Um cessar-fogo sem sabor a paz
Este sábado, iniciam-se as negociações para o que se espera um acordo de paz, com o vice-presidente JD Vance a liderar do lado americano. Esperemos que ânimos mais serenos se sentem à mesa.
Quando, esta sexta-feira, os quatro astronautas da missão Artemis regressarem à Terra depois de 10 dias de viagem à Lua, a primeira missão tripulada à Lua em mais de 50 anos, serão confrontados pela realidade: aqui no planeta Azul pouco ou quase nada mudou. EUA e Irão, com a mediação do Paquistão, acordaram um cessar-fogo de duas semanas, mas a avaliar pelos dias seguintes ao anúncio, esta pausa na guerra tem pouco sabor a paz, para não dizer nenhum. Mais parece uma fogueira eternamente alimentada por gasolina.
Uma das condições do acordo era o desbloquear do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz — a provocar ataques de nervos na economia mundial —, mas, na prática, a passagem de navios continua a conta-gotas e é difícil falar-se em pausa no conflito quando Israel continua a fustigar o Líbano ou o Hezbollah, como diz Netanyahu. Porque, diz o primeiro-ministro israelita e o presidente americano, o Líbano não está incluído no acordo de suspensão das hostilidades. Visão contrariada pelo Irão. Tanto assim que o país — há muito um apoiante do grupo radical xiita libanês — ameaça tirar o dedo do botão de pausa na guerra. O Estreito de Ormuz continua para todos os efeitos fechado, e Donald Trump já vociferou o seu descontentamento na Truth Social: “Isto não é o acordo que nós temos.”
Este sábado, iniciam-se as negociações para o que se espera um acordo de paz, com o vice-presidente JD Vance a liderar do lado americano. Esperemos que ânimos mais serenos se sentem à mesa.
Pelo meio, a Europa debate-se com a melhor forma de se posicionar no conflito. Para mais, que a ação militar dos EUA e de Israel — não sancionada, como lembra, por exemplo, a Espanha — está a elevar os níveis de tensão entre o Velho Continente e Tio Sam para níveis nunca antes vistos. Teme-se que a NATO seja uma espécie de ‘casuality of war by friendly fire‘.
No mesmo dia em que os EUA anunciavam o que classificavam de “vitória decisiva” sobre o Irão, Mark Rutte, secretário-geral da NATO, reuniu com Trump na Casa Branca. Uma “conversa franca”, mas parece que desta vez o “Trump whisperer” não terá tido um efeito pacificador no “desapontamento” do presidente norte-americano com os seus aliados da NATO, alguns dos quais fecharam acesso a bases ou o espaço aéreo a aviões americanos a caminho do Médio Oriente.
A Europa debate-se com a melhor forma de se posicionar no conflito com o Irão. Para mais, que a ação militar dos EUA e de Israel — não sancionada, como lembra, por exemplo, a Espanha — está a elevar os níveis de tensão entre o Velho Continente e Tio Sam para níveis nunca antes vistos. Teme-se que a NATO seja uma espécie de ‘casuality of war by friendly fire’ .
Depois da reunião, a saída dos EUA da organização de defesa não foi anunciada, como se chegou a temer, mas notícias de que Trump estava a exigir compromissos ‘nos próximos dias’ para o envio de forças militares europeias para garantir o desbloqueio de Ormuz circularam e foram vistas até como um ultimato por diplomatas europeus, noticiou o Der Spiegel.
A degradação da relação — e o impacto nas capacidades de defesa do continente europeu, num momento em que na Ucrânia a paz está longe de alcançada — levou Merz a vir a público lançar água na fervura: “Não queremos — eu não quero — que a NATO se divida. A NATO é uma garantia da nossa segurança, incluindo e acima de tudo na Europa”, disse o chanceler alemão. E Rutte lembrou, quando falou na Fundação Ronald Reagan, que uma Europa segura é também uma América segura.
A ver vamos se será suficiente para ‘acalmar’ Trump e os seus posts incendiários na Truth Social ou se a relação EUA-Europa vai manter o estado de “complicado”.
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