Deftech Zero Industries ajuda drones a voar sem GPS

Sedeada em Toulouse, a startup fundada por antigos alunos do IST, já levantou 400 mil euros em pré-seed e conta com o apoio dos fundos Heartfelt_ e Project Europe.

Tem no nome a palavra Zero, mas a solução que está a ser desenvolvida pela startup nacional Zero Industries pode fazer toda a diferença na frente de batalha: ajuda os drones a saber, em tempo real sem GPS, a sua localização e a voar de forma autónoma. A startup já levantou 400 mil euros em pré-seed e contam com o apoio da Heartfelt_ e do Project Europe.

Conheceram-se no Instituto Superior Técnico, durante a licenciatura em Engenharia Aeroespacial. Ficaram amigos, criaram um podcast — Zero Absoluto (que mais tarde inspirou o nome da startup) —, mas com o mestrado seguiram para países diferentes: França, Itália e Holanda.

A ideia de ficarmos separados não nos agradava, pelo que nos apercebemos de que tínhamos de fazer algo. A solução foi criar uma empresa juntos, algo que já nos tinha passado pela cabeça várias vezes, dadas as nossas personalidades e qualidades complementares. Faltava apenas especificar o âmbito da empresa”, conta João Silva, CTO e cofundador da Zero Industries, juntamente com Frederico Baptista (CEO) e Álvaro Patrício (COO).

Decidiram apostar na resolução do problema de navegação dos drones em cenário de guerra, onde o sinal GPS fica bloqueado. A ideia surgiu “quase de forma natural”.

“Somos crentes convictos no plano europeu, e a invasão à Ucrânia é algo que choca veementemente com os nossos valores; além disso, as nossas diferentes especializações em visão computacional (computer vision), drones, navegação e propagação de incertezas pareciam quase ter sido escolhidas a dedo para enfrentar este desafio”, explica João Silva.

E com essa ideia lançaram as mãos ao algoritmo e à inteligência artificial e começaram a fazer testes com um drone pessoal. Mas foi a participação num hackathon, em Varsóvia, o European Defense Tech Hackathon (EDTH), que deu energia para que o projeto começasse, literalmente, a voar.

“Foi aí que nos apercebemos do valor e do potencial do que estávamos a criar: não estávamos à espera do enorme interesse que recebemos de soldados, empresas e investidores. Este foi o ponto de viragem em que decidimos deixar para trás os nossos empregos e doutoramentos, e dedicar-nos a 100% a esta oportunidade”, admite o CTO. A participação no hackathon foi um “completo acaso”.

“Decididos a resolver o problema de navegação sem GPS, reunimo-nos em Toulouse com o objetivo interno de, em duas semanas, ter uma demonstração de navegação visual que demonstrasse a exequibilidade técnica do conceito. Por pura coincidência, no final destas duas semanas, descobrimos que a EDTH em Varsóvia estava aberta a receber-nos. Marcámos um voo no dia anterior e voámos para a Polónia”, lembra o CEO, Frederico Baptista.

“Foi aí que nos apercebemos realmente do interesse real que existe na problemática de navegação sem GPS. Falámos com soldados ucranianos, militares polacos, e pessoal especializado na área da defesa, que não só ficaram impressionados com o nosso desenvolvimento técnico em tão pouco tempo, como nos motivaram a prosseguir com a ideia e a procurar investimento”, conta Frederico Baptista.

Que problema resolve?

A frente de batalha na Ucrânia tornou evidente para a Europa a necessidade de reforçar as suas capacidades de defesa e, o papel que novas formas de combate, como o uso de drones, podem ter. A solução da Zero Industries ajuda os drones a voar e a atingir o seu destino, mesmo sem GPS, normalmente bloqueado em cenários de guerra.

“O GPS é o alicerce da grande maioria dos sistemas de navegação e controlo autónomos. Isto leva a que os operadores de drones tenham que voar manualmente sem saber onde se encontram; quando estes se perdem, tem que haver um segundo operador, chamado de localizador, que compara as imagens que o drone captura em tempo real com um mapa de forma muito rudimentar. O que estamos a fazer é tornar esta comparação inteligente e automática, permitindo ao drone saber a sua localização em tempo real e, consequentemente, voar de forma autónoma”, descreve João Silva.

O conceito — e as possibilidades que traz — chamou a atenção do fundo Project Europe — é uma das seis startups europeias financiadas por este fundo financiados por mais de 200 fundadores de empresas como a Lovable, a Klarna, a Mistral ou até o português Marcelo Lebre do unicórnio Remote, segundo lista o fundo no seu website — e do venture capital Heartfelt_. No site, a startup fundada pelos portugueses surge como a única investida no setor de defesa.

“Contamos com dois dos fundos mais respeitados a nível europeu no estágio de pré-seed (em que nos encontramos) e isso enche-nos de orgulho e de responsabilidade. Para além do dinheiro investido, que nos ajuda a tirar o projeto do chão, o apoio conta com uma série de facilidades a nível de contactos tanto do exército inglês como do exército alemão”, explica Frederico Baptista.

Até ao momento, a startup já levantou 400 mil euros, com estes dois fundos. “Estando sediados em Toulouse, na ISAE-SUPAERO (que também nos apoia), temos alicerces em todas as principais potências europeias, estando por isso muitíssimo bem posicionados para o futuro, que será invariavelmente bastante focado na defesa europeia”, acrescenta.

Próximos voos

“O próximo passo é alcançar um primeiro produto vendável que resolva o problema de navegação sem GPS nos próximos seis meses. Mais do que nunca, é uma necessidade que todos os exércitos ocidentais enfrentam e uma ameaça para a qual teremos que estar preparados“, aponta o CEO.

“Quando iniciarmos a fase de industrialização, iniciaremos o nosso levantamento de fundos seed — este levantamento permitir-nos-á não só industrializar o nosso produto de navegação visual, como também prosseguir com a nossa visão a longo prazo de providenciar inteligência e autonomia a todos os equipamentos de defesa existentes, focando-nos numa lógica de tornar o que já existe mais inteligente, ao invés de criar novos sistemas complexos de raiz”, refere ainda Frederico Baptista.

O regresso a Portugal, para já, não está no GPS.Estamos sedeados em Toulouse, incubados pela ISAE-SUPAERO, a universidade de engenharia aeroespacial pertencente ao exército francês. Aqui temos escritórios grátis e todas as condições para que possamos desenvolver a empresa nesta fase inicial”, justifica.

Mais. “Toulouse conta também com o maior ecossistema aeroespacial a nível europeu, tendo mesmo atraído novos escritórios da Tekever recentemente. França é um país extremamente atrativo no que à defesa diz respeito e Toulouse é o sítio ideal para desenvolver a Zero neste momento“, reforça.

“Portugal, apesar de ser o país onde os nossos corações residem e amariam estar presentes, ainda não oferece as mesmas condições e possibilidades na área da defesa, nesta fase inicial da empresa. Adoraríamos trabalhar em proximidade com o exército português e é algo que procuramos ativamente, mas ainda sem sucesso. Talvez um dia a Zero chegue a Portugal. Esperamos, os três, que assim seja”, diz.

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