A expansão de Setúbal para leste, projetada desde os anos 1980, deu um novo passo com o início de uma urbanização que terá 676 apartamentos. Dores Meira, autarca, vê ali a próxima "zona âncora".
Zona ocidental da cidade, terrenos desordenados, construção ilegal, bairros municipais degradados, mas com bons acessos e uma frente de rio com grande potencial de desenvolvimento. O lado leste de Setúbal está a ressurgir, numa analogia fácil com o trabalho iniciado há quatro décadas na zona oriental de Lisboa, atual Parque das Nações. Maria das Dores Meira, autarca eleita a 12 de outubro, esteve nesta quinta-feira presente na cerimónia de lançamento oficial da primeira pedra do novo empreendimento Parque da Cidade – Riverside Living, e partilhou com o ECO/Local Online os planos para uma área que a autarca pretende ver como “nova âncora” para a cidade a que já presidiu entre 2006 e 2021.
Nesta vasta área ainda marcadamente rural convivem bairros camarários a requerer reabilitação, terrenos do IHRU com construção agrícola e habitacional ilegal e, como grande potencial, uma frente de rio ainda marcadamente industrial e com várias construções degradadas ou em ruínas.
O vasto parque verde que entrelaçará com o centro da cidade no início da Avenida Luísa Todi será vital para a recuperação urbanística, destaca Maria das Dores Meira. Hortas comunitárias, miradouros e caminhos pedonais elevados farão parte deste projeto cujos primeiros 30 hectares foram simbolicamente entregues à autarquia na passada quinta-feira pelo promotor do novo empreendimento Parque da Cidade Riverside Living.

“Há todas as condições de começar por criar aqui uma nova centralidade. Isto vai ser uma zona âncora e extremamente apetecível para que mais investidores possam vir a transformar esta cidade”, considera Maria das Dores Meira.
Há todas as condições de começar por criar aqui uma nova centralidade. Isto vai ser uma zona âncora e extremamente apetecível para que mais investidores possam vir a transformar esta cidade.
Ao ECO/Local Online, a autarca recorda que esta área a leste de Setúbal “esteve muitos anos ao abandono. Muitos destes terrenos são do IHRU, ocupados por hortas e por construções ilegais, mas vão agora sofrer uma grande limpeza, feita pela Câmara e custeada pelo IHRU”.
A puxar por esta requalificação está o projeto de um parque urbano que, em fevereiro próximo, terá os seus primeiros 30 mil metros quadrados finalizados, obra de um promotor imobiliário, Madre Property Development, grupo detido pelo empresário António Parente, dono também dos hotéis AP e da produtora de televisão SP.
Dores Meira, ex-autarca de Setúbal pelo PCP e eleita de novo a 12 de outubro como independente, com o apoio do PSD, diz haver articulação com o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, para acelerar os projetos que dependem do IHRU para requalificação desta área do concelho.
A autarca, que aponta a limpeza deste território como imperiosa, apontando, além das construções ilegais, também as descargas ilegais de entulhos – uma das várias similitudes que encontramos com o projeto encetado há 40 anos na zona que deu lugar à Expo 98, atual Parque das Nações.
Nesta vasta área existem terrenos de serviços, espaços verdes e espaços desportivos que “ainda não estão adaptados” à Lei dos Solos, mas a autarca admite poder haver uma alteração futura de uso para que mais habitação possa trazer dinamismo a esta zona – outra das potenciais comparações com a requalificação da zona oriental de Lisboa, onde o imobiliário potenciou a reconstrução do que é hoje o Parque das Nações.
“O que tem que acontecer é a não proliferação de construção de barracas, construções ilegais, que é o que está a acontecer aqui, o que nos está a afligir. E não pode ser também o espaço onde se põem os lixos”. A autarca não deixa dúvida sobre o que espera para estes cerca de 100 hectares: “Queremos limpar isto”.
O que tem que acontecer é a não proliferação de construção de barracas, construções ilegais, que é o que está a acontecer aqui, o que nos está a afligir. E não pode ser também o espaço onde se põem os lixos.
Na requalificação da zona, a Câmara irá intervir, em colaboração com o IHRU, na construção de cerca de mil habitações para arrendamento e para compra, ambos a valores acessíveis.
“Vamos criar uma nova centralidade em Setúbal nascente. Setúbal está condicionada por duas áreas geográficas muito boas para o município, o Parque Natural da Arrábida e a reserva do estuário [do Sado], mas que não nos deixam crescer. Só podia crescer para aqui. Esta zona estava abandonada há muitos anos e agora está a transformar-se”.
Com acessos rodoviários rápidos às autoestradas A2 e A12, bem como ao centro da cidade, o lado leste terá agora de ver crescer o corredor verde até à Avenida Luísa Todi e mais equipamentos. “No PT 2030 vai haver linhas para a construção de equipamentos na área da educação. Esperamos que venham para aqui muitos jovens, que tenham crianças e façam desenvolver a nossa terra. Daquilo que diz respeito à responsabilidade da Câmara, tem que haver condições para que estes jovens se instalem aqui”.
Requalificar pela mão do imobiliário, como na “Expo”
Num terreno cujo projeto inicial e loteamento datam de há cerca de 20 anos, a Madre Property Development surgiu, após a insolvência do anterior proprietário, com os meios para proceder a uma reforma que contemplou a redução do número de edifícios de 51 para 16, embora mantendo a volumetria e número de fogos. O resultado final é o aumento da frente de cada edifício, chegando aos 10 fogos por piso, em edifícios com seis a oito pisos e detalhes de desenho para os posicionarem na classe média-alta.

A nova urbanização, que terá 16 lotes, 676 fogos, 92 mil metros quadrados de construção residencial e 4.000 metros quadrados de espaços comerciais, arranca com três edifícios. Para avançar em simultâneo, o promotor vendeu quatro lotes a dois investidores, pretendendo assim aumentar a confiança entre os clientes iniciais.
Perante a situação de terem um edifício isolado com 57 apartamentos “numa zona que vai ser uma nova centralidade, mas ainda não é”, como destaca o diretor de projetos da zona da Grande Lisboa da Madre Property Development, a empresa convidou dois parceiros, que até março iniciarão também obras nos seus dois edifícios, explica André Moura. A explicação das razões ao ECO/Local Online, para justificar a venda de quatro dos 16 lotes, entendem-se melhor após se conhecer a zona.
A venda não se deveu a “alavancagem financeira, mas de alavancagem do próprio loteamento, para ganhar tração”, diz o responsável do promotor. “Para as pessoas sentirem que estão aqui três investidores, querem desenvolver isto, vai acontecer, há um showroom, estão três edifícios a acontecer ao mesmo tempo. É difícil para nós enquanto promotores arriscar e colocar três edifícios ao mesmo tempo” em construção, explica. “Precisámos desses parceiros para desenvolver connosco”.
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Setúbal cresce para leste com o seu “Parque das Nações”
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