2026: Desafios da Defesa e o papel da indústria portuguesa
2026 deve ser o ano em que damos o passo seguinte: estruturar esta capacidade industrial de forma mais integrada e orientada para objetivos nacionais.
2026 será um ano determinante para o setor da Defesa. A instabilidade geopolítica, a transição tecnológica acelerada e a crescente integração entre economia e segurança fazem com que a Defesa deixe de ser apenas um tema estratégico: passa a ser, cada vez mais, um pilar de soberania industrial e competitividade nacional.
Os principais aliados europeus estão a responder a este novo contexto com reforço de investimento, consolidação industrial e políticas de autonomia estratégica. A pressão sobre a NATO para aumentar contributos, a necessidade de proteger infraestruturas críticas e o aparecimento de novas ameaças híbridas tornam claro que o paradigma mudou: a Defesa já não é apenas militar, é tecnológica, cibernética e económica.
Portugal enfrenta aqui um duplo desafio. Por um lado, assegurar que as suas Forças Armadas dispõem de meios modernos, interoperáveis e alinhados com os padrões da Aliança. Por outro lado, garantir que o investimento na Defesa cria valor para o país, estimulando inovação, indústria e emprego qualificado. O “preço mais baixo” é, muitas vezes, avaliado apenas com base no valor imediato, sem consideração pelo verdadeiro impacto económico para o país. Simplificando: 1 euro investido em tecnologia estrangeira “é mais caro” do que 1 euro investido em tecnologia nacional. Isto porque, no segundo caso, existe um retorno direto em impostos, seguido por retorno em salários (também tributados), que por sua vez se transformam em consumo interno, gerando nova receita para a economia nacional. Tudo isto sem contabilizar o valor adicional da propriedade intelectual desenvolvida no país, bem como o seu efeito multiplicador em empresas de 2nd e 3rd tier que integram a cadeia de fornecimento.
Portugal enfrenta aqui um duplo desafio. Por um lado, assegurar que as suas Forças Armadas dispõem de meios modernos, interoperáveis e alinhados com os padrões da Aliança. Por outro lado, garantir que o investimento na Defesa cria valor para o país, estimulando inovação, indústria e emprego qualificado. O “preço mais baixo” é, muitas vezes, avaliado apenas com base no valor imediato, sem consideração pelo verdadeiro impacto económico para o país. Simplificando: 1 euro investido em tecnologia estrangeira “é mais caro” do que 1 euro investido em tecnologia nacional.
A boa notícia é que Portugal tem, hoje, capacidades reais para contribuir. A nossa base tecnológica e industrial de Defesa cresceu de forma consistente nos últimos anos, com empresas que exportam sistemas, plataformas e software para vários países. Em áreas como sistemas aéreos não tripulados, comunicações, inteligência artificial aplicada e soluções dual-use, há já um ecossistema sólido, com ligação à academia e centros de I&D.
Há também um trabalho essencial de seleção tecnológica. Acreditar que Portugal “irá fazer tudo” e que “há dinheiro para tudo” é uma falácia. Esse pensamento dispersa recursos e desvia o foco das áreas onde já temos presença e competitividade internacional. É precisamente através de escolhas estratégicas, concentrando investimento, talento e inovação nos domínios em que podemos ser relevantes, que o país maximiza o retorno económico e tecnológico para o setor da Defesa. A liderança nacional do programa SAFE é um excelente exemplo disso.
2026 deve ser o ano em que damos o passo seguinte: estruturar esta capacidade industrial de forma mais integrada e orientada para objetivos nacionais. Isso implica três prioridades.
A primeira é reconhecimento político e estratégico. A indústria de Defesa não é apenas fornecedora de equipamentos; é motor de inovação, qualificação e autonomia tecnológica. Países que assimilaram esta ideia criaram clusters industriais fortes e sustentáveis.
A segunda é continuidade de investimento. Projetos de Defesa exigem estabilidade e visão, não, sinusoides de investimento, nem camadas sucessivas de selos e acreditações que pouco acrescentam ao resultado operacional. A previsibilidade orçamental, o acesso a programas europeus, e compras recorrentes em áreas estratégicas são essenciais para que as empresas portuguesas possam competir em pé de igualdade.
Portugal tem aqui uma oportunidade rara. Somos um país com talento, empresas inovadoras e parceiros internacionais. Se conseguirmos alinhar estratégia, políticas públicas e visão industrial, podemos ser mais do que utilizadores de tecnologia: podemos ser produtores, exportadores e influenciadores.
A terceira é uma colaboração mais próxima entre Forças Armadas, indústria e sistema científico. Desenvolver em Portugal, testar em Portugal e exportar a partir de Portugal deve ser a ambição (infelizmente o processo de exportação de equipamentos de duplo uso em Portugal continua excessivamente complexo, devido à burocracia e excesso regulamentação). Isto cria conhecimento, massa crítica e reforça a capacidade operacional nacional.
Portugal tem aqui uma oportunidade rara. Somos um país com talento, empresas inovadoras e parceiros internacionais. Se conseguirmos alinhar estratégia, políticas públicas e visão industrial, podemos ser mais do que utilizadores de tecnologia: podemos ser produtores, exportadores e influenciadores. Esta cultura não existe em Portugal, mas existe uma janela de oportunidade que não devemos deixar fugir.
Num mundo mais incerto, a Defesa passa a ser também economia. E 2026 será o ano em que esta realidade se tornará impossível de ignorar. O contributo português pode (deve) ser relevante. Depende apenas da nossa capacidade de acreditar no valor da indústria nacional e de lhe dar condições para crescer.
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