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Os 7 projetos mais surpreendentes da bazuca portuguesapremium

Do consumo de insetos ao trânsito espacial, dos videojogos no meio do Atlântico às fábricas de vacinas e de unicórnios, conheça os investimentos mais originais das "agendas mobilizadoras" do PRR.

Mais de 1.500 empresas, associações, entidades públicas e do sistema científico e tecnológico nacional estão envolvidas nos projetos das Agendas Mobilizadoras para a Inovação Empresarial, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), em que se propõem investir 9,7 mil milhões de euros para aumentar a competitividade da economia portuguesa, com base em Investigação e Desenvolvimento (I&D), na inovação e na diversificação e especialização da estrutura produtiva.

Dos 64 consórcios que passaram a primeira fase de seleção – e que estiveram a apresentar os projetos num evento de dois dias no Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões (Matosinhos) –, o ECO selecionou os sete mais surpreendentes. Siza Vieira já “sinalizou” a Bruxelas que Portugal deve mobilizar mais recursos através da carteira de empréstimos do PRR para financiar mais projetos, estando agendada para o verão de 2022 a contratualização com os promotores e o início de execução dos investimentos.

1. Indústria dos insetos “sobrevoa” a comida e a cosmética

Colocar Portugal na vanguarda mundial da indústria de insetos, possibilitando a industrialização e comercialização de produtos inovadores com base em insetos, tanto na área alimentar (animal e humana), como noutras indústrias (cosmética ou bioplásticos) ou ainda no inovador setor da biorremediação. Num investimento total de 57,4 milhões de euros – participam a líder do consórcio Ingredient Odyssey, de Santarém (18 milhões); a Thunder Foods, criada pelo presidente da Portugal Insect, Rui Nunes (13,6 milhões); e algumas das principais universidades do país, como Porto, Nova de Lisboa, Aveiro ou Católica –, a Agenda InsectERA assenta em quatro eixos principais para a utilização de insetos.

Quais são elas? InFood, como fonte nutricional alternativa saudável e sustentável em produtos alimentares inovadores; InFeed, para uma alimentação animal mais sustentável e de origem local; InIndustry, para produtos derivados de insetos como novas matérias-primas para a indústria, como a cosmética ou bioplástico; e InBiorremediation, como ferramenta de biorremediação e solução para desafios ambientais, como a eliminação de efluentes pecuários e resíduos orgânicos urbanos.

2. Ferramenta de Coimbra regula o trânsito de satélites no Espaço

O Espaço, que no passado era um exclusivo de agências espaciais de países ricos, está hoje cada vez mais democratizado pela iniciativa privada, mas os benefícios associados ao New Space trazem também o problema da poluição espacial, estimando-se que haja atualmente 34 mil objetos feitos pelo homem com mais de dez centímetros a orbitar a Terra, o que aumenta os riscos de colisão. A Neuraspace, que lidera um consórcio de 26 milhões de euros com o Instituto Pedro Nunes, o Instituto Superior Técnico e as Universidades de Coimbra, Porto e Lisboa, está a criar uma ferramenta totalmente automatizada para os operadores de satélites evitarem colisões, perdas por danos nas infraestruturas e a responsabilidade de deixar os destroços em órbita.

“A Inteligência Artificial é a chave para automatizar processos de decisão complexos. Ao aplicar os nossos modelos de machine learning da próxima geração para prever a criticidade dos encontros próximos (near collision), indicaremos as manobras potenciais e os custos associados (quanto mais combustível se usar, menos tempo de vida útil terá o satélite). Assim, reduzimos a necessidade de intervenção humana até 2/3, aumentamos a velocidade de decisão - essencial para evitar colisões iminentes - e conseguimos detetar até 50% mais colisões de alto risco face às soluções atuais”, lê-se na candidatura. Prevendo ter a solução à venda até ao final de 2023 e já com contratos assegurados com a agência espacial europeia (ESA) e a gigante GMV, a líder do consórcio acredita que em cinco anos estará posicionada para “assumir uma posição de liderança no mercado mundial e ser um dos primeiros unicórnios espaciais europeus”.

3. Cluster dos videojogos desembarca no Funchal

Um cluster nacional para a indústria criativa dos videojogos pode estar prestes a arrancar na cidade Funchal, com um consórcio que aglomera 13 empresas e sete entidades públicas e parapúblicas a projetar um investimento de 33 milhões de euros para criar este hub digital com capacidade para exportar e para diversificar a oferta económica na região. O Madeira eGames Lab surgiu da necessidade de “estancar a saída massiva de quadros qualificados formados localmente” nas áreas das tecnologias de informação, da computação e das indústrias criativas e culturais, -- além de reforçar a capacidade de as empresas recrutarem a nível internacional --, “maximizando o esforço realizado pelo setor público e universitário na última década na Madeira em áreas complementares dos videojogos”.

Na lista de objetivos secundários, a líder do consórcio (Wow Systems) fala ainda em “potenciar a renovação global das redes de comunicações, como os novos cabos submarinos de ligação ao arquipélago, criando na ilha IXP’s dedicados ao e-gaming, as novas redes de 5G e o potencial da Internet das Coisas (IoT) para o desenho de novas interações e jogabilidade na indústria”, além de aproveitar a Madeira como destino de nómadas digitais, atraindo quadros internacionais altamente qualificados. Nas atividades de promoção e internacionalização inclui ainda um programa de aceleração de start-ups no setor dos videojogos.

4. Vem aí (outra) fábrica de unicórnios na Inteligência Artificial

É apresentada como “uma parceria nunca antes vista em Portugal”, que inclui empresas como a Unbabel e a Talkdesk – as maiores contribuintes para o investimento global de 127 milhões de euros -, a que se juntam outras startups portuguesas mais pequenas, num consórcio com 22 entidades que promete “funcionar como força motriz para elevar estas empresas mais pequenas para o próximo nível, criando futuros unicórnios”. Em causa está a criação de um Center for Responsible AI em Portugal, dedicado às tecnologias que vão impulsionar a próxima geração de produtos de Inteligência Artificial, posicionando o país na linha da frente deste domínio.

As sinergias com centros de investigação de Coimbra, Lisboa e Porto vão desenvolver ou melhorar mais de 18 produtos -- projeta vendas internacionais de 100 milhões de euros até 2026 e de 950 milhões de euros até 2030 --, criar mais de 300 postos de trabalho altamente qualificados e ainda formar 44 novos doutorados e 94 novos mestres. Por outro lado, envolve empresas como a Bial, o Hospital de São João e Hospital da Luz na área de ciências da vida; o grupo Pestana no turismo; a Sonae no e-commerce; a Majorel em customer service; e a Feedzai em fintech. Vão “inspirar” as equipas de investigação e de produto a criar as próximas tecnologias disruptivas centrados em Responsible AI e depois “tomá-las”, assegurando o máximo impacto comercial dessas novas soluções.

5. Vagões inteligentes carregam mercadorias e mais exportações

É com a liderança da Medway e a participação da Nomad Tech, da Universidade do Porto ou do Instituto Superior Técnico, num total de dez entidades, que um investimento de 82 milhões de euros quer responder aos atuais desafios tecnológicos e de mercado que o setor ferroviário enfrenta em Portugal, particularmente ao nível da construção de vagões inteligentes para mercadorias. “A ideia subjacente é conseguir retomar a capacidade construtiva de vagões intermodais para transporte de mercadorias, incorporando capacidade de sensorização com efeitos diretos na segurança e eficiência da operação de transporte, na manutenção preditiva dos vagões e na otimização da cadeia de abastecimento”, frisa a candidatura da Agenda Smart Wagons.

A antiga CP Carga, liderada por Carlos Vasconcelos, sugere ainda que essas novas soluções vão reduzir as emissões de CO2, criar emprego qualificado e dinamizar a indústria nacional, perspetivando um aumento das exportações de tecnologia, de produtos (vagões e sistema de sensorização) e ainda de serviços, como a manutenção preditiva e o transporte de mercadorias por via indireta.

6. Fábrica de vacinas emerge da pandemia em Mortágua

Chama-se PORVACC, vale 63 milhões de euros e é comandada pela Immunethep, a biotecnológica que está a desenvolver a vacina portuguesa contra a Covid-19, envolvendo também os Laboratórios BASI, a Universidade de Aveiro e o i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto. Além de se proporem terminar o desenvolvimento e o processo regulatório de aprovação da vacina SILBA, que dizem ter “as características ideais para ser usada como reforço de imunidade às vacinas já administradas no país”, os promotores querem construir uma fábrica de vacinas e outros fármacos biológicos em Mortágua, com capacidade para a produção de 50 milhões de doses por ano. Incluindo sob licenciamento, dando o exemplo das vacinas da gripe sazonal que “são importadas e deixam o país numa situação de vulnerabilidade face aos países produtores, particularmente em momentos de picos”.

A Immunethep, sediada em Cantanhede, está a desenvolver uma vacina contra a Covid-19.D.R.

Na área dos serviços, o projeto cria ainda “a primeira unidade empresarial para investigação aplicada ao desenvolvimento de fármacos em Portugal respeitando os padrões de segurança biológica BSL3 e o nível de segurança requerido para a manipulação de microrganismos altamente infeciosos”, que pode ser subcontratada por grandes grupos farmacêuticos que “passarão a reconhecer Portugal como um novo centro de competências na área bio farmacêutica”.

7. Alavanca para as frutas do Oeste vai do pomar ao algoritmo

Num investimento total de quase 97 milhões de euros, dos quais 40 milhões são da Fresh Fusion - Fruits from Portugal, um agrupamento complementar de empresas (ACE) com sede no Parque Tecnológico de Óbidos, este projeto liderado pela Atlantic Portuguese Apple quer “alavancar a fruticultura do Oeste”, com destaque para as fileiras da Pera Rocha e da Maçã de Alcobaça. A começar pelo campo, através da melhoria da planta e da sua relação com o ambiente (adaptação aos stresses bióticos e abióticos agravados pelas alterações climáticas), do controlo das doenças ou do aumento da qualidade e da produtividade por meio de ferramentas baseadas na inteligência artificial e na robotização; prosseguindo no armazenamento e conservação – garantindo a qualidade por um período até 10 meses com tecnologias de monitorização.

Outro eixo é a “concentração da oferta, com uma estratégia comum de atuação ao nível da produção e comercialização, permitindo ganhar escala e competitividade na oferta de produtos diferenciados”, com a criação de uma Smart Central. Finalmente, este plano com 50 participantes propõe tirar partido da ciência dos dados e da inteligência artificial ao criar uma Plataforma Colaborativa de Inteligência para as fileiras da Pera Rocha e Maçã de Alcobaça, “com capacidades analíticas descritivas, preditivas e prescritivas”.

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