anunciou o Ministério da Defesa. Aguardemos.

Quem não parece querer esperar é o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk. E marcou logo a sua posição na mensagem de Ano Novo: “Vamos acelerar a construção do exército mais forte da Europa. Vamos acelerar os grandes investimentos em infraestruturas”, disse Tusk, citado pela agência polaca PAP. A Polónia — que faz fronteira com a Ucrânia e com a Rússia, através do enclave de Kaliningrado, e ainda com a Bielorrússia, país aliado de Moscovo — tem destinado 4,81% do PIB à defesa e está apostada em reforçar a proteção civil com a construção de bunkers, noticiou o Financial Times. Para isso, o governo alocou 16 mil milhões de zlotis (cerca de 3,8 mil milhões de euros) no seu orçamento para a construção desses equipamentos e determinou que, a partir deste ano, novos edifícios a serem construídos devem contemplar um bunker no projeto.

Com o processo de transição na Venezuela ainda uma incógnita — Trump diz que os EUA vão governar o país (e as petrolíferas americanas reconstruir a infraestrutura petrolífera) até ser assegurado um processo de transição —, e o mundo ainda a digerir a ação militar, muito terá o Conselho de Estado para debater a 9 de janeiro. Ou não fosse a Venezuela a casa de uma enorme comunidade de portugueses.

Longe da frente de batalha, mas sinal dos novos tempos, em Portugal, iremos assistir em 2026 a novos desenvolvimentos sobre “o maior investimento de uma vez só” nas Forças Armadas e sobre as capacidades de defesa que o país vai ganhar com o acesso à fatia de 5,8 mil milhões do programa de empréstimos europeu SAFE. Possivelmente — para não dizer certamente — será também um dos temas a serem discutidos no Conselho de Estado, agendado por Marcelo Rebelo de Sousa para 9 de janeiro, “para analisar a situação internacional, em particular a situação na Ucrânia”.

O anúncio foi feito a 23 de dezembro de 2025, três dias após Luís Montenegro admitir em Kiev que “nada vai obstar” ao envio de tropas portuguesas em missões de paz para a Ucrânia, embora “ao dia de hoje” [20 de dezembro] isso não estivesse previsto.

O Conselho de Estado — o último convocado por Marcelo — surgiu como uma pequena detonação política, já que se realiza num momento em que decorre a campanha eleitoral para escolher o futuro Presidente da República, e dois dos candidatos (Marques Mendes e André Ventura) fazem parte deste órgão. Mas Marcelo justifica. “A Ucrânia é um tema muito importante na nossa vida, na vida do mundo e da Europa”, disse, considerando que não seria “sensato” o tema não ser debatido neste órgão quando estão a ser tomadas “decisões importantes” no plano internacional que também afetam o futuro do país, disse citado pelo Expresso. Tendemos a concordar.

Para mais, que a rapidez da atualidade geopolítica a isso obriga, como indica a recente ação militar dos EUA na Venezuela, com a captura de Nicolás Maduro e sua mulher para serem julgados nos EUA por, entre outras acusações, de narco-terrorismo.

Com o processo de transição na Venezuela ainda uma incógnita — Trump diz que os EUA vão governar o país (e as petrolíferas americanas reconstruir a infraestrutura petrolífera) até ser assegurado um processo de transição —, e o mundo ainda a digerir a ação militar, muito terá o Conselho de Estado para debater a 9 de janeiro. Ou não fosse a Venezuela a casa de uma enorme comunidade de portugueses.

A ONU reúne esta segunda-feira 5 de janeiro o Conselho de Segurança para discutir a situação na Venezuela. E a Dinamarca, com o tema Gronelândia em mãos, já exortou os EUA a pararem com as ameaças “contra um aliado histórico”, depois de Trump, em entrevista ao The Atlantic ter referido vontade de anexar o território. Bem-vindos a 2026.

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