Com os olhos postos no céu, e um gerador na Terra
A Kristin tem o 'dom' de colocar (de novo) em cima da mesa a capacidade do país em enfrentar crises, quando em causa estão infraestruturas críticas como energia ou telecomunicações.
“Depressão Kristin: Vento intenso até 140km/h nas próximas horas na sua região. Fique atento. Siga as recomendações das autoridades.” O alerta, no meu caso, foi recebido às 15h17 de terça-feira, e muito provavelmente também por muitos portugueses residentes nas regiões de Coimbra, Leiria e Marinha Grande. Possivelmente, terá sido uma das últimas mensagens que receberam da Proteção Civil. Agora, mesmo que essa comunicação exista, dificilmente a receberão no seu telemóvel.
A passagem da depressão teve um impacto “gigantesco”. A destruição da rede elétrica na região foi “brutal” — quase 800 quilómetros de linhas destruídas, postes de alta tensão no chão — e com ela foram abaixo (de novo) as telecomunicações. E a retoma dos serviços, tanto de energia como de comunicações, no momento em que escrevo estas palavras, ainda não tem data firme de reposição total.
O regresso das comunicações móveis ou da internet — mesmo com milhares de técnicos no terreno ou a Forças Armadas a avançar para com limpeza de terrenos e corte de árvores caídas nas estradas — acontece aos poucos, à conta de estações móveis de comunicações ou geradores para dar energia às estações. E não há comparação possível com o ‘apagão’ em abril do ano passado, que deixou o país às escuras de luz e comunicações durante cerca de 24h. A ANACOM faz o retrato.
Os ventos avassaladores provocaram “queda de postes, queda de árvores ou de outras estruturas sobre os traçados aéreos de fibra ótica”, elencou o regulador das telecomunicações. Há ainda “danos em torres e mastros de comunicações e, ainda com alguma expressão, é de referir também a inoperacionalidade de sites por indisponibilidade de energia elétrica”, diz ainda. “Muitos cell sites móveis permanecem sem serviço, e a rede fixa só será restabelecida à medida que haja eletricidade nas residências, uma vez que os routers dependem de energia para funcionar.”
O verdadeiramente preocupante é que tudo indica que este tipo de eventos extremos não dão sinais de abrandamento. Logo, a probabilidade de um novo colapso pós-depressão climática X (colocar no X o nome da próxima), mega incêndio ou ataque cibernético — cenário que, no atual momento de tensão geopolítica, ganha contornos de maior probabilidade — parece estar apenas ali ao virar da esquina.
A realidade é, por isso, bastante distinta. Mas, quem enfrenta na pele a incerteza do regresso de serviços essenciais — em particular os mais vulneráveis, como idosos ou doentes crónicos dependentes de aparelhos para respiração, os testemunhos que nos chegam pelos media são desoladores — tem alguma dificuldade em aceitar esta demora. Como alertava, na RTP, o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, a tolerância das pessoas tem limites.
A Kristin tem o ‘dom’ de colocar (de novo) em cima da mesa a capacidade do país em enfrentar crises, quando em causa estão infraestruturas críticas como energia ou telecomunicações (que, em abono da verdade, não têm sequer esse estatuto).
O cenário não é novo, é algo que, com maior ou menor dimensão, o país se debate — veja-se os dolorosos casos de Pedrógão ou o ‘apagão’, só para referir dois exemplos —, mas o verdadeiramente preocupante é que tudo indica que este tipo de eventos extremos não dão sinais de abrandamento. Logo, a probabilidade de um novo colapso pós-depressão climática X (colocar no X o nome da próxima), mega incêndio ou ataque cibernético — cenário que, no atual momento de tensão geopolítica, ganha contornos de maior probabilidade — parece estar apenas ali ao virar da esquina.
Portugal, pese embora os esforços das equipas no terreno e das forças de socorro, parece estar despreparado. Em julho passado, no pós apagão, foi anunciado um pacote de 400 milhões, para executar 31 medidas para reforçar a segurança operacional do Sistema Elétrico Nacional. Deste montante, 25 milhões seria para melhorar a resiliência das infraestruturas críticas, como instalações de saúde, as forças armadas, de segurança, a proteção civil e os bombeiros, para a instalação de painéis solares fotovoltaicos e sistemas de armazenamento. Chega tarde
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