Quem controla as comunicações, controla o poder
A cibersegurança deixou de ser um tema técnico ou de compliance para passar a ser um pilar da soberania dos Estados, da continuidade das economias e da confiança dos cidadãos.
Durante anos, acreditámos que a tecnologia era neutra e que as plataformas de comunicação eram apenas ferramentas eficientes, globais e indiferentes à geopolítica. Hoje, essa ideia é não só ingénua como perigosa. Pois, no mundo digital, quem controla as comunicações controla o poder: económico, político e estratégico.
Há um facto raramente discutido fora dos círculos especializados: a esmagadora maioria das comunicações globais — mensagens, chamadas, partilha de ficheiros, coordenação empresarial e institucional — assenta em plataformas não europeias. Infraestruturas, clouds, protocolos e aplicações críticas estão maioritariamente sob jurisdição de terceiros. E isto não se trata de retórica política, mas de arquitetura tecnológica, o que, num contexto de tensão geopolítica permanente, faz desta dependência uma vulnerabilidade estrutural. Onde quem controla as plataformas controla metadados, padrões de utilização, disponibilidade de serviço e capacidade de resposta em momentos críticos. E, mesmo quando os conteúdos são cifrados, o controlo da infraestrutura nunca é irrelevante, porque, em tecnologia, dependência é poder delegado, muitas vezes sem consciência plena das suas consequências.
E os sinais estão à vista: ataques a hospitais, redes energéticas, sistemas financeiros, comunicações governamentais e cadeias logísticas tornaram-se parte do novo normal. A cibersegurança deixou de ser um tema técnico ou de compliance para passar a ser um pilar da soberania dos Estados, da continuidade das economias e da confiança dos cidadãos.
Os grandes blocos geopolíticos compreenderam isto cedo. Os Estados Unidos protegem agressivamente os seus campeões tecnológicos e cadeias digitais, tratando-os como ativos estratégicos. A China construiu um ecossistema fechado, altamente soberano e profundamente alinhado com o Estado. A Europa, apesar de liderar na regulação (GDPR, NIS2, DORA, AI Act), continua excessivamente dependente de tecnologia crítica que não controla.
Os sinais estão à vista: ataques a hospitais, redes energéticas, sistemas financeiros, comunicações governamentais e cadeias logísticas tornaram-se parte do novo normal. A cibersegurança deixou de ser um tema técnico ou de compliance para passar a ser um pilar da soberania dos Estados, da continuidade das economias e da confiança dos cidadãos.
Este é o paradoxo europeu: somos rigorosos na proteção de dados, mas frágeis na posse da infraestrutura. Falamos de autonomia estratégica ao mesmo tempo que comunicamos, trabalhamos e tomamos decisões ‘dentro’ de plataformas externas. Ora, num mundo fragmentado, esta contradição cobra um preço elevado, pago em resiliência, em competitividade e em capacidade de decisão soberana.
A cibersoberania não significa isolamento nem rejeição da inovação global, significa capacidade de escolha; significa dispor de alternativas seguras, auditáveis e robustas para comunicações sensíveis, empresariais, institucionais e governamentais; significa garantir que aquilo que sustenta a confiança digital não depende exclusivamente de interesses, jurisdições ou prioridades externas.
É neste ponto que entendo que Portugal tem uma oportunidade real. O país reúne talento altamente qualificado, investigação aplicada relevante e empresas tecnológicas capazes de desenvolver soluções de comunicação segura e cibersegurança de nível internacional. Não falamos de conceitos experimentais ou de promessas vagas, mas de tecnologia utilizada em contextos exigentes, onde falhas não são opção e a confiança é crítica.
Ainda assim, persistimos, enquanto sociedade, em encarar a cibersegurança como custo ou obrigação regulatória e isso é um erro estratégico. A segurança digital é hoje uma vantagem competitiva clara, pois reduz risco sistémico, atrai investimento, reforça credibilidade internacional e cria emprego qualificado. Os países e organizações que investem cedo em comunicações seguras tornam-se mais resilientes económica, política e socialmente.
Portugal tem uma oportunidade real. O país reúne talento altamente qualificado, investigação aplicada relevante e empresas tecnológicas capazes de desenvolver soluções de comunicação segura e cibersegurança de nível internacional. Não falamos de conceitos experimentais ou de promessas vagas, mas de tecnologia utilizada em contextos exigentes, onde falhas não são opção e a confiança é crítica.
A soberania digital constrói-se com decisões concretas: políticas públicas que valorizem tecnologia crítica europeia, critérios de contratação que incluam segurança e controlo, investimento consistente em empresas que desenvolvem soluções estratégicas. Constrói-se também com liderança, empresarial e política, capaz de compreender que, no mundo digital, não controlar é escolher depender.
Num mundo marcado por instabilidade estrutural, confiar cegamente em infraestruturas que não controlamos deixou de ser neutralidade: é risco. Investir em comunicações seguras, soberanas e resilientes não é uma opção ideológica, é uma decisão estratégica. Porque a autonomia digital constrói-se todos os dias, nas plataformas que usamos para decidir, coordenar e agir, e quem abdica desse controlo abdica, inevitavelmente, de parte do seu poder.
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