2025: Entre a insolvência e a reinvenção
O aumento das insolvências envolvendo empresas de maior dimensão e com relevância nacional tornou-se um dos sinais mais preocupantes da atual conjuntura.
O crescimento acentuado do número de insolvências registado em Portugal em 2025 constitui um reflexo nítido da fragilidade estrutural da economia nacional. É um retrato que evidencia um tecido empresarial ainda insuficientemente capitalizado, demasiado vulnerável a choques externos e incapaz de sustentar o seu desenvolvimento sem condições financeiras excecionalmente favoráveis.
É inegável que as taxas de juro elevadas, a persistência da inflação, o abrandamento económico europeu e a conjuntura internacional adversa contribuem decisivamente para este cenário. Contudo, imputar-lhes toda a responsabilidade seria não apenas simplista, mas profundamente incorreto. Uma parte significativa das empresas portuguesas opera há vários anos com margens reduzidas, produtividade estagnada e uma dependência excessiva do financiamento bancário. O que se observa em 2025 é, em grande medida, o colapso de um modelo empresarial que não foi modernizado atempadamente.
Ao contrário do que acontecia há alguns anos, não são apenas micro e pequenas empresas familiares a enfrentar situações de rutura financeira. O aumento das insolvências envolvendo empresas de maior dimensão e com relevância nacional tornou-se um dos sinais mais preocupantes da atual conjuntura. Organizações com décadas de atividade, faturações significativas e presença consolidada no mercado estão a sucumbir ao aumento dos custos operacionais, ao sobre-endividamento e à dificuldade em acompanhar as exigências tecnológicas e competitivas que hoje se impõem.
Paralelamente, verificou-se uma redução no número de planos de recuperação aprovados. Tal tendência demonstra que muitas empresas já nem conseguem apresentar soluções credíveis e sustentáveis para evitar a insolvência, o que revela a profundidade da deterioração financeira e operacional existente.
As consequências deste fenómeno extravasam em muito o universo das empresas diretamente afetadas. O impacto propaga-se por toda a cadeia económica, atingindo fornecedores, trabalhadores, consumidores e comunidades locais, deteriorando a confiança no tecido empresarial português e gerando um efeito dominó de natureza sistémica.
Mais grave do que a própria dimensão numérica das insolvências — já de si alarmante — é a insuficiência da resposta pública e privada ao problema. Mantém-se a convicção, ilusória, de que o cenário regressará à normalidade com a descida das taxas de juro ou com uma melhoria das condições de crédito. Tal expectativa ignora que questões estruturais como a crónica subcapitalização das empresas, o investimento produtivo insuficiente, a burocracia excessiva e a confusão recorrente entre prudência e inação se foram acumulando ao longo de anos, conduzindo inevitavelmente à situação crítica que hoje se vivencia.
Portugal necessita de um novo modelo económico: menos dependente do crédito fácil e mais orientado para a capitalização empresarial; menos focado na sobrevivência passiva e mais comprometido com reestruturações preventivas e efetivas; menos refém de políticas conjunturais e mais ancorado em estratégias consistentes de médio e longo prazo.
Este desafio exige coragem — política, empresarial e social. Os empresários devem assumir um papel mais ambicioso, investindo na modernização, na profissionalização da gestão, na inovação e em setores com potencial estratégico. Devem igualmente exigir condições de financiamento adequadas, particularmente em setores essenciais, mas estruturalmente vulneráveis, como a agricultura. Por sua vez, o Estado não pode limitar-se a reagir: tem de simplificar, desburocratizar e criar verdadeiros incentivos ao investimento, à capitalização e à reestruturação precoce.
O aumento das insolvências em 2025 constitui um aviso inequívoco. E como qualquer aviso, só cumpre a sua função se for devidamente ouvido. A questão determinante é saber se teremos, finalmente, a capacidade — e a vontade — de agir antes que o próximo ciclo económico adverso nos encontre, mais uma vez, desprevenidos.
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