O setor espacial como pilar estratégico de criação de valor em Portugal

  • Ricardo Conde
  • 20 Novembro 2025

Com competências consolidadas em observação da Terra, rastreio orbital e vigilância marítima, Portugal tem capacidade de contribuir ativamente para projetos estruturantes.

A história das nações constrói-se na forma como respondem aos desafios contemporâneos. O Espaço, como domínio do conhecimento, da tecnologia e da sociedade, representa hoje um dos grandes desafios das sociedades modernas e, em particular, uma afirmação da Europa e, naturalmente, de Portugal. Estão a ser dados passos estruturantes em Portugal, consequentes do trajeto de capacitação do país, ao longo dos últimos 25 anos. Trata-se de uma ambição estratégica que vai além da exploração e do prestígio tecnológico e na qual se cruzam ciência, inovação, economia, segurança e soberania, portanto, sociedade. Investir em capacidades espaciais é, por isso, investir na base da economia moderna, na resiliência nacional e, consequentemente, europeia.

Portugal tem vindo a construir, de forma consistente e sustentada, um ecossistema espacial competitivo, inovador e com capacidade de internacionalização. A entrada na Agência Espacial Europeia (ESA), em 2000, cujo 25.º aniversário se celebrou a 14 de novembro de 2025, marcou o início de uma trajetória de capacitação nacional no setor. Esse percurso ganhou um novo impulso com a criação da Agência Espacial Portuguesa, em 2019, o que se refletiu num período de forte crescimento. O setor conta atualmente com cerca de 145 entidades, entre empresas, centros de investigação e organismos públicos. Nos últimos anos, o ritmo de criação de novas empresas acelerou de forma significativa face ao período anterior, refletindo não só o dinamismo do ecossistema como a crescente capacidade de atrair investimento direto estrangeiro e talento. No mesmo período, o setor registou proveitos operacionais acumulados na ordem dos 1.000 milhões de euros, com um crescimento médio anual (CAGR) de 11%, e empregava, em 2024, cerca de 1.600 pessoas.

A Estratégia Espacial da União Europeia para a Segurança e Defesa reconhece o espaço como um domínio estratégico, onde as infraestruturas orbitais são ativos críticos para comunicações seguras, vigilância, navegação por satélite e resposta a ameaças civis e militares. A crescente importância das capacidades de dual use, no sentido do seu uso civil e militar, exige soluções tecnológicas versáteis e interoperáveis, área em que Portugal pode contribuir com conhecimento, talento e produtos industriais orientados para a resiliência europeia.

Este crescimento foi ainda alavancado por iniciativas públicas que colocam o Espaço ao serviço da economia e da segurança, nomeadamente através do Plano de Recuperação e Resiliência. As Agendas Mobilizadoras ligadas ao Espaço (os projetos Neuraspace e Newspace Portugal), deram um importante impulso à consolidação das cadeias de valor industriais e ao desenvolvimento de novas capacidades, nomeadamente na criação de uma indústria integradora de satélites e as condições para uma subida na cadeia de valor, através de novos operadores de serviços de base espacial,

Em paralelo, este dinamismo atraiu também capital de risco: entre 2018 e 2024, o investimento em startups e empresas incubadas no ESA BIC Portugal atingiu 65 milhões de euros, face a apenas 4 milhões nos cinco anos anteriores. Houve também uma valorização do Atlântico, através dos Açores, estando em curso novos projetos ligados a atividades de lançamento e reentrada de missões espaciais, aproveitando a posição geográfica do arquipélago, com a instalação do primeiro porto espacial português, a par de infraestruturas de controlo, comunicações e processamento de dados.

Este ecossistema é particularmente relevante no contexto da transformação em curso no espaço europeu da defesa. A Estratégia Espacial da União Europeia para a Segurança e Defesa reconhece o espaço como um domínio estratégico, onde as infraestruturas orbitais são ativos críticos para comunicações seguras, vigilância, navegação por satélite e resposta a ameaças civis e militares. A crescente importância das capacidades de dual use, no sentido do seu uso civil e militar, exige soluções tecnológicas versáteis e interoperáveis, área em que Portugal pode contribuir com conhecimento, talento e produtos industriais orientados para a resiliência europeia.

Com competências consolidadas em observação da Terra, rastreio orbital e vigilância marítima, Portugal tem capacidade de contribuir ativamente para projetos estruturantes, como o Space Domain Awareness (SSA) e o Serviço Governamental Europeu de Observação da Terra (OT). A posição atlântica, sobretudo no que se refere aos Açores, e à ilha de Santa Maria, reforça este papel, ligando a Europa à sua frente oceânica e criando uma plataforma de operações e dados com valor estratégico e económico.

A consolidação e o crescimento do setor exigem uma abordagem coordenada, ao nível institucional e dos incentivos, sendo essencial para assegurarmos a devida estabilidade regulatória e o apoio à I&D. A defesa nacional é um ator central e desempenha um papel estruturante, não apenas como cliente-âncora, mas também como catalisador de inovação, industrialização e autonomia tecnológica. Cabe ao setor privado transformar essa base em inovação, exportações e emprego qualificado.

Portugal tem os ingredientes certos: talento, conhecimento, capacidade industrial e visão estratégica. Afirmar o Espaço como verdadeiro motor do crescimento socioeconómico, da competitividade internacional e da soberania estratégica exige continuidade, escala e compromisso.

  • Ricardo Conde
  • Presidente da Agência Espacial Portuguesa

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