Centenária Poças pisca o olho ao mercado premium do vinho do Porto em ano de quebra de vendas

Portuguesa Poças é das "poucas produtoras de vinhos do Porto" que se mantém na mesma família. Num setor em crise, a quarta geração aposta no enoturismo e nos vinhos mais caros.

A quarta geração da Poças, produtora de vinhos do Porto e DOC Douro29 dezembro, 2025

Conta um século de história a marca de vinhos do Porto que Manoel Domingues Poças Júnior começou a escrever na Quinta das Quartas, no Douro, e onde em abril de 2026 será inaugurado um projeto de enoturismo, num investimento de meio milhão de euros. Para captar um mercado premium que procura experiências vínicas mais exclusivas, numa altura em que o setor vitícola sofre quebras nas vendas e a Poças não é exceção. O gestor Pedro Pintão antecipa faturar menos 1,3 milhões este ano.

“Seria tapar o sol com a peneira dizer que não há nenhum problema no mercado de vinhos, porque é evidente. É um produto que está sob pressão nos mais variadíssimos mercados; veja o caso de França que está a arrancar vinha”, começa por notar Pedro Pintão, um dos três bisnetos do fundador da produtora de vinhos do Porto e DOC Douro, com sede em Vila Nova de Gaia, e três quintas na região duriense. Mas já lá vamos.

Apesar das adversidades e desafios que o setor enfrenta, os bisnetos Pedro Pintão (diretor de marketing e vendas), Maria Manuel Maia (responsável pelas áreas de enologia e viticultora) e Paulo Pintão (produção e área administrativa/financeira), não baixam os braços e as ideias fervilham para levar a bom porto esta herança vínica.

Orgulham-se da centenária Poças ser uma das poucas empresas portugueses de vinho do Porto que ainda se mantém na mesma família e de tal forma que a chegam a classificar como “o lado mais português da história do Douro vinhateiro”.

Mas, se o mercado tem “assistido a uma diminuição da quantidade de vinhos e das vendas, sobretudo daqueles vinhos do Porto mais baratos”, já em contrapartida, vinca Pedro Pintão, “tem havido uma compensação não total, mas muito interessante com a venda de vinhos do Porto de mais valor acrescentado, por exemplo, os tradicionais 10, 20, 30 e 40 anos, e os Colheitas”. E a tendência do mercado passará por aí: “Provavelmente vamos vender menos, mas, por outro lado, estamos trabalhar para que se venda melhor”.

Provavelmente vamos vender menos, mas, por outro lado, estamos trabalhar para que se venda melhor.

No caso da Poças é precisamente o vinho do Porto que tem um maior peso no volume de negócios (cerca de 75%) com um milhão e 250 mil garrafas vendidas por ano, contabiliza o gestor. Com 85% dos vinhos exportados para 30 países, a Poças que tem como principais mercados a Bélgica, Dinamarca, Canadá, Holanda e Portugal. Ambiciona “crescer no Japão, Coreia e Macau”, além de conquistar o palato de novos mercados, como o africano.

O enoturismo, outra vertente do negócio da produtora de vinhos do Porto e DOC Douro, traduz-se em cerca de 10% na faturação desta empresa centenária. Contribui para impulsionar as vendas de vinhos mais caros aos turistas que procuram experiências vínicas exclusivas, desde a visita à adega até às provas vínicas no centro de visitas, localizado no centro histórico de Vila Nova de Gaia.

É neste centro de visitas, entre balseiros e barricas, que os bisnetos de Manoel Domingues Poças Júnior conquistam a curiosidade e o palato de turistas, sobretudo franceses, americanos e espanhóis. “Contamos a história da empresa e do vinho do Porto, explicamos que tipos existem”, descreve, e a experiência continua na sala de provas, nomeadamente com vinhos mais raros. “Somos muito conhecidos pelos Tawny, como o nosso dez anos que é um produto bandeira da empresa.

Para Pedro Pintão, “o vinho é cada vez mais visto como uma experiência”. “Aliás, cremos que efetivamente a prazo as pessoas vão continuar a beber vinho, mas vão procurar produtos de maior valor e valorizar muito a experiência vínica“, sustenta. E é nesta área do negócio que os bisnetos do fundador estão a investir meio milhão de euros, na Quinta das Quartas que lançou a família no mapa vínico como produtores de referência na região vinhateira do Douro.

Para abril de 2026 está prevista a inauguração do projeto de enoturismo nesta quinta que o bisavô Manoel Domingues Poças Júnior recebeu como pagamento de uma dívida e onde se dedicou à produção de Vinho do Porto”, depois de ter iniciado a empresa em 2018 com o comércio de aguardente.

“Estamos a começar um projeto de enoturismo na Quinta das Quartas, num investimento de 500 mil euros, à semelhança do que já temos em Vila Nova de Gaia”, avança Pedro Pintão ao ECO/Local Online. No terceiro ano de atividade espera faturar meio milhão de euros e captar cerca de 15 mil turistas do “mercado premium.

Na Quinta das Quartas vai nascer um projeto de enoturismo num investimento de meio milhão de eurosJ Ferrand 29 dezembro, 2025

O futuro espaço “vai incluir uma loja, espaço para provas de vinhos e degustação gastronómica, devendo estar pronto em abril do próximo ano”, detalha o gestor que deverá fechar este ano com 6,2 milhões de euros de faturação contra os 7,5 milhões contabilizados em 2024, e em parte a reboque dos desafios que o negócio do vinho enfrenta a nível internacional. “O mercado tem sido mais difícil este ano, mas há já alguns anos que o setor vitícola tem vindo a perder vendas”, justifica Pedro Pintão.

De acordo com a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o consumo mundial de vinho caiu em 2024 para os 214 milhões de hectolitros, o que já não acontecia desde 1961 e que representa uma descida de 3,3% face a 2023. Entre os fatores o relatório da OIV elenca os “efeitos das alterações climáticas, as mudanças nas preferências dos consumidores e a incerteza geopolítica no setor”.

A tudo isto acresce a “questão geracional”, com a mudança de hábitos de consumo entre os mais jovens que optam por vinhos com menos teor alcoólico, e já não há tanto o costume de beber um copo de vinho do Porto como aperitivo como acontecia antigamente.

Na mais antiga região vitícola regulamentada do mundo, a Poças tem três quintas com uma área total de 100 hectares, 76 hectares dos quais de vinha. Na Quinta das Quartas em Fontelas, localizada na sub-região do Baixo Corgo, funciona o centro de vinificação e um armazém de envelhecimento de vinhos do Porto em pipas e balseiros.

“É da Quinta de Santa Bárbara, em Ervedosa do Douro (Cima Corgo), com cerca de 30 hectares, que saem grande parte dos nossos vinhos de topo, ou seja, Vintage, Colheitas e vinhos tintos de topo”, descreve o gestor. Acresce ainda a Quinta de Vale de Cavalos, em Numão (Douro Superior) que a empresa comprou no final dos anos 1980 e onde começou a dar os primeiros passos na produção dos vinhos DOC Douro. “Fomos, aliás, uma das primeiras empresas com um histórico de vinho do Porto que começou também a produzir DOC Douro. “Foi um marco importante na Poças”, recorda.

Nos dias de hoje, contabiliza, “a gama DOC Douro representa entre 25% a 30% da produção da Poças” que inclui no portefólio vinhos tranquilos brancos e tintos, e ainda espumante.

Recentemente, a Poças lançou quatro novos vinhos, entre eles duas edições especiais e limitadas “Fora da Série”: o tinto “Uppercut” produzido a partir de castas tintas provenientes de vinhas velhas do Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior; e o branco “Dogleg” a partir de lotes brancos de diferentes anos do Baixo Corgo e Douro Superior. Ambos os néctares foram criados a partir de blends de diferentes anos e foram lançadas para o mercado 1.825 garrafas de cada.

Estes lançamentos da gama “Fora de Série” surgem para celebrar os dez anos do enólogo André Pimentel Barbosa na empresa.

Além destas duas edições especiais, a Poças tem à venda no mercado o vinho espumante “Fora da Série Élevé”, produzido a partir da casta Rabigato. Entre as novidades constam ainda um Porto branco Poças Colheita White 2015, envelhecido durante 10 anos em cascos de carvalho com mais de quatro décadas de uso; e um tinto monovarietal “Alicante Bouschet 2022”.

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