A consciência do Valor Presente e do Valor Futuro

  • Isabel Cipriano
  • 11 Fevereiro 2026

Nas regiões afetadas pela tempestade, pensar em termos de VF trata-se, em última instância de transformar a despesa de emergência numa oportunidade de correção estrutural.

O valor temporal do dinheiro baseia-se na ideia de que este pode gerar rendimento ao longo do tempo. Assim, receber uma determinada quantia hoje é preferível a recebê-la no futuro, porque o montante atual pode ser investido, poupado ou aplicado, gerando juros ou outros benefícios económicos.

Em termos práticos significa que no contexto da gestão e das finanças, é essencial compreender o que representa o dinheiro ao longo do tempo, ou o seu valor temporal: um euro hoje não tem o mesmo valor que um euro no futuro. E por razões variadas: a inflação (que reduz o poder de compra); a incerteza de receber valores futuros e ainda o custo de oportunidade (o rendimento que se abdica ao não aplicar o dinheiro noutra alternativa).

Este conceito de Valor Presente (VP) continua ancorado em critérios de curto prazo, em métricas nominais e numa leitura tecnocrática e acrítica. Embora indispensável para avaliar a eficiência económica dos projetos, o valor presente, quando usado de forma isolada, é insuficiente para responder à questão central da política económica: que encargos estamos a transferir para o futuro e com que grau de sustentabilidade?

Para tomarmos uma decisão financeiramente fundamentada, é necessário comparar ambas as opções no mesmo momento do tempo, recorrendo ao conceito de Valor Presente que na prática, corresponde ao valor atual de um montante a receber ou a pagar no futuro, descontado a uma determinada taxa de juro ou taxa de desconto, que nos permite saber quanto vale hoje um determinado montante que só será recebido no futuro.

Um caso prático: Imaginemos um indivíduo que pode escolher entre duas alternativas mutuamente exclusivas: receber 1.000 euros hoje; ou receber 1.100 euros daqui a um ano. Admitindo uma taxa de juro de mercado de 5% ao ano, o Valor Presente dos 1.100 euros a receber no futuro é dado matematicamente por: VP = VF /(1+i), em que o i é a taxa de juro. Ou seja, isto significa que receber 1.100 euros daqui a um ano equivale, hoje, a receber cerca de 1.047,62 euros. Logo a opção financeiramente mais vantajosa, nestas condições, é adiar o recebimento e optar pelos 1.100 € no futuro.

O exemplo descrito ilustra que a decisão não depende apenas dos valores nominais apresentados, mas sobretudo da taxa de juro enquanto custo de oportunidade. Caso a taxa de juro fosse igual ou superior a 10%, o Valor Presente dos 1.100 euros seria igual ou inferior a 1.000 euros, tornando racional escolher o recebimento imediato. Este tipo de raciocínio é fundamental na escolha entre alternativas de consumo, poupança ou investimento, permitindo evitar decisões aparentemente intuitivas, mas financeiramente incorretas quando analisadas à luz do valor temporal do dinheiro.

Por outro lado, o Valor Futuro (VF) representa o montante que um valor atual irá atingir num determinado momento futuro, após a aplicação de uma taxa de juro durante um determinado período, que nos permite saber quanto valerá no futuro um montante investido hoje.

Um exemplo: um indivíduo decide poupar 2.000 euros hoje, aplicando esse montante a uma taxa de juro anual de 4%, durante um período de cinco anos, com capitalização anual. A questão relevante não é apenas se o montante aumenta, mas quanto aumenta e porquê. Para isso, recorre-se ao conceito de VF, que permite calcular o montante acumulado ao fim do período de investimento, ou seja, VF=VP x (1 +i) n, em que i é a taxa de juro e n o número de anos. Neste caso, ao fim de 5 anos, a poupança inicial de 2.000 euros transforma-se em cerca de 2.433 euros, sem que a pessoa tenha realizado qualquer esforço adicional de poupança. O acréscimo de aproximadamente 433 euros resulta exclusivamente do efeito dos juros compostos, isto é, do facto de os juros gerados em cada ano passarem, eles próprios, a gerar juros nos anos seguintes.

Na gestão empresarial, o Valor Presente é amplamente utilizado na análise de investimentos, nomeadamente através do Valor Atual Líquido (VAL). Um projeto só deve ser aceite se o valor atual dos benefícios futuros for superior ao investimento inicial ou seja, uma empresa que investe hoje num novo equipamento espera obter fluxos de caixa futuros. A decisão de investir depende do Valor Presente desses fluxos e não apenas do montante total esperado.

As empresas que ignoram o valor temporal do dinheiro correm o risco de sobreavaliar projetos aparentemente lucrativos, mas financeiramente ineficientes quando analisados em termos de Valor Presente. Confundir VP com VF pode conduzir a decisões financeiras incorretas. Enquanto o VP está orientado para a avaliação no momento atual, o VF está focado na projeção e planeamento.

A análise de investimentos públicos — como infraestruturas de transporte, hospitais, escolas, projetos ambientais ou de transição energética — exige uma utilização rigorosa e complementar dos conceitos de Valor Presente e Valor Futuro. Ao contrário das decisões privadas, estas escolhas envolvem recursos escassos, impactos de longo prazo e consequências económicas e sociais significativas para a comunidade.

Na avaliação económica clássica dos projetos públicos, o Valor Presente assume um papel central, pois permite comparar custos e benefícios que ocorrem em diferentes momentos do tempo. Benefícios futuros, como poupanças de tempo, redução de emissões de dióxido de carbono (CO₂) ou ganhos de produtividade, devem ser trazidos ao presente através de taxas de desconto socialmente adequadas.

A utilização de taxas de desconto excessivamente elevadas pode conduzir à rejeição sistemática de projetos com benefícios de longo prazo, enquanto taxas demasiado baixas podem levar à aceitação de investimentos economicamente ineficientes. Contudo, quando o foco se desloca da seleção de projetos para a gestão sustentável da despesa pública, o Valor Futuro surge como um critério particularmente relevante. A despesa pública não ocorre de forma isolada, mas sim em simultâneo com investimentos de médio e longo prazo, compromissos plurianuais e responsabilidades intergeracionais.

Num contexto de regras orçamentais, de dívida elevada e pressões demográficas crescentes, a verdadeira restrição não é apenas a viabilidade económica dos investimentos, mas a capacidade do Estado de absorver, financiar e manter a despesa associada ao longo do tempo. É aqui que o Valor Futuro assume um papel decisivo enquanto critério político-económico.

Avaliar a despesa pública em termos de Valor Futuro obriga o decisor a confrontar-se com os efeitos cumulativos das decisões atuais: capitalização de encargos, rigidez orçamental, redução da margem de manobra para políticas futuras e potenciais conflitos de equidade intergeracional. Ignorar esta perspetiva equivale a externalizar custos para decisores futuros, limitando a sua capacidade de escolha.

Mais do que uma questão técnica, trata-se de uma opção de governação. Um investimento público pode apresentar um Valor Presente positivo e, ainda assim, comprometer a sustentabilidade das finanças públicas se o seu Valor Futuro da despesa for incompatível com a trajetória orçamental de médio e longo prazo. Neste sentido, uma política económica responsável deve abandonar a dicotomia simplista entre investimento “bom” e despesa “má” e adotar uma abordagem integrada, onde o Valor Presente informa a eficiência e o Valor Futuro disciplina a sustentabilidade.

Esta abordagem torna-se particularmente crítica no contexto da recuperação de Portugal face a fenómenos climáticos extremos, como os verificados nas zonas recentemente declaradas em situação de calamidade devido às tempestades deste mês. A resposta pública a estes eventos tende, de forma compreensível, a privilegiar a rapidez da execução e o impacto imediato da despesa. Contudo, uma intervenção centrada exclusivamente no curto prazo corre o risco de perpetuar vulnerabilidades estruturais.

Incorporar o Valor Futuro na reconstrução e recuperação significa avaliar não apenas o custo imediato das intervenções, mas também os encargos futuros associados à manutenção de infraestruturas, à resiliência territorial, à adaptação climática e à repetição previsível destes eventos. Investimentos que minimizam o impacto orçamental hoje, mas aumentam a exposição a choques futuros, representam uma falsa eficiência económica.

Nas regiões afetadas, pensar em termos de Valor Futuro implica optar por soluções que reduzam custos acumulados ao longo do tempo, reforcem a capacidade de resposta do território e evitem a socialização contínua de prejuízos privados. Trata-se, em última instância, de transformar a despesa de emergência numa oportunidade de correção estrutural, em vez de a cristalizar como encargo permanente para as finanças públicas. Só assim será possível garantir que as decisões tomadas hoje não se transformam nos constrangimentos estruturais de amanhã.

  • Isabel Cipriano
  • Presidente da APOTEC – Associação Portuguesa de Técnicos de Contabilidade

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