Autárquicas em Oeiras: Quanto vale a marca Isaltino?

Com o PSD rendido à evidência, o autarca com "marca registada" é favorito para dia 12. Pela frente, a única vereadora que lhe faz frente, um braço direito de Ventura e a governante titular com Costa.

Dia de Carnaval em 1999, Cláudio Oeiras marca um golo no Estádio das Antas e o Torreense vence o Futebol Clube do Porto na Taça de Portugal. É daqueles acontecimentos a raiar a realidade virtual, como é, para o comum dos oeirenses, uma vitória de qualquer outro candidato em Oeiras que não Isaltino Morais, que este ano pode celebrar 40 anos a ganhar tudo em Oeiras. Os termos do anúncio do próprio, quando abriu conta no TikTok a 1 de julho, sintetizam a sua presença no município que faz fronteira com de Lisboa, Amadora, Cascais e Sintra: “eu estou em todo o lado”.

Tal é o culto da personalidade neste município que em 40 anos passou de subúrbio a um dos mais ricos do país, que os outdoors de propaganda eleitoral já nem necessitam de qualquer outro elemento para lá de “Isaltino” em letras garrafais – apenas acompanhado por “TM”, do inglês “Trademark”, um direito que, nos EUA, é próximo de marca registada (com algumas diferenças legais).

Após 40 anos de governação em Oeiras, com meia-dúzia de anos de interrupção, há um nome que não exige foto, apelido, muito menos de identificação de apoios partidários para as autárquicas de 12 de outubro. A candidatura de Isaltino Morais diz ao ECO/Local Online que tem 21 cartazes destes espalhados pelo concelho.Hugo Amaral/ECO

Para o enfrentar, uma mão cheia de candidatos que procuram o seu dia à Torreense: Ana Sofia Antunes (ex-secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência nos governos de António Costa e candidata do PS e PAN), Bruno Martins (Iniciativa Liberal), Carla Castelo (coligação Evoluir Oeiras, Livre/BE/Volt), Pedro Frazão (Chega) e Sandra Lemos (CDU).

O candidato do Chega não poderia esperar melhor dia para se revelar candidato, 26 de junho, o mesmo em que a Câmara foi alvo de buscas e o vice-presidente do partido de André Ventura logo acorreu ao X para, em maiúsculas, versejar: “Chega de corrupção. Vota no Frazão”.

PS contra o “culto da personalidade”

O PS, que já tentou de tudo um pouco, incluindo a repescagem do autarca que na vizinha Amadora – concelho que até já fez parte de Oeiras, até que em 1979 se tornou independente – bateu o PCP em 1997 (Joaquim Raposo acabaria por não repetir a façanha frente a Isaltino) apresenta agora uma ex-ministra de António Costa e ex-deputada, Ana Sofia Antunes.

Depois de anos de desaires, o PS de Oeiras parece finalmente encontrar um rumo, uma liderança capaz de galvanizar as suas bases e de oferecer uma alternativa real aos munícipes”, escreveu, na revista Visão, o vice-presidente da Juventude Socialista da Área Urbana de Lisboa. A socialista enfrenta um “desafio que não será fácil num concelho onde o culto da personalidade (como já cantavam os Living Colour) é prática quotidiana”, escreve o socialista.

Só que o próprio PS tem contribuído para o “culto da personalidade”, não evitando que vereadores seus entrem nos Executivos de Isaltino.

Foi o que voltou a acontecer em 2022, com a sua vereadora a aceitar pelouros. O vice-presidente da JS passa ao lado do tema e escreve que “Oeiras tem sido dominada há demasiado tempo por um homem – Isaltino Morais – que, na reta final da sua carreira (felizmente), parece mais focado no mediatismo e nas poses para o Instagram do que nas necessidades de quem aqui vive”.

Hoje, dos onze vereadores eleitos para a Câmara de Oeiras, oito são do movimento do político nascido em Mirandela, dois do PS e PSD (Ana Fonseca e Susana Duarte) e uma, Carla Castelo, independente apoiada pelo Bloco de Esquerda.

Esta é a única “dissidente” entre os eleitos, e a recandidata faz questão de o salientar. A animosidade com o Executivo foi ao ponto de motivar, em 2022, uma disputa judicial pela forma como ela é identificada no site da Câmara. Por acordo em tribunal, a equipa de Isaltino resignou-se, apagou do site “Carla Castelo – Bloco de Esquerda” e identifica-a agora como “vereadora independente indicada pelo Bloco de Esquerda na extinta coligação Evoluir Oeiras [BE/Livre/Volt]”.

A recandidata em 2025, de novo pela coligação Evoluir Oeiras, entendia ser uma questão de “defesa do seu direito à identidade pessoal” e ganhou, mas Isaltino não se fica: “Não quer o ferrete do Bloco de Esquerda, mas está na sua testa gravado, gravado. Acusa a Câmara Municipal de falta de transparência, disto e daquilo, mas não é capaz de acusar de falta de legalidade”, disse o autarca, numa reunião de Câmara.

Com o PS e o PSD a aceitar pelouros no executivo do INOV, Carla Castelo e a Coligação Evoluir Oeiras foram a única oposição a Isaltino Morais na Câmara Municipal de Oeiras ao longo deste mandato, tendo estado na linha da frente na denúncia e combate às políticas promovidas pelo executivo”, escreveu a candidatura da coligação Livre/BE/Volt na apresentação, a 12 de julho.

Carla Castelo e a Coligação Evoluir Oeiras, prossegue a nota, “foram as vozes mais críticas nos muitos casos que marcaram este mandato de Isaltino Morais, como o do aterro ilegal em Reserva Ecológica Nacional, os chamados ‘almoços de trabalho’ pagos pela Câmara Municipal de Oeiras, a tentativa de censura de um cartaz, localizado em Algés, que denunciava abusos sexuais de menores no seio da Igreja Católica ou, mais recentemente, o caso da contratação sem concurso da filha do Presidente da Câmara para a prestação de serviços de psicologia”.

PSD evita repetir o vexame de 2021

Nascido numa terra onde 83 votos chegaram para dar vitória ao presidente da Junta eleito pelo PSD, Isaltino conquistou 38.776 oeirenses nessa mesma eleição de 2021. Se ganhar a 12 de outubro, chegará ao final do terceiro mandato consecutivo a dois meses dos 80 anos.

Nascido para a política numa reunião em Algés por volta dos 35 anos de idade, Isaltino habituou o PSD a grandes vitórias e, após o choque com Marques Mendes, habituou o partido a ser arrasado. Há quatro anos superou a votação “laranja” em 40 pontos percentuais. Agora, o PSD, percebendo que não valia a pena submeter a si e a outro quadro seu o vexame que Alexandre Poço protagonizou, rende-se ao seu ex-autarca.

Isaltino e o PSD andaram de mão dada em Oeiras de 1985 a 2005. Em 2025, o partido volta a apoiar o seu ex-autarca, mas a seta tricolor não se vê nas ruas do concelho, uma novidade em quase meio século (imagem de arquivo Ephemera)

O PSD de Rui Rio ponderou e teve tudo praticamente fechado para o apoiar. Não houve foi coragem para finalizar a vontade que havia”, diz ao ECO/Local Online o responsável autárquico do PSD, partido que, pela primeira vez em quase meio século numa eleição em Oeiras, não terá o seu logótipo nas ruas do concelho.

“Sim, eu Poço” e “A dar tudo por Oeiras”, com cartazes a fazer lembrar a irreverência da Iniciativa Liberal, não chegou para os eleitores escolherem o presidente da JSD, “James Bond do PSD”, como lhe chamou o comentador e articulista do Expresso Daniel Oliveira — embora o filme de Alexandre Poço fosse outro, quando se atirou de um avião na campanha, ao estilo de Ethan Hunt, estrela do blockbuster americano “Missão Impossível”.

Poço apresentou-se com a mensagem de que “Nada é eterno, não há terras nem sítios de um homem só”, mas acabou com 6032 votos, 7,9%, e tantos vereadores quanto o Bloco de Esquerda. Na maior freguesia de Oeiras, onde votam um terço dos oeirenses, o PSD ficou atrás do Bloco no boletim para a Câmara.

Poço não aqueceu o lugar de vereador (chegaria depois a vice-presidente do PSD) e a sua substituta aceitou fazer parte do Executivo de Oeiras, tal como fez a do PS.

Mesmo quando na sede do PSD se baniu Isaltino e se impôs candidatos, as secções concelhias de Oeiras e Algés torceram o nariz. No mandato que termina dentro de um mês, a decisão de Rui Rio de levar Alexandre Poço a votos fez com que o presidente da Comissão Política de Oeiras, Armando Cardoso, que declarava apoiar Isaltino, se demitisse.

Teresa Zambujo, que foi vice de Isaltino Morais, recebeu de Marques Mendes a incumbência de tentar destronar o autarca que há duas décadas ganhava eleições em Oeiras para os social-democratas (imagem arquivo Ephemera). A decisão de Marques Mendes, presidente do partido, valeu-lhe uma derrota copiosa e, aparentemente, uma inimizade para a vida

As fricções entre estruturas local e nacional remontam à primeira candidatura do PSD em Oeiras sem Isaltino, há 20 anos. Teresa Zambujo era vice de Isaltino quando este foi para o Governo de Durão Barroso e subiu a presidente. Marques Mendes prescindiu de Isaltino para as autárquicas de 2005. Avançou Zambujo, e ainda hoje o agora candidato a Presidente da República ouve ecos da decisão.

Isaltino avançou como independente e não poupou nas críticas à ex-aliada: “Faço disso [escolha de Zambujo para vice] um ‘mea culpa’. As pessoas são boas para umas coisas e más para outras”, afirmou então. A guerra de palavras foi acesa naqueles tempos e Zambujo, acusada em panfletos largados pelo concelho de deter rendimentos obtidos de forma ilegal, atacava o seu anterior presidente, que era acusado de ter conta bancária na Suíça em nome de um sobrinho: “o meu património está em meu nome e do meu marido, não está em nome de nenhum irmão, amigo, primo ou sobrinho”.

O autarca, que se habituou a prosperar politicamente fora do PSD nesse ano de 2005, e que insiste, 20 anos depois, que permanece independente (o apoio do PSD é bem-vindo mas não o condiciona, acentua), acabaria por ter nova vitória, com Zambujo a apenas 3,5 pontos percentuais, o melhor que o partido viria a conseguir desde então.

Oeiras, vale de espinhos para qualquer tipo de opositor

Quem siga o rumo autárquico em Oeiras, lembrar-se-á de uma sala a gritar “Isaltino, Isaltino” na vitória eleitoral do movimento independente “Isaltino Oeiras mais à Frente”, em 2013. Com uma particularidade: quem tinham à frente como presidente eleito era Paulo Vistas, ex-vice-presidente do homem que naquele mesmo dia 29 de setembro estava a cumprir pena de prisão no concelho vizinho de Sintra.

Foi a vitória mais curta de sempre de uma lista com o nome de Isaltino (33,45%). Marcos Sá, candidato do PS (18,34%), salientou que “esta vitória foi de Isaltino Morais e até o próprio Paulo Vistas disse isso, portanto, isso explica tudo”. Apesar da prisão do homem que inventou o Oeiras Valley, o PSD de Moita Flores não foi além de 19,15%, mesmo assim melhor que em 2009, quando o PS obteve um quarto dos votos.

A imprensa deu nota de que Jorge Coelho, então coordenador autárquico, e o líder do PS José Sócrates preferiam Maria de Belém, mas esta recusou – e também António José Seguro terá sido sondado, sem sucesso.

Emanuel Martins – maçom, como Isaltino, escreve a Sábado, com o Observador a noticiar que as mais recentes obras no Parque dos Poetas são “triangulação maçónica” –, com mais de uma década de vereador, aceitou o lugar no Executivo e assegurou a maioria absoluta ao “dinossauro”.

Na altura, o socialista viu-se envolvido numa polémica por, alegadamente, ter tentado pressionar a secretária do autarca, que denunciara a conta bancária na Suíça em nome do sobrinho, a voltar atrás no testemunho. O transmontano acabaria mesmo preso por fraude fiscal e branqueamento de capitais. Uma ressalva que não se cansa de fazer, frisando até hoje que a condenação nada teve a ver com corrupção ou qualquer ilicitude no exercício de funções.

Em janeiro, numa entrevista ao ECO/Local Online, Isaltino destacava, quando questionado sobre o seu poder eleitoral mesmo após ter saído da prisão, que “a população é egoísta, vota em quem lhe dá mais”.

Em 2017, António Costa, que era primeiro-ministro havia dois anos, foi repescar Joaquim Raposo, autarca que ganhou a Câmara da Amadora ao PCP, para derrubar Isaltino. Raposo dizia acreditar que a “geringonça” lhe daria impulso. Debalde. MANUEL DE ALMEIDA / LUSAMANUEL DE ALMEIDA / LUSA

Em 2017, no mandato que ditou o regresso de Isaltino à luta autárquica após a prisão, o socialista Joaquim Raposo prometia “fazer o que ainda não feito” e apresentava-se aos Oeirenses ao lado do então primeiro-ministro António Costa e do sucessor deste na Câmara de Lisboa, Fernando Medina. Raposo dizia ao Observador que esperava contar com o estado de graça do Governo da “geringonça” para bater uma luta entre a criatura, Paulo Vistas, recandidato, e o criador, Isaltino, retornado à luta, num novo movimento, IN-OV. O seu fora capturado por Vistas – que apenas fez um pequeno “twist” no nome do movimento criado por Isaltino, mantendo a sigla IOMAF, mas agora o I significava Independentes. Mas de pouco valeu o apoio dado pelo primeiro-ministro no Palácio do Marquês de Pombal. Raposo não conseguiu repetir o feito obtido em 1997 na Amadora, quando retirou a Câmara ao PCP e lá governou 16 anos.

Ainda havia Ângelo Pereira, líder do PSD Oeiras, mais uma “vítima” eleitoral da decisão de Marques Mendes em 2005. A votação foi clara: Isaltino 42%; Vistas 14%; Raposo 13,5%, PSD 9%, numa escassa vantagem de 800 votos sobre Heloísa Apolónia, candidata da CDU. O mesmo Pereira que acabaria, quatro anos depois, como vereador de Carlos Moedas em Lisboa, suspendendo o mandato este ano por suspeita de benefício numa viagem à China feita por uma empresa que fez negócios com a Câmara de Oeiras.

Nada demovia os oeirenses do autarca com quem o concelho escalou degraus na qualidade de vida, escolaridade (no atual mandato, a Câmara começou a pagar as propinas universitários dos jovens do concelho sem rendimentos para tal), evolução económica, extinção dos bairros de barracas, melhoria dos espaços públicos e mais uma série de indicadores de progresso que Isaltino destaca. Na entrevista do início do ano ao ECO/Local Online, o autarca realçava que até os ricos apreciam a política social da Câmara, um garante da segurança que caracteriza Oeiras, salientou então.

Mas também foi este autarca que criou o elefante branco chamado SATU, um elevador que deveria servir o Tagus Park a partir da estação da CP em Paço de Arcos, mas não chegou a atingir 1 km de extensão, sendo ainda hoje uma chaga visual nas ruas de Paço de Arcos. A obra, contudo, vai mesmo chegar à linha de Sintra em breve, promete o recandidato, cujo discurso nem contempla uma hipotética derrota a 12 de outubro. É quase uma questão de saber por quantos ganha. Mas também se aguenta a maioria, agora que tem, por exemplo, um Chega robustecido em São Bento.

Isaltino, o homem que num certo domingo há mais de quatro décadas passou na A5 em passeio, viu Carnaxide e no mesmo dia decidiu trocar a residência em Ponte de Frielas (Loures) por Oeiras, cita Shakespeare no seu livro “A Minha Prisão” e parece falar para quem o enfrenta nas urnas: “o tempo é muito lento para os que esperam”.

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