Às 14h16 de 9 de dezembro, o Falcon 9 rasgava os céus a partir do porto espacial de Merritt Island, nos EUA. O eRadar seguiu um dos últimos lançamentos orbitais de 2025, ano recordista. Saiba porquê.

Dez, nove, oito, sete… O lançamento de um foguetão na NASA é uma espécie de réveillon para os entusiastas do espaço, que se juntam numa multidão a olhar para os céus à espera do momento da descolagem e do estrondo que se segue. Nas bancadas com vista para o porto espacial de Merritt Island, nos Estados Unidos, uma hora antes começa a sentir-se o nervoso miudinho, enquanto um narrador de altifalante em punho faz a explicação minuto a minuto, como se fosse o relato de um jogo de futebol. Até o campo de observação é um relvado sintético com ecrãs ao fundo.
A diferença para outro qualquer countdown é que, nos que envolvem órbitas, só se tem (quase) a certeza de que vão acontecer dez minutos antes do tempo previsto — e em cada um deles faz-se história. Especialmente em 2025, ano em que a base da NASA e da Força Aérea norte-americana em Cabo Canaveral ultrapassou, pela primeira vez, o 100.º lançamento. A 9 de dezembro, quando o ECO/eRadar rumou ao Kennedy Space Center (KSC) na Flórida, os 22º graus da Florida antecipavam um lançamento bem-sucedido da SpaceX. E assim foi: às 14h16, um Falcon 9 rasgava as nuvens que entretanto se formaram e, cerca de oito minutos depois, voltava a aterrar mais à frente.

Cerca de 10 quilómetros separam o sítio de onde o foguetão da missão NROL-77 levantou voo, na outra margem da lagoa Banana River, para o relvado de onde público aplaude efusivo, mas o afastamento (expectável) não impede de quase se sentir a terra tremer debaixo dos pés. É o novo normal ali. Em média, lança-se um foguetão a cada três dias, o que nos dá pistas sobre o investimento na exploração espacial.
“O recorde dos 100 lançamentos num ano (e continuam a aumentar) deve-se, em grande parte, ao constante crescimento da atividade comercial que temos vindo a observar. A NASA e o Kennedy Space Center têm investido dinheiro em empresas aeroespaciais para que possam fazer as missões e estabelecerem-se até conseguirem arrancar negócios”, explica Derrol Nail, porta-voz e comentador de lançamentos da NASA, ao ECO/eRadar, meia hora depois do 104º lançamento de 2025.
No caso da SpaceX de Elon Musk ou da Blue Origin fundada por Jeff Bezos, a agência federal atribui-lhes contratos públicos para desenvolverem os sistemas de que precisa. Uma viragem da NASA de fornecedor para cliente dos privados que não só “ajudou a impulsionar uma economia comercial”, a partir de 2011, como nos traz à etapa em que estamos hoje.
“Historicamente, há 20-30 anos, os dias de lançamento eram um grande acontecimento. E não deixam de ser especiais, pela sensação de entusiasmo e consciencialização, mas quando planeou esta viagem, provavelmente nem sabia que ia haver um. No único dia em que vem, lançamos um foguetão. O que é que isso lhe diz? Que teve muita sorte ou que está a acontecer com frequência? Está a aumentar cada vez mais”, garante Derrol Nail.

“É um modelo de negócio totalmente diferente”
A mudança de paradigma ocorreu com o fim do programa Space Shuttle, que fez 135 missões e transportou mais de 350 astronautas, entre 1981 a 2011, através das naves Columbia, Challenger, Discovery, Atlantis e Endeavour, sendo que as duas primeiras tiveram acidentes fatais. É nesta nova era, marcada pelo desenvolvimento tecnológico acelerado, que entram os bilionários.
Segundo o representante da NASA, a transição da agência criada nos anos 50 para cliente das multinacionais “é um modelo de negócio totalmente diferente”, que traz outra cultura e “grandes dividendos”, mas não foi logo bem recebida por todos os departamentos. Neste momento, o foco está na preparação para, no início de fevereiro, enviarem quatro astronautas a orbitar a Lua, no âmbito da missão Artemis II.
Queremos que a indústria assuma a responsabilidade, portanto demos contratos avultados a duas empresas para que construíssem os seus próprios foguetões e naves espaciais, ajudando a levar os nossos astronautas até à Estação Espacial Internacional. Tudo porque, quando o Space Shuttle se reformou, não tínhamos forma de chegar a uma estação espacial na qual tínhamos investido. Tínhamos de usar naves e foguetões russos.
No final do programa, o pensamento foi o seguinte: “Como nos tornámos bons a aceder à órbita baixa da Terra, vamos agora fomentar uma economia comercial para essa órbita, para nos podermos concentrar em missões de exploração mais profundas, como regressar à Lua ou chegar a Marte”, recorda Derrol Nail, salientando que continua a ser uma órbita “extremamente importante” para a NASA.
Quem pode contribuir para esta órbita onde andam os satélites? Portugal, por exemplo. “Como a SpaceX reduziu significativamente o custo de lançamento, permitiu que inúmeras empresas entrassem na órbita terrestre baixa, seja para comunicações via satélite ou outra coisa qualquer. Inclusive para países como Portugal. A Agência Espacial Europeia (ESA), ao participar no programa Artemis, pode dirigir-se aos seus Estados-membros e dizer: Vamos voltar à Lua”, diz Derrol Nail.
Na sua opinião, o facto de a ESA ter aprovado, recentemente, o maior orçamento da sua história (22,2 mil milhões de euros) serve a ambição europeia de ter um programa espacial mais robusto, bem como participar numa cooperação internacional como o Artemis.
Mais de 80 milhões para expor o vaivém espacial
A principal base de lançamentos espaciais da NASA está a uma hora de viagem de carro da cidade de Orlando, por entre parques e reservas naturais repletas de lagos, aves, mamíferos e jacarés americanos (não avistados). A natureza e a história contrastam com a mecânica e a modernidade. Desde logo, porque a vizinhança é a estação da Força Aérea ou a Blue Origin, a empresa que faz viagens turísticas ao espaço — uma das quais levou a bordo o empresário português Mário Ferreira — e que a 22 de dezembro o fez, pela primeira vez de sempre, com uma pessoa paraplégica.
A entrada no Centro Espacial John F. Kennedy faz-se através de uma zona para visitantes que remonta a 1966, quando se realizou a primeira tour de autocarro até ao Rocket Garden (Jardim dos Foguetões). É aí que se encontra a maquinaria que marca a história espacial dos Estados Unidos, incluindo aquela que nem voou, mas serviu para testes e experiências. É o primeiro local de culto de artefactos dos programas Mercury (1961–1963), Gemini (1964–1966) e Apollo (1961–1972).

Desde então, o complexo KSC tem crescido — e vai continuar a crescer. No final de 2027, será inaugurada uma nova exposição sobre a NASA, disse o Chief Operating Officer (COO) interino do complexo de visitantes do KSC, Howard Schwartz, ao ECO/eRadar. “Ainda é cedo para contar mais. O complexo começou com os passeios de autocarro, mas houve uma mudança contínua. Juntaram-se edifícios para que as pessoas viessem ver e aprender sobre viagens espaciais. Estamos num ponto de equilíbrio entre a educação e o entretenimento — e é mesmo onde queremos estar. Assim, sempre que alguém nos visita, vai aprender alguma coisa, mas também se vai divertir a fazê-lo”, explica o COO sobre o conceito do centro.

Para se perceber a dimensão das exposições, a zona onde está o Space Shuttle Atlantis (o famoso vaivém que transportou astronautas para o espaço durante 30 anos) envolveu um investimento de 100 milhões de dólares (cerca de 85 milhões de euros) em 2013. O mais recente a abrir ‘portas’, em julho e sem valor divulgado, foi o pórtico (torres em plataformas para fazer a manutenção e montagem dos foguetões antes de descolarem) chamado Gantry LC39, que é também o sítio mais próximo para alguém ver um lançamento. Disclaimer: não foi de lá que assistimos.
Em dias de lançamentos mais importantes, existem atividades especiais e, normalmente, mais visitantes, porque “as pessoas adoram o lançamento de um foguetão”. Questionado sobre a concorrência com os parques da vizinha Disney, em Orlando, o COO do KSC garante que são “ambientes diferentes”, enquanto ali operam numa “área intermédia, a da diversão educativa”. “Queremos que cheguem a casa e digam: vou voltar ao computador para aprender mais sobre Marte e a Lua depois de ter estado ali”, exemplifica Howard Schwartz.
A dúvida permanece: será possível lucrar nesta economia cislunar que está a ser criada em várias frentes? “A esperança é que, com o tipo de recursos que existem na Lua, como gelo nas profundezas dos polos, sob o regolito, ou hidrogénio, haja recursos suficientes para estabelecer uma base operacional. É complicado imaginar um modelo comercial sustentável. Talvez a mineração de recursos”, almeja o porta-voz da NASA.
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Maior base da NASA atinge recorde de lançamentos este ano. Como é o descolar de um foguetão da SpaceX
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