A inovação cria valor, mas exige confiança e fiscalização

  • Virgílio Macedo
  • 12:30

A auditoria não é um entrave à inovação, é um dos seus principais garantes. Sem dados fiáveis, não há decisões informadas, nem confiança no funcionamento da economia.

A economia está a passar por uma transformação acelerada, impulsionada pela tecnologia e pela digitalização dos processos. Esta evolução tem vindo a alterar a forma como as empresas, o Estado e o mercado interagem, criando novas oportunidades de eficiência, transparência e competitividade. A modernização digital é um caminho que deve ser seguido e aprofundado, e que sempre defendi como essencial para o futuro da economia portuguesa.

Não há dúvidas de que a simplificação administrativa e a digitalização da informação trazem benefícios. Processos mais rápidos, menor dependência de papel, redução de redundâncias e maior facilidade de acesso a dados oficiais permitem às empresas concentrar recursos na sua atividade principal. Para o tecido empresarial, em particular para as pequenas e médias empresas, estes ganhos de eficiência não são meramente operacionais: têm impacto direto na produtividade e na capacidade de competir.

No entanto, a transformação digital não elimina riscos. Um dos principais desafios é a confiança excessiva na informação automática. O facto de os dados serem disponibilizados por via digital e provenientes de fontes oficiais pode criar a perceção de que são sempre completos, atualizados e suficientes para qualquer decisão. Essa perceção é perigosa. A informação só cria valor quando é analisada, contextualizada e validada de forma rigorosa.

Outro desafio relevante resulta da crescente centralização e interligação dos dados. Sistemas mais integrados aumentam a eficiência, mas também amplificam o impacto de eventuais erros, omissões ou atrasos de atualização.

Por isso, a digitalização deve ser acompanhada por mecanismos claros de validação, responsabilidades bem definidas e processos eficazes de correção. É exatamente esse o papel da fiscalização e do controlo: assegurar que a informação reflete, em cada momento, a realidade económica e financeira.

Neste contexto, a auditoria assume um papel ainda mais determinante. Num ambiente cada vez mais digital, em que a informação circula com maior rapidez e é utilizada em múltiplos contextos, o rigor, a independência e a verificação tornam-se essenciais. A auditoria não é um entrave à inovação, é um dos seus principais garantes. Sem dados fiáveis, não há decisões informadas, nem confiança no funcionamento da economia.

A boa notícia é que estes desafios não colocam em causa os benefícios da digitalização. São, antes, a contrapartida natural de uma economia mais moderna e mais tecnológica. Quando a inovação é acompanhada por boas práticas de governação, por fiscalização eficaz e por uma cultura de rigor, a tecnologia deixa de ser apenas um meio e passa a ser um verdadeiro ativo estratégico.

Vivemos numa era em que inovar não é uma opção, é uma necessidade. É nesse equilíbrio entre inovação e fiscalização que reside a verdadeira força de uma economia moderna e credível.

  • Virgílio Macedo
  • Bastonário da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas

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