Só 7% das empresas vai conseguir aproveitar fundos da bazuca

Um inquérito da AEP mostra a falta de confiança dos empresários no aproveitamento dos milhões do Plano de Recuperação e Resiliência. Impostos, transportes e matérias-primas condicionam a retoma.

Três em cada quatro empresas assumem que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) desenhado por Portugal não corresponde às suas expectativas e apenas 7% antecipa que vai conseguir aproveitar os fundos disponíveis.

Segundo um inquérito realizado durante o mês de setembro pela Associação Empresarial de Portugal (AEP), a que o ECO teve acesso, 60% das 342 empresas consultadas refere ter já a convicção de que não vai utilizar os milhões da chamada bazuca europeia.

Para Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP, este “é um sinal claro de que as empresas consideram que o PRR não se destina a apoiar a iniciativa privada” e um “sentimento grave [que] significa que só uma maior alocação de verbas aos criadores de riqueza e emprego produzirá impacto ao nível de uma recuperação mais forte e sustentada da economia”.

"Os empresários sabem que grande parte das verbas é para o setor público e também que as que são dirigidas exclusivamente às empresas tardam a ser implementadas em pleno. Veja-se, por exemplo, o caso das medidas de apoio à recapitalização.”

Luís Miguel Ribeiro

Presidente da AEP

Como se explica a falta de esperança dos empresários num instrumento em que o Governo e o Presidente da República apostam as fichas para a retoma económica? “Os empresários sabem que grande parte das verbas é para o setor público e também que as que são dirigidas exclusivamente às empresas tardam a ser implementadas em pleno. Veja-se, por exemplo, o caso das medidas de apoio à recapitalização das empresas”, responde o dirigente associativo.

“A burocracia e o prazo de aprovação dos projetos não são compatíveis com as reais necessidades das empresas, por isso as taxas de execução são tão baixas. Os incentivos às empresas devem estar abertos em contínuo e não através de avisos, que nem sempre ocorrem no timing das empresas”, acrescenta Luís Miguel Ribeiro.

Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP.

Mais: um em cada três inquiridos diz não ter opinião sobre a utilização do PRR na empresa que lidera. E o desconhecimento é ainda maior no caso do Portugal 2030, subindo para 60% a percentagem dos que admitem desconhecer o impacto que poderá ter o próximo quadro financeiro plurianual.

O líder da AEP prefere falar antes em “ausência de expectativas” por parte das empresas, que “já perceberam que a fatia que lhes é alocada no PRR é reduzida”, e no “muito pouco [que] se sabe quanto ao Portugal 2030”. E “num momento em que o sistema financeiro não responde às necessidades das empresas”, sublinha a importância de tornar estes apoios “mais eficazes”.

Estes resultados estão em linha com o pessimismo evidenciado num outro estudo de opinião divulgado pela CIP e pelo ISCTE, em que seis em cada dez empresários acham que o PRR vai ter pouco (28%) ou mesmo nenhum impacto (32%) direto ou indireto nos seus negócios.

Barreiras e planos de investimento

A elevada carga fiscal, os preços elevados no transporte e a falta de disponibilidade de matérias-primas ou de produtos intermédios são os três fatores que os gestores portugueses ouvidos pela associação sediada em Matosinhos consideram que mais podem condicionar a rápida recuperação da atividade empresarial no pós-pandemia.

Na lista dos maiores obstáculos à retoma, apontados como importantes ou muito importantes, seguem-se a “burocracia, complexidade e quantidade legislativa, nomeadamente no cumprimento das obrigações fiscais e na operacionalização dos fundos europeus”; os atrasos nos pagamentos por parte do Estado; os preços elevados da energia; e a “legislação laboral ainda muito rígida face a um mercado de trabalho em acelerada transformação”.

A AEP questionou ainda estes 342 líderes de vários setores, sobretudo de micro e PME sediadas no Norte do país, sobre os planos de investimentos ainda para este ano ou para 2022. A maioria (67%) confirma essa hipótese e há ainda 13% que “talvez” avance nesse sentido. As três áreas em que mais planeiam investir são na inovação ou melhoria dos processos, produtos ou serviços; na digitalização; e no aumento da capacidade produtiva.

Em resultado desta auscultação, a associação patronal aproveitou ainda para elencar 11 prioridades para as empresas que devem constar da proposta de Orçamento do Estado para 2022, que será aprovado pelo Governo esta sexta-feira e que será apresentado no Parlamento no início da próxima semana.

Fiscal

  • Redução da carga fiscal (IRC, Tributação autónoma, ISP, Imposto de selo, TSU, IRS)
  • Reforma Fiscal e da Justiça

Laboral

  • Maior flexibilidade na legislação laboral
  • Redução dos custos salariais

Formação

  • Estímulo à formação e à requalificação profissional
  • Adequação da oferta formativa às necessidades do mercado
  • Apoio à Formação (falta mão-de-obra especializada)
  • Agilização da contratação do exterior (para combater a falta de recursos no mercado nacional)

Financiamento

  • Apoio ao financiamento das PME na sua modernização e na reestruturação dos seus capitais próprios
  • Acelerar o pleno funcionamento do Banco de Fomento

Energia

  • Reduzir os custos da energia (eletricidade, combustíveis e gás)

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