Vai nascer no aeródromo de Tires o NOVA Aerospace, hub aeroespacial, reunindo Academia e empresas. José Branco, pró-Reitor da Universidade Nova de Lisboa, fala sobre os planos para o projeto.
O aeródromo de Tires vai ser um “aeroporto universitário”. A Nova vai instalar aí o Nova Aerospace, o hub dedicado ao aeroespacial, reunindo no mesmo espaço a Academia e as empresas. Para isso, tem 20 hectares de terreno, cedidos pela Câmara Municipal de Cascais, para construir o seu edifício, no qual irá investir cinco milhões de euros, mas o potencial de investimento na região é muito maior a partir do momento que as empresas começarem a instalar-se.
“Vamos trabalhar em conjunto a academia, o município, as entidades públicas para captar investimento e, no fundo, colocar Portugal como uma referência neste setor. Portugal hoje já é reconhecido no setor espacial, já tem algum reconhecimento, queremos agora dar um boost a esse reconhecimento e colocar definitivamente Portugal no radar deste setor”, diz José Branco, pró-Reitor da Universidade Nova de Lisboa para o Desenvolvimento Institucional e Angariação de Fundos, em entrevista ao ECO/eRadar.
O kick-off do cluster começa já este ano, com o arranque da licenciatura em Engenharia Espacial. “Queremos passar para ali tudo o que seja ensino e investigação na área espacial e aeronáutica, uma vez que vamos passar a ter acesso ao aeroporto. Esse é um fator distintivo muito relevante neste projeto”, diz.
“O foco principal deste projeto é a engenharia, mas vamos querer juntar mais três realidades: a gestão, portanto, a Nova SBE juntar-se-á a este projeto; direito — temos um centro de investigação em direito espacial que vai ser crítico nos próximos anos, é preciso regular o espaço aéreo para a mobilidade dos drones, dos eVTOL — medicina aeronáutica. Nós vamos juntar mais saberes naquele polo“, adianta.
O que motivou a Nova a fazer este investimento no Nova Aerospace?
A Nova tem o mestrado em Engenharia Aeroespacial há três anos e tem agora acreditado a licenciatura em Engenharia Aeroespacial, que vai começar precisamente em 2026. O Nova Aerospace em Carcavelos, mais concretamente no aeródromo de Cascais, é um projeto em parceria com o município de Cascais.
O município de Cascais também já tinha identificado há algum tempo que tinha ali um ativo que estava subaproveitado, que era preciso transformar, um ativo muito interessante naquele território, e lançou-nos o desafio de transformar aquele aeródromo num aeroporto universitário com ambição internacional. Esse é o nosso esforço, o nosso propósito e começámos então a trabalhar no projeto.
Queremos passar para ali tudo o que seja ensino e investigação na área espacial e aeronáutica, uma vez que vamos passar a ter acesso ao aeroporto. Esse é um fator distintivo muito relevante neste projeto, os nossos estudantes passam a ter acesso a um ambiente real, a poder fazer testes não destrutivos em algumas aeronaves que já lá estão, pelo menos duas que estão lá e que é possível utilizar. No fundo, estar com os pés na oficina, terem o contexto da realidade.
Vamos juntar as empresas. Já temos 20 hectares de terreno que a Câmara nos cedeu em direitos de superfície por 50 anos, renováveis, para implementar ali então o cluster de aeronáutica e espacial.
É levar a ideia do que acontece na medicina, do hospital universitário, neste caso, para um aeroporto universitário.
Com um fator adicional: vamos juntar as empresas. Já temos 20 hectares de terreno que a Câmara nos cedeu em direitos de superfície por 50 anos, renováveis, para implementar ali então o cluster de aeronáutica e espacial.
O projeto arranca com um investimento de 5 milhões. É esse o investimento previsto?
O custo de construir o edifício para nós e o equipamento são 5 milhões, mas o projeto é muito maior. É preciso infraestruturar, as empresas, que se lá vão instalar têm que investir na construção dos hangares. Portanto, o projeto tem um alcance, em termos de volume de investimento, muito mais significativo.
Há uma estimativa de que investimento poderá importar?
Nós fizemos um estudo no final de 2024, até com a EY, mas o contexto era um bocadinho diferente. Na altura, a ideia do município era concessionar o aeródromo e fazer um investimento também no próprio aeródromo e aí estávamos a falar de 165 milhões de euros de investimento global.
Mas agora, como o Presidente já anunciou, o aeródromo não vai ser concessionado, vai-se manter na esfera municipal, na Cascais Dinâmica, e não vai haver aumento de pista. Para o projeto que queremos desenvolver, não é um problema.
Cabe à Nova atrair as empresas? Já fecharam acordos?
Já fechamos pelo menos com uma, estamos a negociar com outra. Esta é uma parceria com o município, vamos trabalhar em conjunto para captar as empresas. E não só com o município. Assinámos um protocolo também com o IAPMEI para captar as pequenas e médias empresas.
No evento de terça-feira, tivemos aqui [no aeródromo de Tires] perto de 200 pessoas no auditório, criou-se um ambiente… Vi aqui reproduzido o ecossistema, tínhamos os reguladores, as empresas, os investigadores… Tivemos 18 projetos da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) a fazer pequenos pitchs e depois as empresas tiveram a oportunidade de falar com os investigadores e ver o potencial de translação do conhecimento.
Vamos trabalhar, em conjunto, a academia, o município, as entidades públicas para captar investimento e, no fundo, colocar Portugal como uma referência neste setor. Portugal hoje já é reconhecido no setor espacial, já tem algum reconhecimento, queremos agora dar um boost a esse reconhecimento e colocar definitivamente Portugal no radar deste setor.

Disse há pouco que fecharam ontem com uma empresa, refere-se à TAP?
Assinámos com a TAP, um dos projetos é a TAP Academy, mas há aqui interesse nas parcerias em termos académicos também, de ensino, investigação, doutoramentos em conjunto [com as empresas]. Uma aposta muito distintiva que nós queremos fazer naquele espaço é passar a ter doutoramentos em conjunto com as empresas. Faz uma diferença tremenda ter logo as empresas e os estudantes no ambiente real.
Desde a invasão russa da Ucrânia, na Europa o discurso no setor aeroespacial tem passado muito não só de uma utilização civil da tecnologia, mas também para a defesa. Também têm esse foco neste projeto?
Os projetos que foram apresentados, muitas daquelas tecnologias têm um uso duplo. Agora depende da empresa que queira pegar e transformar essas patentes em produto.
Um estudo recente da New Space Alliance falava da possibilidade do setor aeroespacial, com a captação de investimento público e privado, gerar uma economia anual de 2 mil milhões de euros, mas apontava a questão do talento como algo que tinha de ser endereçado.
É o tema mais crítico. A falta de talento está identificada. Tivemos [no evento] empresas do setor, desde a TAP até a Tekever, a Optimal, a Indra, portanto, empresas que atuam dentro do setor, mas em áreas diferentes e, na verdade, havia unanimidade que a questão do talento é crítica.
Nós, e não só — o Instituto Superior Técnico também está em Oeiras —, temos que unir todos os esforços e, mesmo assim, seremos poucos para abraçar este desafio e dar um contributo decisivo para esta indústria em Portugal. E nós vamos querer formar esse talento com qualidade, trazendo as empresas, o potencial de reter o talento ali é enorme.
Estamos também a fazer parcerias. A primeira que fizemos foi com o ITA Brasil (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), já temos o protocolo assinado. Mas no evento também esteve a universidade de Cranfield, uma referência nesta área, tem um aeroporto universitário, estamos a tentar fazer também uma parceria com eles. Aquilo que diziam, por exemplo, é que não têm nenhum doutoramento, nem nenhum mestrado, que não sejam consórcio com as empresas.
E em Portugal é um pouco isso que falta, não há essa ligação.
É o que falta e essa é a nossa linha de rumo. Queremos estar junto das empresas, perceber quais são os desafios que têm e responder a esses desafios sempre que possível. E isso vai fazer a diferença. Nós temos aqui um espaço enorme, que era isso que estávamos a ver com Cranfield também, que é a formação pós-graduada direcionada às empresas. A Indra, por exemplo, dizia-me que 30% dos seus quadros são pessoas doutoradas.
Além do talento, que é “crítico”, que outras situações deveriam ser endereçadas para fomentar o setor aeroespacial, num momento em que em Portugal e na Europa tanto se fala de soberania espacial? O que faria sentido implementar para que o caminho fosse menos cheio de pedras?
Tivemos também a ANI e a AICEP aqui connosco, além do IAPMEI. Tivemos estas duas entidades a apresentar os programas, as linhas de financiamento que têm. Há um pacote agora muito grande de 5,8 mil milhões só para Portugal, para o setor da defesa.
Refere-se ao SAFE.
E, portanto, vai-se abrir aqui muitas oportunidades. Nós temos é que alinhar os interesses todos. Na verdade, as políticas públicas também têm que estar alinhadas com esta prioridade, o que parece que está a acontecer. O contexto atual é positivo. E, portanto, nós acreditamos que o projeto vai ter muito sucesso.
Queríamos ter ao fim de quatro anos já, pelo menos, uma empresa lá instalada, sendo certo que daremos o pontapé de saída a começar já a próxima licenciatura no aeródromo de Cascais. A Câmara vai ceder instalações dentro do próprio aeródromo para que os estudantes comecem já em 2026 [a ter lá aulas].
Deram agora o kick-off do projeto, a construção…
A construção do espaço vai demorar tempo. No ano passado o município cedeu-nos os 20 hectares de terreno, agora estamos a aprovar o master plan, a seguir vamos ter que apresentar os projetos, infraestruturar… A primeira fase que nós aqui identificámos, são quatro anos aproximadamente para poder fazer a prova de conceito.
Ter ao fim de quatro anos já, pelo menos, uma empresa lá instalada, sendo certo que daremos o pontapé de saída a começar já a próxima licenciatura no aeródromo de Cascais. A Câmara vai ceder instalações dentro do próprio aeródromo para que os estudantes comecem já em 2026 [a ter lá aulas].
Enfim, não precisam ter todas as cadeiras lá, porque as básicas — física, matemática, etc. — podem ser dadas ainda na FCT, nas instalações atuais, mas depois as práticas vão ser dadas já lá no aeródromo.
E a Nova já tem garantido o orçamento que necessita, os 5 milhões?
O projeto paga-se a si próprio. Temos 20 hectares e, portanto, a ideia é utilizar aquele ativo para rentabilizar e, com isso, suportar não só o investimento inicial, mas depois toda a operação em velocidade de cruzeiro. Portanto, gerando rendas. A investigação não é propriamente uma coisa que seja lucrativa.
Num dos painéis, uma das empresas identificava as dificuldades que tinha e as oportunidades que via neste projeto e dizia ‘nós financiaremos o setor de investigação, os laboratórios, estamos disponíveis para isso’. Este é o grande ponto aqui. O que é que querem de volta? Querem o conhecimento.
O foco principal deste projeto é a engenharia, mas vamos querer juntar mais três realidades: a gestão, portanto, a NOVA SBE juntar-se-á a este projeto; direito — temos um centro de investigação em direito espacial que vai ser crítico nos próximos anos, é preciso regular o espaço aéreo para a mobilidade dos drones, dos eVTOL — medicina aeronáutica. Nós vamos juntar mais saberes naquele polo.
E até identificaram ali vários modelos. Uma solução é a empresa identifica um problema e coloca o desafio à universidade, à academia. A universidade pega naquilo, desenvolve a solução. A nossa contrapartida é o financiamento que obtivemos da empresa. Imagine agora que temos um projeto de investigação aplicada ou não e que tem ali um potencial, nessa altura podemos ir à empresa, a empresa pega nela e temos duas soluções, ou vendemos a patente ou ficamos com os royalties.
Portanto, há aqui nuances, o importante é esta abertura da Academia e das empresas e gerar-se confiança entre o setor empresarial e a Academia. Esse é o ponto que temos que resolver, mas a Nova tem uma tradição já muito grande, com evidências, a nossa relação com as empresas é singular.
O foco principal deste projeto é a engenharia, mas vamos querer juntar mais três realidades: a gestão, portanto, a Nova SBE juntar-se-á a este projeto; direito — temos um centro de investigação em direito espacial que vai ser crítico nos próximos anos, é preciso regular o espaço aéreo para a mobilidade dos drones, dos eVTOL — e medicina aeronáutica. Nós vamos juntar mais saberes naquele polo.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})
“Queremos colocar definitivamente Portugal no radar do setor aeroespacial”
{{ noCommentsLabel }}