EUA querem Europa a proteger-se e aliviam pressão sobre Pequim
Relações mais amigáveis com a China, sem menções a Taiwan, e menor atenção à Europa. Documento da Administração comprova que Trump muda bússola das relações internacionais face a Biden.
As forças armadas norte-americana pretendem dar um apoio “mais limitado” aos aliados europeus para dar prioridade à segurança interna e à dissuasão em relação à China, anuncia a nova estratégia de defesa do Pentágono, divulgada sexta-feira.
A “Estratégia de Defesa Nacional 2026”, documento não-classificado divulgado pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos (designação adotada pelo Governo de Trump, que trocou o vocábulo “Defesa” por “Guerra”), marca uma rutura com a política anterior do Pentágono, tanto pela ênfase colocada no facto de os aliados dos Estados Unidos terem de assumir mais responsabilidade pela respetiva defesa, como por um tom mais moderado em relação aos adversários tradicionais dos Estados Unidos, nomeadamente a China e a Rússia.
Enquanto as forças americanas se concentram na defesa do seu território e da região indo-pacífica, os nossos aliados e parceiros assumirão a responsabilidade pela sua própria defesa, com um apoio essencial, mas mais limitado, das forças americanas.
“Enquanto as forças americanas se concentram na defesa do seu território e da região indo-pacífica, os nossos aliados e parceiros assumirão a responsabilidade pela sua própria defesa, com um apoio essencial, mas mais limitado, das forças americanas”, escrevem os serviços do secretário da Defesa Pete Hegseth, num documento publicado após uma semana de crise sem precedentes entre Washington e os seus aliados da NATO em relação à Gronelândia.
O documento começa por descrever criticamente a estratégia de defesa nacional da anterior Administração de Joe Biden, sustentando que “o Presidente [Donald] Trump assumiu o cargo em janeiro de 2025 num dos cenários de segurança mais perigosos da história do país. Internamente, as fronteiras dos Estados Unidos foram invadidas, narcoterroristas e outros inimigos tornaram-se mais poderosos em todo o hemisfério ocidental, e o acesso dos EUA a territórios estratégicos, como o Canal do Panamá e a Gronelândia, estava cada vez mais comprometido“.
Por outro lado, se a estratégia de defesa nacional anterior, publicada durante a presidência de Joe Biden, descrevia a China como o maior desafio para Washington e afirmava que a Rússia representava uma “ameaça grave”, o novo documento defende “relações respeitosas” com Pequim, sem fazer qualquer menção a Taiwan, aliado dos Estados Unidos, que a China reivindica como seu território, assim como descreve a ameaça russa como “persistente, mas controlável”, afetando vários membros da NATO.
O Pentágono “dará prioridade aos esforços para fechar as fronteiras, repelir qualquer forma de invasão e expulsar estrangeiros em situação irregular”, diz ainda o documento de 2026.
À semelhança da “Estratégia de Segurança Nacional” publicada pela Casa Branca no início de dezembro, o Pentágono coloca a América Latina no topo das prioridades americanas, afirmando que “restabelecerá o domínio militar dos Estados Unidos no continente americano”. “Iremos utilizá-lo para proteger a nossa pátria e o nosso acesso a zonas-chave da região”, pode ler-se no documento.
“Vamos proteger as fronteiras e as aproximações marítimas dos Estados Unidos e defender os céus do nosso país através do Golden Dome for America e de um foco renovado no combate às ameaças aéreas não tripuladas“, estabelece o Pentágono, manifestando-se determinado em garantir “o acesso militar e comercial dos EUA a terrenos estratégicos, especialmente o Canal do Panamá, o Golfo da América e a Gronelândia”, e a “fornecer ao Presidente Trump opções militares credíveis para usar contra os narcoterroristas, onde quer que eles estejam”.
“Este é o Corolário Trump à Doutrina Monroe, e as forças armadas americanas estão prontas para aplicá-lo com rapidez, poder e precisão, como o mundo viu na Operação ABSOLUTE RESOLVE”. Esta resultou na extração do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em Caracas no dia 3 de janeiro, para o conduzir a um tribunal em Nova Iorque, como realça o Pentágono.
Em relação à China, o documento assegura que “Trump busca uma paz estável, comércio justo e relações respeitosas” com Pequim, e “demonstrou que está disposto a dialogar diretamente com o presidente [chinês] Xi Jinping para alcançar esses objetivos”.
Porém, acrescenta, “o presidente Trump também mostrou como é importante negociar a partir de uma posição de força”, pelo que é sublinhado um “objetivo simples”: “impedir que qualquer país, incluindo a China, possa dominar-nos ou aos nossos aliados — em essência, estabelecer as condições militares necessárias para alcançar o objetivo da NSS [estratégia de segurança nacional] de um equilíbrio de poder no Indo-Pacífico que permita a todos nós desfrutarmos de uma paz digna”
“Para tal, conforme orienta a NSS , iremos erguer uma forte defesa de dissuasão ao longo da Primeira Cadeia de Ilhas [linha estratégica de arquipélagos no Pacífico Ocidental, estendo-se do Japão, Taiwan e Filipinas, até à Indonésia, ao longo da costa leste da China]” e “incentivaremos e capacitaremos os principais aliados e parceiros regionais a fazerem mais pela defesa coletiva”, reforçando a defesa por dissuasão, “para que todas as nações reconheçam que os seus interesses são melhor servidos através da paz e da contenção”, concretiza o documento.
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