Empresas querem investir 9,7 mil milhões nas agendas mobilizadoras do PRR

Com mais de 1.700 entidades envolvidas nos 64 consórcios, a maior parte das candidaturas (35%) são na área industrial e das tecnologias de produção. Mas há propostas na mobilidade, ambiente e saúde.

Desbloquear todo o potencial da indústria de semicondutores e reforçar a capacidade produtiva e de inovação desta indústria em Portugal é a aposta da ATEP – Ampor Technology, a líder de um dos 64 consórcios que foram pré-selecionados para obter financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e que vão ser apresentados publicamente esta quinta e sexta-feira, em Leixões, num evento que conta com a presença do primeiro-ministro e do ministro da Economia.

Esta iniciativa da subsidiária da Amkor (um dos maiores fornecedores mundiais de packaging e teste de semicondutores) é a resposta nacional à necessidade da Europa de superar as falhas sistémicas no mercado global dos semicondutores. Propõem-se investir 76,7 milhões de euros e acrescentar novas soluções às que já oferece ao mercado ao nível sobretudo de telecomunicações, automóveis e segurança, tudo a partir da fábrica de Vila do Conde com a ajuda de outras entidades envolvidas neste consórcio e que são responsáveis também por uma parte do investimento (11,5 milhões).

Estes 64 consórcios, que se propõem investir 9,78 mil milhões de euros, concorrem a um apoio de 930 milhões de euros reservado para as agendas mobilizadoras, um montante que poderá, no entanto, ser aumentado, tal como o ministro da Economia já admitiu. Agora, nesta segunda fase, serão apresentadas as propostas finais e aberto o concurso onde serão determinadas as condições de financiamento.

Foram pré-selecionadas menos de metade (44%) das 144 manifestações de interesse inicial, umas por não serem elegíveis, outras por não terem atingido a nota máxima na avaliação da candidatura. Mas a esmagadora maioria dos projetos destina-se a investimento produtivo (64%) e a investigação e desenvolvimento (33%).

É o caso do investimento de 214 milhões do consórcio liderado pela Colep, a empresa de embalagens sediada em Vale de Cambra e detida a 100% pelo grupo RAR. O objetivo é alterar o perfil de especialização da fileira das tecnologias de produção em Portugal. Ou ainda dos 30 milhões que o consórcio liderado pela Continental Advanced Antenna quer investir para criar um novo ecossistema de inovação industrial na região de Trás-os-Montes e Alto Douro. Com foco na indústria automóvel, esta Agenda propõe-se “implementar um plano de atividades” para desenvolver novas tecnologias, serviços e produtos, aumentar a capacidade tecnológica e digital das empresas, gerando valor em toda a cadeia industrial nacional, potenciando a exportação e a escalabilidade a outras indústrias.

O objetivo final das agendas mobilizadoras é precisamente aumentar o volume das exportações de bens e serviços para 53% do PIB até 2030, mas também aumentar o investimento em I&D para atingir 3% do PIB até 2030 e contribuir para a dupla transição digital e climática através da redução das emissões de CO2 em 55% até 2030.

Com mais de 1.700 entidades envolvidas nestes consórcios, a maior parte das candidaturas (35%) inserem-se na área industrial e das tecnologias de produção, mas a mobilidade (13%), os recursos naturais e o ambiente (11%) e a saúde e bem-estar (9%) também foram alvo de propostas.

A Decsis II Ibérica, por exemplo, pretende investir 22,9 milhões de euros para desenvolver aplicações móveis de suporte à decisão de pessoas com diabetes e profissionais de saúde, que recolham os dados dos sensores e outras informações de dados de saúde, permitindo disponibilizar informação histórica sobre a evolução dos indicadores recolhidos. Esta empresa portuguesa — fundada em 2014, possui uma sucursal em Espanha, onde desenvolve a sua atividade de serviços em parceria com grandes fabricantes como Hitachi Vantara, Oracle, Hewlett Packard Enterprise, Dell Technologies, entre outras — pretende ainda projetar, desenvolver e integrar um conjunto de sensores óticos, físicos e eletroquímicos (alguns existentes no mercado e outros em fase de protótipos testados nos laboratórios deste consórcio) numa plataforma sensorial e depois fabricá-los com recurso a técnicas e processos de smart manufacturing (Indústria 4.0).

A importância de ser verde

Os 930 milhões de euros de dotação das agendas mobilizadoras estão divididos em 558 milhões de euros, para as agendas mobilizadoras para a inovação empresarial e 372 milhões de euros para as agendas verdes para a inovação empresarial. E nesta gaveta 100% verde encaixam 12 dos 64 consórcios pré-selecionados. Por isso, grandes empresas como a Galp apresentaram projetos para cada uma destas gavetas.

A Galp propõe investir 980,5 milhões de euros para estabelecer uma operação mineira sustentável em Portugal, que produza entre 170 a 200 mil toneladas por ano de espodumena, mas também implementar uma refinaria sustentável de processamento de lítio em Portugal, que produza entre 25 a 35 mil toneladas por ano de lítio refinado de elevada qualidade (battery grade), suficiente para a produção de mais de 1 milhão de veículos elétricos por ano na UE. Nos planos que envolvem a Savannah está previsto também potenciar a assemblagem e reciclagem de baterias de lítio em Portugal. Este é o projeto no âmbito das agendas verdes.

Mas a empresa liderada por Andy Brown também está pré-selecionada para apoio do PRR num investimento de 722 milhões de euros para implementar no complexo industrial de Sines a produção de hidrogénio verde através da instalação de um eletrolisador de 100 MW que irá gerar 10 mil toneladas de hidrogénio renovável, anualmente, estando o offtake garantido pelos demais projetos, numa lógica de complementaridade. Mas também se propõe produzir etanol sintético, bioetanol avançado e Alcohol-to-Jet. Além disso, está previsto criar uma unidade inovadora de hidrodesoxigenação de resíduos reutilizando o equipamento proveniente da refinaria de Matosinhos desativada, o que permitirá reduzir o investimento do projeto e reduzir a necessidade de materiais novos.

Já a Efacec, no âmbito das agendas verdes, pretende em conjunto com outras 65 empresas, 27 entidades do sistema de investigação & inovação, criar um ecossistema estruturante para a transição energética, além de produtos e serviços para modernizar as redes de transporte e distribuição de energia elétrica, para melhorar as infraestruturas de carregamento de veículos elétricos ou ainda descentralizar os sistemas de distribuição que promovam a descarbonização através do uso de gases renováveis. A empresa, a braços com um processo de reprivatização, pretende com este projeto de 355,8 milhões de euros criar 400 postos de trabalho.

A empresa gerida por Ângelo Ramalho lidera ainda um outro consórcio de 925 milhões de euros para criar o maior projeto sustentável português para produzir combustíveis verdes: hidrogénio e metanol verdes. Presentemente, não existe tecnologia nacional integrada capaz de dar resposta a todas as etapas processuais exigidas para a implementação de unidades industriais de hidrogénio e metanol verdes. O projeto pretende ser desenvolvido em conjunto com sete outros parceiros industriais: Dourogás Renovável, Navigator, Bondalti Chemicals, Capwatt, Sonae Arauco, Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo e Compatibleglobe. Algumas destas empresas também são elas próprias líderes de consórcios como a Navigator ou a Bondalti.

Veja aqui a listas dos 144 projetos apresentados e as respetivas classificações:

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