Audiência dos canais de informação cresce 51% em cinco anos, com mais interesse dos portugueses
“É uma luta bastante interessante”, refere o presidente da GFK sobre os canais de informação. "A vitalidade do setor é um ótimo sinal,", acrescenta CEO da IPG Mediabrands.
“Todos os canais de informação cresceram. Acho que é uma prova de que trouxemos para o mercado da televisão por cabo muitos espectadores que não estavam lá”. A convicção é de Carlos Rodrigues, diretor-geral editorial da Media Livre, e foi proferida em entrevista ao +M no início de julho, por altura do primeiro aniversário do Now.
Há um ano, também em entrevista antes do lançamento do canal, o diretor da CMTV e do Now traçava como objetivo, mais do que ‘roubar’ espectadores à concorrência, “trazer os abstencionistas para o sistema”. “Vamos procurar ter uma oferta que mantenha as pessoas dentro do sistema televisivo clássico, em vez de mudarem para as plataformas”, desvendava Carlos Rodrigues.
Em novembro de 2024, por altura do terceiro aniversário da CNN Portugal, também Nuno Santos, diretor do canal e diretor de informação da TVI, se mostrava confiante quanto ao potencial de telespectadores nos canais de informação. “[Antes do arranque do canal] Há quatro anos, quando falámos pela primeira vez, embora a CNN fosse ocupar o espaço onde estava a TVI24, afirmei que a CNN preenchia um campo novo porque nós queríamos que fosse bastante distinta daquilo que era a TVI24. Isso veio a confirmar-se. E disse também que acreditava que havia espaço para alargar a oferta informativa. A CNN comprovou isso e os últimos meses também comprovaram que ainda há espaço para alargar o leque da oferta de informação”, dizia Nuno Santos.
“Só tem paralelo com aquilo que tinha acontecido 20 anos antes, com a SIC Notícias, embora num mercado diferente, porque a SIC Notícias entrou num mercado que era virgem ou que tinha sido tomado, de forma muito ténue, pelo CNL. Vinte anos depois, o mercado é diferente”, prosseguia o primeiro diretor da SIC Notícias. “O que consigo concluir, e é uma leitura também factual, é que a CNN mantém uma liderança sólida e quer a SIC Notícias quer o Now, que são os nossos concorrentes, estão ainda bastante longe da CNN. Isso é factual, decorre dos números”, resumia em novembro Nuno Santos.
Ora, oito meses depois, os números dão razão tanto a Nuno Santos como a Carlos Rodrigues.
Em cinco anos, o número médio de espectadores dos canais de informação cresceu 51,42%, dos 97,5 mil espectadores em 2020 para os 147,7 mil em 2025.
Parece-me que é uma realidade consistente. Tem-se investido muito na informação. O Now tem um ano e pouco e já está de forma sustentada no Top 10. E a CNN e a SIC Notícias não baixaram,.
De acordo com os dados trabalhados pela Dentsu Media para o +M, os grandes saltos deram-se precisamente de 2021 para 2022, com a CNN Portugal a quase duplicar a audiência da TVI24, e do último ano para este, com o Now a trazer mais 30 mil “abstencionistas” para o sistema. Aliás, em 2025, na comparação com o ano anterior, todos os canais de informação melhoraram a sua penetração no mercado.
“A informação ‘vende’, interessa aos portugueses”, comenta António Salvador, presidente do conselho de administração do grupo GFK Portugal, empresa que mede as audiências de televisão no país. “Parece-me que é uma realidade consistente. Tem-se investido muito na informação. O Now tem um ano e pouco e já está de forma sustentada no Top 10. E a CNN e a SIC Notícias não baixaram”, comenta o especialista.
António Salvador acredita que se trata de uma tendência que veio para ficar. O mundo, os factos, têm dado uma ajuda, com a guerra na Ucrânia, a situação na Faixa de Gaza e Trump e as suas políticas a contribuírem para a apetência para a informação. “Sempre que os níveis de preocupação são elevados, merecem a nossa atenção. Há um clima de incerteza que leva a que as pessoas estejam mais atentas e interessadas”, aponta António Salvador, recordando em 2020 a pandemia e a forma como a informação foi procurada nesse período. “Acabou a pandemia e as pessoas não perderam o interesse”, constata, dizendo provavelmente “existir um maior nível de atenção pela informação do que por outros programas”.
Agora, alerta o gestor, “depende muito do investimento que os canais sejam capazes de fazer”. Para já, António Salvador realça o investimento que o Now tem vindo a fazer, o relançamento da SIC Notícias e a força da CNN Portugal, que conta também com os conteúdos da casa mãe. “É uma luta bastante interessante de assistir”, conclui.
Quanto à RTP3, que não tem perdido espectadores, é esperar para ver. “Toda a gente está preocupada com a informação. É um bom sinal. É importante resistir e ter bons resultados”, conclui.
Alberto Rui Pereira, CEO do grupo IPG Mediabrands, também vê nos canais de informação um setor especialmente dinâmico. “A SIC Notícias começou sozinha. Com a entrada da CNN criou-se um dinamismo grande no setor. A CNN tornou-se líder muito rapidamente, até contra algumas expectativas, não se esperava que fosse tão rápido. O Now abriu território novo, não andaram propriamente a tirar audiência à SIC Notícias e à CNN. E está a crescer muito rapidamente, já está muito colado à SIC Notícias e em alguns dias a ultrapassar”, descreve o responsável máximo pelas agências de meios Initiative e UM.
Ou seja, “há uma maior concorrência, a oferta é mais dinâmica, há mais qualidade do produto final e as pessoas acabam por reconhecer essa qualidade na informação e apareceram novos telespectadores. A vitalidade do setor é um ótimo sinal, até porque falamos de conteúdos que contribuem para a literacia a vários níveis, para termos uma população mais informada”, aponta.
A vitalidade do setor é um ótimo sinal, até porque falamos de conteúdos que contribuem para a literacia a vários níveis, para termos uma população mais informada. Haverá um teto a partir do qual será difícil crescer, mas ainda não o atingimos.
“Haverá um teto a partir do qual será difícil crescer”, admite o responsável. No entanto, “os números parecem dizer que ainda não atingimos esse patamar”. “Prova é que o Now que continua a crescer e os outros canais não estão a cair”, resume.
Apesar do que parecem ser boas notícias, Gustavo Cardoso, professor catedrático do ISCTE, lembra que apesar do crescimento, se está perante um número reduzido de pessoas. “Mesmo que os valores sejam reais, falamos de 1 a 2% da população. Não se pode dizer que seja um mercado de massas”, remata. “Não se vê como pode haver crescimento. O nosso mercado televisivo é melhor a ir buscar audiência ao vizinho do que a procurar novos públicos. Não se imagina novos públicos abaixo dos 20 anos, não criamos produto para ir buscar novos públicos”, defende o também diretor do Obercom.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.