Em mar de piranhas, jacaré nada de costas (X)
Em Ronchamp e Dornach, a constatação de que a arte se impõe por si. E que não carece de um atestado de utilidade.
Oscar Wilde tinha um talento especial para frases – que afiava com ironia e inteligência. Ele escreveu por exemplo: “A vida é demasiado importante para ser levada a sério“, uma frase que se tornou um mantra para muita gente. Disse, também, que “um cínico é um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada”, uma verdade com que nos deparamos frequentemente. Ou que “o pessimista é uma pessoa que podendo escolher entre dois males, escolhe ambos” – o que, também, é confirmado pela observação da natureza humana.
O autor também escreveu, no prefácio do livro ‘O retrato de Dorian Gray’, que “a arte é completamente inútil“. A frase deve ser entendida como uma provocação – e Wilde era pródigo em provocações. É óbvio que o autor não pretendia proclamar, com esta sentença, a irrelevância da arte, mas, simplesmente, manifestar o seu desagrado com uma visão utilitarista da mesma, refutando a ideia de que à arte se exige uma função prática para existir.
De facto, a arte mão tem em si mesmo um utilidade mensurável. No entanto, ela dispõe do poder de despertar a nossa sensibilidade, de nos emocionar perante a beleza do mundo e de nos inquietar perante a sua fealdade. E esta dimensão, a que a arte nos faz o favor de transportar, não cabe no formato de uma folha de excel ou numa análise meramente contabilística que apenas procura apurar ganhos e perdas.
Esta frase de Wilde regressou ao meu espírito, estas férias, quando, em Ronchamp, me confrontei com a belíssima Capela de Notre Dame-du-Haut. O espaço onde se encontra, na região francesa de Haute-Saône, acolheu sucessivamente um templo romano pagão e uma capela e santuário dedicados à Virgem Maria e ao acolhimento de peregrinos.
Em plena Revolução Francesa, a capela foi confiscada pelo Estado e vendida a um madeireiro local, mas quarenta famílias de Ronchamp resgataram a capela, devolvendo-a à sua função primordial. O edifício foi, entretanto, atingido por um raio em1913 e destruído pelos bombardeamentos alemães em 1944. O arquiteto Le Corbusier é, então, convidado para reconstruir a capela, fazendo-o em betão, entre 1953 e 1955, segundo a sua visão de uma arquitetura modernista e brutalista.
O novo edifício é de uma beleza imensa, com a sua cobertura que se assemelha a uma carapaça de caranguejo, os vitrais de cores intensas, pintados à mão com palavras associadas ao culto mariano. A arte e o génio de Le Corbusier expressos no despojamento do interior da capela, na simplicidade absoluta do seu altar, na presença discreta, mas luminosa, da escultura da Virgem Maria, inspiram qualquer visitante no seu diálogo com o divino. Tudo ali, convoca ao silêncio, à meditação e à paz.
No dia seguinte, em viagem pela Suíça, uma paragem em Dornach, para conhecer a sede da Sociedade Antroposófica, um movimento lançado pelo humanista, pedagogo e visionário Rudolf Steiner.
O caminho conduz-nos por um aglomerado de casas com formas invulgares até chegarmos ao Goethenaum, o centro da sociedade que se assume como uma escola de ciências do espírito. O edifício de betão é, também ele, uma expressão do pensamento de Steiner, com escadas amplas e labirínticas, paredes de cores invulgares, janelas largas sobre a paisagem verde, tudo dominado pelo conceito da metamorfose.
Numa sala, de acesso reservado, no último piso do edifício, reside aquela que, para mim, foi a descoberta mais extraordinária: um conjunto de cadeiras convida os visitantes à reflexão perante uma escultura imponente em madeira, com mais de nove metros de altura, em que uma figura, representando a Humanidade, se confronta com as forças do mal.
Na vibrante obra projetada por Rudolf Steiner e pela escultora Edith Maryon, observa-se a felicidade do mundo espiritual, mas, também, a arrogância, os perigos e a maldade do mundo terreno. A escultura sintetiza e evidencia a dimensão espiritual presente na obra escrita de Steiner e a sua busca permanente pela transformação do ser humano e pela elevação do pensamento.
Em Ronchamp e Dornach, nem sequer me ocorreu equacionar a utilidade da arte. Ela impõe-se por si. E não carece nunca de um certificado de utilidade.
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